O petróleo segue central na matriz energética global, mas as crises recentes na Venezuela e no Irã deixam uma lição clara para mercados e formuladores de política: a dependência de hidrocarbonetos impõe riscos geopolíticos crescentes — e cada vez menos compensadores do ponto de vista econômico.
No caso venezuelano, a reticência das grandes petrolíferas americanas em retomar as atividades naquele país não se resume às sanções. O histórico de instabilidade institucional, intervenções estatais e nacionalizações cria um ambiente onde o risco jurídico supera qualquer potencial de retorno.
Além disso, a retomada relevante da produção exigiria investimentos vultosos — estimados em dezenas de bilhões de dólares — apenas para recuperar infraestrutura básica.
Mesmo assim, o prazo para que esse esforço se converta em aumento efetivo de oferta seria longo, incompatível com a lógica de retorno exigida hoje pelo mercado.
Na percepção das grandes petrolíferas americanas, investir na Venezuela elevaria o WACC — o custo médio de capital — e reduziria o valuation dos projetos, ao incorporar riscos políticos e regulatórios difíceis de precificar.
Diante desse cenário, faz mais sentido para as petrolíferas direcionar recursos para regiões com maior estabilidade regulatória ou para projetos energéticos com risco político significativamente menor.
Com o Brent orbitando a faixa de US$ 60 por barril, projetos que exigem CAPEX – o investimento necessário – alto e horizonte longo de retorno, como a recuperação da produção venezuelana, perdem atratividade.
Adicionalmente, a ampliação da oferta global, em um contexto de demanda mais contida, tenderia a pressionar para baixo os preços internacionais. Esse movimento comprometeria a viabilidade de operações de maior custo, como o fracking nos Estados Unidos, perspectiva que deve ser ponderada pelas petrolíferas americanas.
Na prática, essa combinação de fatores eleva o custo de capital do setor, reduz a disposição para novos aportes e reforça a preferência de grandes investidores por ativos com menor risco regulatório e geopolítico, reordenando portfólios globais.
O Irã expõe outra dimensão do problema. A instabilidade interna e as tensões no Oriente Médio reforçam a vulnerabilidade do sistema energético global a gargalos logísticos, em especial no Estreito de Ormuz. Mesmo sem impacto direto na produção, crises na região elevam custos de transporte, seguros marítimos e prêmios de risco — efeitos suficientes para contaminar preços e expectativas.
Esses episódios ajudam a explicar por que a China vem acelerando sua transição energética. Mais do que uma agenda climática, trata-se de uma estratégia de redução da dependência de petróleo importado de regiões politicamente sensíveis. Diminuir essa exposição é também uma forma de proteger o crescimento econômico e a segurança energética.
As crises na Venezuela e no Irã mostram que a transição energética deixou de ser apenas uma resposta ambiental. Ela passou a ser, sobretudo, uma estratégia racional de redução de risco geopolítico, financeiro e econômico em um mundo cada vez mais volátil.

