A Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) articula com o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), uma missão oficial à Europa até março para reforçar a pressão política pela aprovação do acordo Mercosul-UE (União Europeia). A informação foi antecipada pelo presidente da Apex, Jorge Viana, em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (22).
Segundo Viana, Alcolumbre comunicou que o tema será a “principal agenda” do Congresso na volta do recesso parlamentar.
“Ontem eu conversei muito com o Davi Alcolumbre. Ele vai transformar esse tema na agenda principal da volta dele agora no recesso. Nós vamos descer a agenda junto com os líderes dos Congressos do Mercosul, para aprovar o quanto antes no Brasil e no Mercosul”, disse na ocasião.
A estratégia, segundo Viana, é aprovar o acordo internamente e, em seguida, construir pressão política sobre os europeus, com articulação direta entre os parlamentos.
“Aprovar, ficar totalmente pronto pelo lado do Mercosul e fazermos juntos uma missão para visitar o Parlamento Europeu. De presidente de parlamento para presidente de parlamento, abrir o diálogo no nível parlamentar”, destacou.
Viana também indicou que a Apex prepara uma ofensiva de comunicação para enfrentar resistências e atualizar a percepção sobre o Brasil entre os eurodeputados e consumidores.
Os estudos internos da agência mostram que o Brasil tem espaço para ampliar exportações em 543 produtos com desgravação imediata, que somam US$ 43,9 bilhões em importações anuais da UE, dados que reforçam a necessidade de reposicionar a imagem do país no bloco.
Ele afirmou que a imagem do Brasil, especialmente do agro, ainda carrega resquícios de governos anteriores, quando indicadores sociais e ambientais pioraram.
“A imagem do Brasil, na realidade, mudou, e ela tem que ser trabalhada lá também. Então a Apex está entrando até nesse lado da comunicação, para mostrar que, olha, os argumentos usados há 4, 5 anos atrás não cabem nesse momento”, pontuou.
“Nós temos que fazer campanha de esclarecimento, rodar a narrativa correta, fazer material e trabalhar essa imagem”, disse.
A reação da Apex ocorre após o Parlamento Europeu ter solicitado uma revisão jurídica adicional do acordo, assinado após 26 anos de negociação no último sábado (17). O movimento retarda a tramitação e abre margem para novas objeções de grupos contrários ao Mercosul.
A resolução, aprovada por 11 votos de diferença, atendeu às pressões de parlamentares que pedem salvaguardas ambientais adicionais e mecanismos mais rígidos de verificação, uma demanda que pode, na prática, inviabilizar o acordo atual.
O texto aprovado não derruba a negociação, mas cria um obstáculo político relevante e amplia o tempo de análise no bloco.
Viana demonstrou preocupação com o resultado e descreveu o processo como fruto de baixa mobilização dos favoráveis. Ele lembrou que o procedimento já foi usado em outros acordos comerciais:
“Isso aconteceu também quando o acordo Canadá-UE foi assinado. Usaram esse mesmo instrumento. Tinha sido tentado antes e não tinha funcionado, mas agora aproveitaram a desmobilização dos favoráveis”, disse.
Viana também destacou que parte da oposição ao acordo vem de setores agrícolas europeus e de grupos políticos que se uniram contra produtos brasileiros.
“Tem um lobby muito grande na Europa contra produtos brasileiros, por interesses conhecidos. A gente respeita as diferenças que o governo tem com a França. A agricultura é muito diferente, tem um custo muito elevado”, registrou.
Os dados da própria Apex usados por Viana mostram o contraste entre percepção e realidade: a Europa é o segundo maior destino das exportações brasileiras, com US$ 49,8 bilhões em 2025, atrás apenas da China, e a participação do agro no comércio bilateral representa 23%, bem abaixo do estereótipo de que o acordo é dominado por produtos agrícolas.

