Há três palavras que ajudam a “ler” 2026 sem ansiedade e sem ingenuidade: inflação, juros e atividade. Elas formam um tripé simples, mas poderoso, porque traduzem o que realmente mexe com o humor do emprego — e, principalmente, com a decisão de contratar.
Em 2025, o Brasil fechou com inflação de 4,26% (IPCA), dentro do intervalo da meta. Isso não é um detalhe técnico: é um sinal de que a economia preservou uma espécie de “piso de previsibilidade”, condição mínima para qualquer ambiente de contratações. Do lado do mercado de trabalho, os números também mostraram vigor: a taxa de desocupação chegou a 5,2% no trimestre móvel set–out–nov/2025, com renda média real de R$ 3.574. E no emprego formal, o país acumulou +1.800.650 vagas de janeiro a outubro de 2025, segundo o Novo Caged.
A mensagem é clara: 2025 foi um ano de trabalho ainda firme. O desafio — e também a oportunidade — é entender como esse fôlego se transforma em caminho real para quem busca emprego em 2026, especialmente no Amazonas, onde a economia tem um coração industrial e, ao mesmo tempo, uma vocação crescente para serviços, logística, tecnologia e bioeconomia.
O que muda quando os juros sobem — e o que melhora quando eles cedem
É aqui que o tripé se encaixa como uma luva. Quando a inflação ameaça subir, o Banco Central tende a manter juros elevados para conter preços. Juros altos encarecem crédito, e crédito caro tem um efeito silencioso: faz a empresa pensar duas vezes antes de investir, ampliar planta, abrir nova linha, reforçar estoque — e, consequentemente, contratar.
Em 2025, a Selic chegou a 15%, um patamar restritivo. Isso ajuda a segurar a inflação, mas exige paciência de setores que dependem de financiamento e de parcelas longas para girar. Para 2026, as projeções sinalizam possibilidade de alívio gradual: o Focus aponta Selic de 12,25% ao fim de 2026 (mediana) e PIB de 1,8%. Se esse caminho se confirmar, a tendência é um cenário de contratações mais favorável, sobretudo para atividades que “destravem” quando o crédito melhora: construção, comércio, indústria e cadeias de investimento.
Mas seria um erro concluir que 2026 será um ano de paralisia até que os juros cedam. O mundo real não é tão linear — e o Amazonas sabe disso.
Amazonas: onde o emprego tem âncora — e pode ganhar novas velas
No Amazonas, existe um fato estruturante: o Polo Industrial de Manaus (PIM). Ele não é apenas um conjunto de fábricas; é um sistema econômico que puxa logística, serviços, comércio, tecnologia, manutenção, segurança do trabalho, qualidade, transporte, alimentação, suprimentos — e uma longa rede de fornecedores.
Em 2025, até novembro, o PIM superou R$ 200 bilhões em faturamento e manteve média de 131.444 empregos diretos no ano. Esse dado é mais do que estatística: é um lembrete de que, mesmo em períodos de cautela macroeconômica, o Amazonas possui uma âncora formal que sustenta renda, qualificação e rotas de mobilidade social.
A questão, então, deixa de ser “vai ter emprego?” e passa a ser: como o Amazonas transforma sua força industrial em plataforma de oportunidades mais diversificadas e mais espalhadas pelo território?
Porque o nosso desafio histórico é conhecido: Manaus concentra — e o interior, muitas vezes, observa. 2026 pode ser um ano de mudança gradual desse desenho, desde que o estado trate o trabalho como um projeto de território, e não apenas como um resultado espontâneo do mercado.
Setores que seguram e setores que aceleram
Se o início de 2026 ainda vier com juros altos e crescimento moderado, é natural ver uma recalibragem. Alguns segmentos tendem a sentir mais; outros tendem a segurar melhor.
Em geral, serviços seguem sustentando o emprego por terem demanda contínua: saúde, educação, serviços às empresas, tecnologia, atendimento, suporte e operações. Logística e cadeia de suprimentos também ganham relevância, por mudanças de rotas, expansão do e-commerce e necessidade de eficiência — algo que conversa diretamente com a realidade do PIM. E energia e infraestrutura podem se tornar áreas ainda mais promissoras se houver melhora de financiamento e projetos consistentes, inclusive para reduzir custos e ampliar a confiabilidade de sistemas no interior.
Por outro lado, construção e bens duráveis (como móveis e eletroeletrônicos) costumam ser mais sensíveis ao custo do crédito. Parte do varejo também sente antes — porque é ali que juros e renda se encontram no bolso das famílias.
Ainda assim, o mais importante é perceber: mesmo quando a economia desacelera, o trabalho não desaparece — ele muda de forma. E quem se adapta mais rápido, entra primeiro.
A nova disputa: não é só por vagas — é por prontidão
A pergunta que eu mais ouço não é “onde estão as vagas?”, mas “o que o mercado quer?”. E a resposta, em 2026, tende a ser uma combinação simples: base técnica + eficiência operacional + atitude de aprendizagem.
Por isso, alguns perfis se tornam mais demandados mesmo em anos de cautela, a começar por Técnicos e tecnólogos (manutenção, mecatrônica, eletrotécnica, automação, qualidade, segurança do trabalho);
Temos ainda o setor de Logística (planejamento, estoque, transporte, compras, operações); Dados e digital (Excel avançado, BI, análise de dados, suporte, cibersegurança básica); Vendas e atendimento com método (CRM, pós-venda, relacionamento, metas)
E começa a ganhar destaque a agenda ESG e compliance operacional (rastreabilidade, auditorias, processos, relatórios, rotinas).
No Amazonas, isso conversa diretamente com a estrutura produtiva: duas rodas, eletroeletrônicos, informática, termoplásticos, metalmecânica e, principalmente, a enorme camada de serviços e fornecedores que sustenta o Polo.
O ponto decisivo é que o mercado está ficando menos tolerante ao improviso. A concorrência não é só entre candidatos: é entre níveis de prontidão.
O interior: onde o emprego precisa virar projeto
Se Manaus tem âncora, o interior precisa ter rota. E essa rota passa por quatro frentes que podem amadurecer em 2026, se forem tratadas com seriedade. Refiro-me à Bioeconomia de verdade (cadeias da sociobiodiversidade com escala, mercado e governança); Turismo estruturado (experiência, qualificação, logística e promoção);
Com o avanço da indústria 4.0 e dos Serviços e economia digital (infraestrutura e formação para trabalho remoto e negócios locais) as vagas são mais atraentes, e se juntam à área de Energia e conectividade como infraestrutura de oportunidades (sem isso, o interior fica fora do século).
Esse é o “salto” mais bonito — e mais necessário — que podemos dar: fazer do trabalho um pacto de coesão territorial.
Um recado prático para quem está buscando emprego em 2026
Para quem está na ponta — buscando vaga, recolocação ou primeiro emprego — eu recomendo três passos simples, sem romantização e sem desespero:
Escolha uma trilha: técnico industrial, logística, administrativo-comercial ou tecnologia.
Faça uma certificação curta e reconhecida: curso técnico, profissionalizante, ferramentas digitais.
Monte portfólio do que sabe fazer: projetos simples, planilhas, manutenção, atendimento, qualquer evidência prática.
O mercado está valorizando quem chega com base técnica, disciplina e aprendizado contínuo. Em ano fácil, isso acelera a carreira. Em ano difícil, isso coloca você na frente.
2026: o ano da seriedade com esperança
Gosto de olhar 2026 como um ano de seriedade com esperança. Seriedade para entender o tripé inflação–juros–atividade e não cair em promessas fáceis. E esperança porque o Amazonas tem uma vantagem real: uma economia com âncora industrial, capacidade de encadeamento e uma juventude que, quando encontra trilha, responde com força.
Se o crédito melhorar aos poucos e a atividade mantiver ritmo, o emprego acompanha. Mas, mesmo antes disso, há algo que já pode começar hoje: qualificação, prontidão e organização de trilhas.
No fim das contas, trabalho é isso: encontro entre oportunidade e preparo. E o Amazonas tem condições de fazer 2026 ser um ano em que esse encontro aconteça com mais frequência — e com mais futuro.
Nelson é economista, empresário, presidente do SIMMMEM, Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM.

