Há políticas públicas que se explicam por planilhas. E há aquelas que se explicam pelo mapa. A Zona Franca de Manaus pertence, antes de tudo, à segunda categoria.
Qualquer pessoa que conheça minimamente a Amazônia Ocidental — não em fotografia, mas em logística; não em discurso, mas em cadeia de suprimentos — sabe que produzir riqueza e oportunidade aqui exige vencer um conjunto de obstáculos que o “Brasil continental” raramente precisa enfrentar: distâncias reais, sazonalidades, gargalos de transporte, alto custo de energia e de conectividade, limitações de infraestrutura e um permanente teste de competitividade.
Ainda assim, a Zona Franca segue de pé, de pé e em movimento. E é precisamente por isso que vale registrarmos, com serenidade e firmeza, os avanços do programa de desenvolvimento regional que ela materializa — mesmo quando o debate nacional insiste em tratá-la como caricatura.
O que os números contam — e o que eles desmentem
Nos últimos anos, o Polo Industrial de Manaus tem demonstrado uma capacidade de resiliência que deveria ser estudada com mais respeito e menos preconceito. Entre janeiro e novembro de 2025, o PIM superou R$ 209,48 bilhões em faturamento (antes mesmo do fechamento do ano), com aumento de 10,42% sobre o mesmo período de 2024; em dólares, US$ 37,68 bilhões. No mesmo intervalo, a média mensal de empregos diretos ficou em 131.444 trabalhadores, alta de 6,42% sobre 2024. 
Isso não é um detalhe estatístico. É a demonstração prática de que, mesmo sob pressões externas e internas, o modelo continua sendo uma plataforma econômica capaz de sustentar trabalho formal, renda, arrecadação e produção em uma região onde o “custo Brasil” chega mais caro e mais tarde.
A própria Suframa sintetiza, em sua apresentação institucional, a dimensão do ecossistema: faturamento anual superior a R$ 204 bilhões (referência que vem sendo reiterada nos materiais oficiais) e geração de mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos. 
O equívoco recorrente: chamar de “privilégio” o que é correção federativa
Existe um tipo de crítica à Zona Franca que nasce, quase sempre, longe demais da realidade amazônica: a ideia de que incentivos fiscais seriam “favor”, “exceção injustificável” ou “renúncia sem retorno”.
A verdade é mais simples e mais dura: sem instrumentos de compensação, a Amazônia Ocidental seria empurrada — por pura lógica econômica — para atividades de baixa agregação de valor, maior informalidade e maior pressão sobre a floresta. A Zona Franca, com todas as suas imperfeições, foi a forma encontrada pelo Estado brasileiro para dizer: “não aceitaremos que a distância vire condenação”.
Chamar isso de privilégio é confundir geografia com ideologia.
Infraestrutura: o desafio que a ZFM não escolhe, mas enfrenta todos os dias
O Brasil debate competitividade como se ela fosse apenas uma escolha de gestão. Na Amazônia, competitividade é também uma disputa contra o terreno, o tempo e a ausência histórica de investimentos estruturantes.
A Zona Franca cresceu apesar desses limites — e, muitas vezes, por causa deles: tornou-se um sistema de engenharia institucional que aprendeu a operar com restrições. Mas ninguém deveria achar normal que uma região estratégica do país dependa, por décadas, de improvisos logísticos, instabilidades de conectividade e custos operacionais superiores para competir no mesmo mercado nacional.
Por isso, reconhecer os avanços do PIM não significa romantizar suas dificuldades. Significa afirmar que o próximo ciclo de desenvolvimento regional precisa ser acompanhado de um pacto realista por infraestrutura, ciência, tecnologia, energia e integração produtiva.
Reforma tributária: preservar a ZFM é preservar um compromisso nacional
O debate atual impõe um dever de precisão: a Reforma Tributária alterou o sistema, mas não revogou a necessidade da Zona Franca. A Emenda Constitucional nº 132/2023 redesenhou a arquitetura do consumo no país.  E a Lei Complementar nº 214/2025 instituiu IBS, CBS e Imposto Seletivo, detalhando o novo regime. 
Esse novo desenho exige vigilância técnica, segurança jurídica e transição responsável — porque, quando se mexe no coração do sistema tributário, o risco não é apenas contábil: é regional, social e ambiental. Não por acaso, análises especializadas vêm apontando os desafios específicos da ZFM dentro desse rearranjo. 
A pergunta decisiva não é “quanto custa” a Zona Franca em abstração. A pergunta correta é: quanto custaria ao Brasil abandonar a Amazônia Ocidental à própria sorte econômica? E que tipo de pressão social, fiscal e ambiental isso geraria?
ZFM como plataforma de futuro — não como peça de museu
A Zona Franca não pode ser tratada como um capítulo encerrado. Ela é uma plataforma em disputa, que precisa se atualizar sem perder a sua razão de existir.
E há sinais de movimento: a própria Suframa vem ampliando a prospecção de investimentos e a promoção das potencialidades do modelo em espaços ligados à transição energética, mirando novas cadeias produtivas e novas conexões industriais. 
O recado é claro: a ZFM não quer viver de passado. Quer garantir futuro — com inovação, adensamento, diversificação e integração com as agendas de tecnologia e sustentabilidade.
Um reconhecimento necessário — e uma convocação serena
Sim: é difícil gerar riqueza numa região remota. Sim: a infraestrutura ainda é insuficiente. Sim: a incompreensão sobre a Zona Franca continua a produzir ruído, injustiça e ataques periódicos.
Mas o balanço histórico é inequívoco: a Zona Franca de Manaus é um acerto de política fiscal porque é, antes de tudo, um acerto de política nacional — um compromisso federativo com o desenvolvimento regional, com a coesão territorial e com a ideia de que a Amazônia não deve ser apenas “paisagem”, mas também dignidade econômica.
Se o Brasil deseja ser um país inteiro — e não um país partido por distâncias e desigualdades — então precisa parar de tratar a Zona Franca como exceção e começar a tratá-la como aquilo que ela é: uma estratégia de Estado para um território que não pode ser descartado.
Nelson é economista, empresário e presidente do SIMMMEM – Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e CNI e vice-presidente da FIEAM.

