Mais de R$ 6 mil em transferências bancárias, dívida de R$ 12.182,11 e dois empréstimos consignados que somam R$ 35.632,80 foram feitos em nome de uma mulher, de 55 anos, com enfermidade mental, segundo a Polícia Civil, por Simone da Silva, de 42, sobrinha da vítima do estelionato. Ela foi presa sob a suspeita de compor uma rede de pedofilia que teria como principais figuras o piloto Sérgio Antônio Lopes, de 60, e Denise Moreno, de 53, avó de duas adolescentes que sofreram abusos.
O crime de estelionato atribuído a Simone da Silva, cujo processo segue em andamento no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), não possui nenhuma relação com a prisão dela e da dupla, ocorrida na última segunda-feira (9/2), em operação deflagrada pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
O trio segue atrás das grades. A defesa de Sérgio foi procurada pelo Metrópoles, mas se negou a comentar o caso, alegando que o processo segue em sigilo. A defesa das mulheres não foi localizada, e o espaço segue aberto para manifestações.

A apuração sobre o estelionato começou após familiares da mulher relatarem que os valores teriam sido contratados e transferidos sem o consentimento dela. Tia de Simone da Silva, a vítima, que tem diagnóstico de enfermidade mental — não especificada na investigação —, recebe dinheiro do Loas, um benefício do INSS que paga o equivalente a um salário mínimo a pessoas com deficiência (PCDs) e idosos em situação de vulnerabilidade social. Devido à condição de saúde, ela também frequenta o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de São Mateus, zona leste da capital paulista.
O benefício que deixou de chegar
O caso foi registrado em outubro de 2022, no 49º Distrito Policial (São Mateus). Segundo o boletim de ocorrência, obtido pelo Metrópoles, a vítima faz uso de medicação controlada e depende do benefício assistencial.
A irmã dela, Marilene Vieira, de 65, relatou à polícia que a vítima do estelionato vinha passando por dificuldades financeiras desde a pandemia, sob a impressão de que não estaria recebendo regularmente o benefício do INSS.
Ao comparecerem a uma agência do banco Itaú, instituição na qual a vítima mantinha conta, familiares identificaram diversas transações bancárias em favor de Simone da Silva, descrita no processo como sobrinha de ambas.
O documento policial classifica o fato como crime consumado de estelionato cometido contra pessoa com deficiência mental.
As transferências
Conforme a investigação, entre julho e outubro, foram realizadas transferências que somam mais de R$ 6 mil retirados da conta da vítima. O documento aponta que ela não reconhece as operações nem teria autorizado as movimentações. Além das transferências, foi identificada dívida de R$ 12.182,11 no banco Itaú.
Após consulta ao INSS, Marilene verificou ainda a contratação de créditos consignados vinculados ao benefício da vítima. O primeiro, no Banco C6, no valor de R$ 5.140,80, dividido em 81 parcelas de R$ 61,20; o segundo, firmado com o Banco PAN S/A, no valor de R$ 30.492,00, parcelado em 84 vezes de R$ 363. O contrato inicial, segundo o processo, teria sido refinanciado.
O boletim policial obtido pela reportagem ainda informa que a vítima não possui curadora legal e que, naquele momento, não foi possível mensurar a totalidade dos créditos eventualmente contratados sem seu conhecimento. No processo, também consta o registro de extravio do documento pessoal da tia doente de Simone da Silva, em setembro de 2022.
A investigação
Diante dos indícios, a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar eventual prática de estelionato por parte de Simone da Silva. Foram determinadas diligências para colher o depoimento das vítimas e requisição de informações às instituições financeiras.
O procedimento tramita com prioridade, em razão da condição da vítima com neurodivergência.
Desde então, o inquérito foi prorrogado sucessivas vezes, com pedidos de dilação de prazo formulados pela polícia e acolhidos com concordância do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Situação atual
As movimentações mais recentes indicam que o caso permanece em fase de apuração, sob acompanhamento judicial na capital paulista. Simone da Silva figura formalmente como investigada.
Até o momento, segundo os registros consultados, não há informação sobre oferecimento de denúncia ou alguma decisão judicial contra Simone da Silva.
No conjunto dos valores já identificados — transferências, dívida e empréstimos —, a soma ultrapassa R$ 47 mil. A apuração busca esclarecer se os contratos e as movimentações foram realizados de forma fraudulenta e se houve aproveitamento da condição de vulnerabilidade da beneficiária do Loas com enfermidade mental.

