O mercado de soja inicia 2026 com um cenário de oferta confortável e preços pressionados, reflexo de sucessivas safras robustas e de uma demanda que cresce em ritmo mais moderado. No Brasil, a perspectiva é de mais um recorde de produção, o que reforça a tendência de cotações mais moderadas ao longo do ano.
A produção brasileira na safra 2025/2026 está estimada em 176,1 milhões de toneladas, volume 2,7% superior ao do ciclo anterior e o maior da história, aponta a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) essa produção coloca o Brasil em uma posição confortável para ampliar o processamento e a exportação o esmagamento de soja.
A expectativa é de um aumento de 4,27% no esmagamento do grão este ano, alcançando 61 milhões de toneladas. “Esse volume favorece a oferta, as vendas internas e as exportações de farelo e óleo. Os principais fatores de impulso são o aumento da mistura de biodiesel, que eleva a demanda por óleos e gorduras, e a forte demanda externa por farelo de soja”, diz Daniel Furlan Amaral, diretor de economia e assuntos regulatórios da Abiove.
Atualmente, o biodiesel absorve uma parte muito importante do óleo de soja vendido no mercado doméstico, representando cerca de 70% da demanda interna pelo produto.
A maior parte da produção brasileira da soja é exportada. Projeções da Abiove, apontam para vendas externas de 111,5 milhões de toneladas este ano. Já os embarques de farelo devem atingir 24,6 milhões de toneladas e os de óleo quase 1,5 milhão de toneladas. “As exportações e os estoques finais de óleo podem sofrer alterações caso o governo concretize o aumento da mistura obrigatória para B16 ainda este ano”, avalia o executivo da Abiove.
Nos últimos anos, o consumo interno tem ganhado relevância no Brasil. O esmagamento de soja segue em expansão desde 2023, impulsionado principalmente pela retomada e ampliação da mistura obrigatória de biodiesel.
Produção global
No cenário internacional, o mercado de soja atravessa o quarto ano consecutivo de produção mundial superior ao consumo. De acordo com Ana Luiza Lodi, especialista em inteligência de mercado da StoneX, esse desequilíbrio explica o viés mais baixista de preços observado desde o pico de preços em 2022.
“Após cotações muito elevadas naquele ano, o mercado entrou em um ciclo mais pressionado justamente porque não houve ameaças relevantes à oferta global”, afirma a analista.
Embora a diferença entre produção e consumo tenha diminuído na safra 2025/2026, o saldo ainda é positivo. Os Estados Unidos já concluíram sua colheita, enquanto o Brasil segue dependente das condições climáticas até março, especialmente em regiões de plantio mais tardio, como o Rio Grande do Sul. Ainda assim, a expectativa predominante é de uma safra cheia.
Brasil, Estados Unidos e Argentina concentram a maior parte da produção global de soja. Na Argentina, o cenário ainda é de cautela uma vez que regiões importantes, como Córdoba e Buenos Aires, enfrentam condições mais secas. No país vizinho a produção deve recuar levemente em relação ao ciclo anterior, refletindo a redução de área. A estimativa atual aponta para 48,5 milhões de toneladas, contra 50,3 milhões no ano passado.
“Se não houver surpresas climáticas relevantes, especialmente na América do Sul, o cenário é de continuidade de uma oferta confortável, o que limita movimentos mais fortes de alta nos preços”, avalia Lodi.
Outro fator decisivo para o cenário global será a definição da área plantada nos Estados Unidos. Na safra 2025/2026, o país cultivou cerca de 32,86 milhões de hectares de soja, abaixo dos 35,33 milhões do ciclo anterior. Para 2026, a expectativa é de recuperação da área, com aumento ainda incerto, mas que pode ser de cerca de 1,6 milhão de hectares.
Importações chinesas
Do lado da demanda, a China permanece como o principal termômetro do mercado internacional. Embora o crescimento das importações não seja tão acelerado quanto em décadas anteriores, o país segue como o maior comprador global de soja.
A tendência é de manutenção das compras no Brasil, especialmente no primeiro semestre, período em que o país domina as exportações globais por conta da sazonalidade da colheita. Mesmo acordos pontuais entre China e Estados Unidos não alteraram de forma estrutural esse fluxo.
“O que guia o mercado é a demanda chinesa. Muitos produtores estão segurando vendas, apostando em uma retomada mais forte das compras”, observa Nathalia Giannetti, responsável pela precificação de grãos do Brasil na Argus.
No Brasil, as lavouras de Mato Grosso apresentam bom desempenho, apesar de irregularidades nas chuvas. O plantio foi acelerado e as condições gerais são melhores do que no ano passado, embora haja preocupação com possíveis atrasos na janela do milho safrinha e com gargalos logísticos em um ano de produção recorde.
Além disso, questões estruturais como estoques e capacidade de armazenagem continuam sendo desafios, especialmente em anos de produção recorde, quando a logística se torna ainda mais pressionada.

