Naquele tempo, dizia Manaus aos seus infantes: “É chegado a quaresma. Ide ao encontro da
Páscoa de Abril”. E as infâncias da cidade presenciavam as imagens dos santos de suas igrejas
cobrirem-se totalmente de tecido roxo como sinal de luto pelos quarenta dias que antecediam a
Semana Santa. E iam cumprir o rito da quarta-feira de cinzas… O anedotário baré conta que muitos
recebiam as cinzas na missa das 7 da manhã. Logo após retirarem às pressas, as fantasias das festas
carnavalescas. No entanto os olhos perspicazes do padre tinha o poder demiúrgico de vasculhar
as almas através de apenas um confete esquecido na cabeça. E o fiel ainda regurgitando a última
marchinha: “Oh! Quarta-feira ingrata… chega tão depressa só para contrariar!… Mas a
Misericórdia tomava-lhe a mão e induzia-o a impor as cinzas mesmo encima de um esquecido
confete na cabeça… Mas o “Pó és e ao pó voltarás” quedou-se irremediavelmente tatuado nos
espíritos daquelas infâncias. Aquelas Páscoas de Abril… dos eleitos, não possuíam a conotação do
consumismo. Não comercializavam a data. Não haviam coelhinhos e muito menos ovos de
chocolate. Aquelas Páscoas eram parcimoniosas. Haviam autos-pascais em algumas igrejas. Mas o
verdadeiro zênite estava na exibição gratuita a todo o povo nos nove cinemas da cidade (governo
Mestrinho a tudo custeava) do filme sacro de nome tão longo: “Vida, Paixão, Morte e Ressurreição
de N. Senhor Jesus Cristo”. É hoje um clássico das memórias visuais. Cinematograficamente de
péssima qualidade. Mudo. Pleno de falhas, cortes e todos os defeitos provenientes de uma fita já
caquética. Ah! Mas os corações das infâncias daquele abril concentravam-se na apoteótica
ressurreição do Cristo. Aquelas páscoas de abril mostravam que a fé prevalece “se teu mundo não
é pequeno” parafraseando Fernando Pessoa. E durante anos consecutivos viam e repetiam a
filmagem como categoria das almas daquelas infâncias com tão pouco e tão felizes! Quinta-feira e
sexta-feira santa eram essencialmente feitas para a penitencia, orações e procissão do Senhor
Morto. O que mais nos intrigava era aquele suor de sangue no Horto das Oliveiras! Tinha muita
identidade com Manaus. Éramos esquecidos, geográfica e economicamente pelo governo federal.
Estávamos sós. Cada um de nóstinha um Getsemâni no peito. Sozinhos. Enquanto o resto do Brasil
dormia como os apóstolos, em total indiferença. O suor sanguíneo de Jesus, os científicos
chamavam de hematidrosis. (os capilares subcutâneos se dilatam de tal forma e em contato com
as glândulassudoríparas ocasionam gotas de sangue mescladas com gotas de suor dando a cor um
aspecto rosado forte. Não é à toa que é Lucas o evangelista médico que narra essa síndrome da
dor e do conflito interior de Cristo no umbral de sua morte. E o “Meu Deus, meu Deus porque me
abandonaste?” ”Perguntavam os 144 mil eleitos da Manaus de 200 mil habitantes? O Filho de Deus
perdera como, Manaus a esperança em dias prósperos? Dos púlpitos explicavam o grito. Não de
desespero, mas de uma oração. Era o salmo profético de esperança 21 do Antigo Testamento.
Aquelas Páscoas de Abril as infâncias eram únicas e indivisíveis. Tinham cada uma o sol em suas
mãos…
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense
de Letras e da Academia Marial do Santuário de Aparecida-SP