Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, reforçou as ameaças de um novo ataque contra o Irã, exigindo que o país negocie um novo acordo nuclear.
O republicano afirmou que um próximo ataque ao país do Oriente Médio seria “muito pior” do que a ofensiva de junho de 2025, que incluiu o uso de bombardeiros B2 para atingir instalações nucleares iranianas.
Especialistas consultados avaliaram qual seria o impacto de um novo ataque dos Estados Unidos contra o Irã — e se o regime dos aiatolás pode cair após décadas.
Consequências de um ataque dos EUA ao Irã
A “consequência imediata” de um ataque dos Estados Unidos seria uma retaliação das forças iranianas contra bases americanas no Oriente Médio ou até uma ofensiva diretamente contra Israel — maior parceiro dos EUA na região –, segundo avaliação de Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, inclusive, alertou anteriormente que o Irã consideraria as bases e instalações militares dos EUA e de Israel no Oriente Médio como “alvos legítimos” caso o país seja atacado.
De toda forma, Amaral não vê “ímpeto” tanto por parte dos Estados Unidos quanto do Irã para escalonar a situação para uma guerra regional. Ele explica que o custo de um conflito do tipo seria muito alto e que os EUA não estão no “auge”, passando, na verdade, por um momento de tensão e questionamento.
Sidney Leite, professor de Relações Internacionais da Universidade Rio Branco, concorda que é possível que o Irã faça ataques contra bases dos EUA em países vizinhos e contra aliados dos americanos na região, incluindo Israel.
De toda forma, o especialista afirma que seria um “suicídio” uma ofensiva contra Israel, pois isso acarretaria um contra-ataque “de forma desproporcional e destrutiva” para o Irã.
Ele também avalia que uma consequência importante de um ataque dos Estados Unidos seria estimular a reorganização de opositores internos ao regime, tanto para que voltem a protestar quanto para montarem projetos para acesso a armas e definição de um liderança.
Por fim, Leite ressalta que o Irã possui uma “bomba atômica” que pode ser ativada em caso de um ataque: fechar o estreito de Ormuz.
“Fechando o estreito de Ormuz, ele praticamente vai obstaculizar o fluxo de boa parte do petróleo que sai do Oriente Médio e vai para regiões como Oceania, Ásia, especialmente Japão”, explica o professor.
De toda forma, ele pontua que essa “bomba atômica” só seria usada em uma situação extrema.
Regime dos aiatolás pode cair com um novo ataque dos EUA?
De toda forma, Amaral e Leite também concordam que seria improvável que “apenas” um ataque dos Estados Unidos derrube o regime dos aiatolás, que está em vigor desde 1979.
Assim, eles pontuam que é necessário um alinhamento de fatores, que passaria desde a possibilidade de uma intervenção prolongada das tropas americanas no Irã até atuação de forças do próprio regime e articulação da oposição iraniana.
Rodrigo Amaral avalia que uma ofensiva para derrubar o regime do Irã precisaria incluir uma intervenção “ativa”, com envio de tropas, e não apenas ataques aéreos. De toda forma, pondera que isso seria improvável devido ao custo e grande capacidade militar iraniana.
Além disso, o país do Oriente Médio possui uma proteção geográfica “natural”, que dificultaria incursões. “Além de ser cercado por montanhas na maior parte do território, as partes que não são cercadas por montanhas dão acesso a um terreno lamacento e posteriormente a áreas de deserto”, complementa Sidney Leite.
Com isso, os especialistas reforçam a necessidade de uma articulação da oposição iraniana. Porém, o desafio está exatamente na união entre os grupos contrários ao regime dos aiatolás dentro do país — e, até, na presença de possíveis líderes dessas correntes dentro do território iraniano.
Do lado dos monarquistas, o principal expoente é Reza Pahlavi, herdeiro do regime dos Xás — que caiu em 1979 com a revolução islâmica. Entretanto, Pahlavi está exilado nos Estados Unidos, não tendo muito controle da articulação dentro do Irã.
Assim, Amaral pontua que seria necessária uma ruptura com a elite iraniana. “Qual que seria a possibilidade [de derrubar o regime]? Seria você conseguir quebrar o regime por dentro, você encontrar pessoas dispostas a querer transformar a estrutura de poder”, diz.
Sidney Leite reforça que “dificilmente o regime iraniano cairá sem uma ação forte, incisiva e armada de forças internas”.
“Lembremos que o conselho dos aiatolás, o aiatolá Ali Khamenei, ele tem o apoio não só das Forças Armadas tradicionais, mas da Guarda Revolucionária. Enquanto essas forças forem leais a Ali Khamenei, ao conselho dos aiatolás, dificilmente o regime cairá, mesmo com uma ação aérea dos Estados Unidos”, adiciona.

