Nas últimas décadas, o Jiu-Jítsu feminino passou por uma transformação. Se antes era comum encontrar apenas algumas mulheres nos tatames e raríssimas nas grandes competições, hoje o cenário é totalmente diferente, academias em todo Brasil têm turmas dedicadas ao público feminino, eventos, competições nacionais e internacionais oferecem cada vez mais espaço e visibilidade, para atletas mulheres se tornarem ícones que inspiram milhões.
Nomes como Kyra Gracie, Letícia Ribeiro e Bia Mesquita abriram caminho em um ambiente ainda marcado pela predominância masculina. Suas conquistas mostraram que técnica, disciplina e resiliência não têm gênero.
Neste contexto surge Yara Soares, hoje com 29 anos, natural de Guarapari (ES). Iniciou no Jiu-Jítsu em 2015, já com uma paixão por esportes de contato, e rapidamente encontrou na arte suave não apenas uma prática esportiva, mas um estilo de vida e profissão. Campeã do World Pro, campeã Pan-Americana Absoluto e campeã Brasileira, títulos que a colocam entre as principais referências no jiu-jítsu feminino atual. Yara é mais do que uma atleta vitoriosa. Ela simboliza a luta diária de milhares de mulheres que buscam no Jiu-Jítsu coragem, autoestima, saúde e pertencimento.
Nesta entrevista, ela compartilha sua trajetória, os desafios enfrentados e sua visão sobre o futuro do Jiu-Jítsu feminino.
Dr. Ricardo Amaral: Você já conquistou títulos importantes como o World Pro, o Pan-Americano Absoluto e o Brasileiro. O que essas conquistas representam na sua trajetória e na valorização do Jiu-Jítsu feminino?
Yara Soares: Essas conquistas representam muito para mim, não só pela realização pessoal, mas também pelo que elas simbolizam para o Jiu-Jítsu feminino. É gratificante ver que, com o tempo, o nosso espaço nas artes marciais tem crescido cada vez mais. Hoje, o Jiu-Jítsu feminino está mais valorizado, e fazer parte dessa evolução me enche de orgulho.
Dr. Amaral: O Jiu-Jítsu exige coragem e disciplina. Como ele ajuda na sua autoestima e segurança dentro e fora do tatame?
Yara Soares: O Jiu-Jítsu me trouxe uma autoconfiança extraordinária, tanto dentro quanto fora dos tatames. Tenho certeza de que essa é uma das maiores transformações que a arte marcial proporciona, especialmente para as mulheres. A prática constante desenvolve não só a disciplina e a coragem, mas também uma segurança pessoal que se reflete em todas as áreas da vida.
O depoimento de Yara mostra um dos pontos mais poderosos do Jiu-Jítsu, o impacto na saúde mental. Não se trata apenas de lutar ou defender-se, trata-se de cultivar a confiança que ultrapassa os limites do tatame e aparecem em situações cotidianas, desde entrevistas de trabalho até decisões familiares.
Dr Amaral: Quais foram suas maiores inspirações femininas no esporte? E qual a
importância de ter referências para as novas gerações?
Yara: Minhas maiores inspirações sempre foram as mulheres que treinaram ao meu lado. Até hoje, olho para elas e penso: “Caramba, essas mulheres são incríveis!”. Ver de perto a dedicação, a força e a garra delas sempre me motivou. Quanto ao fato de ser uma referência para outras pessoas, me sinto extremamente privilegiada. Acredito que isso é fruto de muito trabalho, disciplina e paixão pelo que faço e sigo me dedicando todos os dias para honrar esse papel.
Dr. Amaral: Você já enfrentou barreiras ou preconceitos por ser mulher no Jiu-Jítsu, que
é um esporte historicamente masculino? Como superou esses obstáculos?
Yara Soares: Felizmente, nunca sofri preconceito diretamente, mas já presenciei situações e sempre procurei mostrar que essa ideia de “sexo frágil” não tem espaço no Jiu-Jítsu.
Desde o início da minha trajetória, sempre treinei com homens, porque não havia outras meninas com o meu biotipo na equipe. Sou faixa preta do mestre Guigo, e naquela época os treinos eram duros — eles nunca pegaram leve comigo, e isso me ajudou a evoluir ainda mais. Acredito que, ao mostrar força e dedicação, a gente quebra essas barreiras no dia a dia.
Ao treinar lado a lado com homens desde cedo, Yara só fortaleceu seu jogo técnico, mas também quebrou paradigmas. Sua história mostra que o Jiu-Jítsu não faz distinção entre força feminina ou masculina, o que importa é a dedicação, a técnica e a coragem.
Isso envia uma mensagem poderosa, o tatame é um espaço de igualdade, onde o mérito é conquistado com suor e mérito.
Dr. Amaral: Que mensagem você deixaria para uma mulher adulta, talvez sedentária, que
pensa em começar no Jiu-Jítsu, mas sente medo ou insegurança?
Yara Soares: Na minha visão, todas as mulheres sem exceção deveriam praticar Jiu-Jítsu. Vai muito além de uma luta; é uma ferramenta de autoconhecimento, fortalecimento físico e emocional. O Jiu-Jítsu transforma vidas e, em muitos casos, salva vidas. Para quem sente medo ou insegurança, eu diria: dê o primeiro passo. O começo pode ser desafiador, mas os benefícios que ele traz são imensuráveis. Você vai se surpreender com a força que existe dentro de você.
O Jiu-Jítsu, além de esporte, é medicina preventiva, é fortalecimento psicológico e é espaço de socialização. Muitas mulheres que entram no tatame em busca de defesa pessoal descobrem algo ainda maior, pertencimento, amizade e um novo olhar para si mesmas. O convite de Yara é, ao mesmo tempo, um chamado as mulheres a prática.
Dr. Amaral: Como você enxerga o futuro do Jiu-Jítsu feminino nos próximos anos?
Yara Soares: Vejo um futuro muito promissor para o Jiu-Jítsu feminino. Cada vez mais mulheres estão ocupando seu espaço e mostrando sua força dentro e fora dos tatames. Quero continuar sendo parte desse movimento, inspirando mulheres ao redor do mundo não apenas pela luta em si, mas por meio do exemplo, mostrando o poder e a essência do feminino em tudo o que fazemos.
A trajetória da Yara é um retrato vivo do que o Jiu-Jítsu pode oferecer, não apenas medalhas e títulos, mas transformação pessoal, autoconfiança e inspiração coletiva. De Guarapari para o mundo, sua jornada mostra que coragem e disciplina podem abrir caminhos antes impensáveis para as mulheres no esporte.
Mais do que atleta, Yara é voz, referência e exemplo. Suas conquistas inspiram e monstra o caminho onde meninas, jovens e mulheres adultas encontram motivação para vestir um kimono, dar o primeiro passo no tatame e descobrir a força que exite dentro delas.
O Jiu-Jítsu feminino vive um momento histórico, e histórias como a de Yara provam que essa revolução é irreversível, parabéns e obrigado por sua dedicação ao esporte.
Dr. Ricardo Amaral Filho – (@amaralfilho)
Médico de Família e Comunidade
Médico do Esporte | Mestre em Educação
White House Jiu-Jitsu | Manauara EC