O tratado nuclear que limita o tamanho do arsenal nuclear de Estados Unidos e Rússia terminou na virada de quarta (4) para esta quinta-feira (5).
Conhecido como novo tratado START, ele limitava o número de ogivas estratégicas implantadas a 1.550 em cada lado, com não mais de 700 mísseis e aviões bombardeiros implantados lançados por terra ou submarinos para entregá-los.
Mas analistas de segurança ressaltam que o valor dos tratados nucleares vai muito além da fixação de limites numéricos: eles criam um quadro transparente e estável que impede a corrida armamentista de se descontrolar.
E com o fim do tratado, essa é a primeira vez em mais de meio século que Rússia e EUA ficam sem restrições mútuas sobre o tamanho de seus arsenais estratégicos — as armas que usariam para atacar as capitais uns dos outros, bases militares e centros industriais em caso de guerra nuclear.
Na ausência de um entendimento que proporcione estabilidade e previsibilidade, analistas afirmam que cada lado terá mais dificuldade em interpretar as intenções do outro.
Isso pode levar a uma espiral em que cada um sinta a necessidade de continuar adicionando armas, com base em suposições pessimistas sobre os planos do adversário.
O fim do tratado nuclear causou reações de diversos atores mundiais em meio a temores por uma corrida nuclear. Confira abaixo as reações de Rússia, EUA, China, União Europeia, ONU e até do papa Leão XIV.
- Rússia
O Kremlin novamente lamentou nesta quinta-feira o fim do tratado. Ao mesmo tempo, o vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dimitri Medvedev, disse na quarta que “o inverno está chegando” —uma provocação aos EUA. Na terça, o governo russo afirmou estar pronto para um “novo mundo” sem limites para armas nucleares.
- Estados Unidos
O governo Trump ainda não se manifestou de forma oficial após o vencimento do New START até a última atualização desta reportagem. O site norte-americano “Axios” revelou nesta quinta-feira que EUA e Rússia estão se aproximando de uma extensão do tratado.
Uma autoridade da Casa Branca afirmou à imprensa que “haverá notícias” sobre o New START e sugeriu que um novo acordo deve incluir a China, indicando possíveis negociações nos bastidores. A fonte, porém, não deu mais detalhes nem disse quando essas “notícias” sairiam.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou na quarta-feira que qualquer novo acordo nuclear com a Rússia deve incluir também a China e citou “arsenal considerável e em rápida expansão” chinês.
O Departamento de Estado dos EUA, que no texto do New START em seu site afirmou considerar o tratado como fundamental para obter informações críticas sobre o programa nuclear russo, não emitiu um comunicado oficial sobre o vencimento do tratado.
- União Europeia
A União Europeia pediu nesta quinta-feira que todos os lados exerçam moderação neste momento.
- China
A China, tida por especialistas como um pivô do fim do New START pela rápida expansão de seu arsenal nuclear, lamentou nesta quinta-feira (5) o vencimento do tratado.
O porta-voz do Ministério chinês das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que a China compartilha da preocupação da comunidade internacional por possíveis impactos negativos na ordem nuclear global. Jian também pediu aos EUA que “deem uma resposta ativa” à situação atual e regome os diálogos com a Rússia.
- ONU
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou na quarta-feira que o fim do New START representa um “grave momento” para a paz e para a segurança internacional. “Pela primeira vez em mais de meio século, enfrentamos um mundo sem quaisquer limites vinculantes aos arsenais nucleares estratégicos” dos dois países, afirmou Guterres.
- Papa Leão XIV
O papa Leão XIV pediu na quarta-feira que EUA e Rússia renovem seu acordo nuclear e disse que a atual situação mundial “exige que se faça todo o possível para evitar uma nova corrida armamentista”.
O que é o New START?
Infográfico mostra capacidades nucleares de EUA e Rússia e histórico do tratado New START. — Foto: Kayan Albertin/Arte g1
O New START é o último tratado de controle de armas entre as duas maiores potências nucleares do mundo. O acordo foi assinado em 2010 pelo próprio Medvedev, que era presidente da Rússia na época, e Barack Obama.
O tratado entrou em vigor em 2011 e foi estendido em 2021 por mais cinco anos, após a posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos.
Pelo acordo, Moscou e Washington se comprometem a não implantar mais de 1.550 ogivas nucleares estratégicas e 700 mísseis e bombardeiros de longo alcance.
O texto também prevê inspeções mútuas. Cada país pode realizar até 18 inspeções anuais em locais estratégicos de armas nucleares. As inspeções foram suspensas em março de 2020, durante a pandemia da Covid-19.
As negociações para retomar as inspeções estavam previstas para novembro de 2022, no Egito, mas foram adiadas pela Rússia e não houve definição de nova data.

