Neste fim de semana, a bola volta a rolar oficialmente no Amazonas. Começa o Barezão, e com ele rivalidade, emoção, orgulho regional e aquela velha paixão que atravessa gerações.
Mas enquanto os jogadores entram em campo preparados, treinados e acompanhados, fica uma pergunta inevitável para quem assiste da arquibancada, do sofá ou do bar, e você, quando vai cuidar da sua saúde?
O futebol profissional é espetáculo. Mas, por trás do espetáculo, existe algo que deveria nos ensinar muito mais, preparo, prevenção e respeito ao corpo. Essa lição não é só para atletas. É para todos nós.
Vanguarda do Norte: O que o futebol ensina sobre preparo e prevenção?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Nenhum time começa um campeonato sem pré-temporada.
Nenhum atleta sério entra em campo “de improviso”. Há aquecimento, fortalecimento, controle de carga, descanso e recuperação. E não é excesso de zelo. É prevenção!
No início dos campeonatos, o risco de lesões aumenta exatamente porque:
– o corpo ainda está se adaptando,
– a intensidade cresce rápido,
– o ritmo de jogo sobe antes do condicionamento ideal.
Na vida cotidiana acontece o mesmo. Pessoas que passam meses às vezes anos sedentárias e resolvem “voltar com tudo” costumam pagar o preço com:
– dores lombares,
– lesões de joelho,
– tendinites,
– estiramentos musculares,
– fadiga intensa.
Preparo não é luxo. É proteção.
VDN: Por que o corpo “cobra” quando é ignorado?
Dr. Amaral: O corpo humano é adaptativo, responde fielmente ao estilo de vida que levamos.
Quando nos movemos pouco:
– músculos enfraquecem,
– articulações perdem estabilidade,
– o metabolismo desacelera,
– o sistema nervoso entra em modo de alerta.
A cobrança não vem em forma de aviso educado, ela vem como:
– dor persistente,
– rigidez ao acordar,
– cansaço constante,
– ansiedade,
– piora do sono.
Não é castigo, é fisiologia! Assim como um jogador que não treina perde resistência no segundo tempo, quem ignora o próprio corpo perde qualidade de vida com o passar dos anos.
VDN: Por que assistir futebol não substitui se mover?
Dr. Amaral: Torcer é importante. Cria identidade, pertencimento, emoção coletiva. Mas é preciso ser claro: assistir esporte não substitui praticar movimento.
O torcedor vibra, sofre, comemora mas permanece sentado. Isso ativa emoção, não saúde física.
O corpo precisa de:
– contração muscular,
– aumento da frequência cardíaca,
– estímulo neuromotor,
– impacto controlado.
Alguns equivocados pensam que sentir emoção esportiva gera os mesmos benefícios de se mover. O futebol deve inspirar! A saúde começa quando você levanta do sofá.
VDN: O amor do amazonense pelo futebol, a pelada e a necessidade de se mover estão interligados?
Dr. Amaral: O amazonense não ama apenas o futebol profissional.
Ama a pelada no campo de barro, na quadra do bairro, no fim da tarde, no domingo cedo. Esse amor é cultura, identidade e também uma poderosa ferramenta de saúde, quando bem usada.
A pelada: movimenta, socializa, melhora o humor, combate o sedentarismo, cria rotina de atividade física sem “cara de academia”. Mas aqui está o ponto-chave! Amar jogar não elimina a necessidade de preparo!
Grande parte das lesões nas peladas acontece por:
– falta de aquecimento,
– excesso de peso,
– ausência de fortalecimento,
– tentativa de jogar hoje como jogava aos 20 anos.
O futebol ensina algo valioso, adaptar o jogo à fase da vida é sinal de inteligência, não de fraqueza.
VDN: Jogar futebol no fim de semana é suficiente para manter a saúde em dia?
Dr. Amaral: Para quem saiu do sedentarismo, a pelada já é um ótimo começo, mas isoladamente costuma ser insuficiente para sustentar saúde a longo prazo. O corpo precisa de estímulos mais regulares ao longo da semana, incluindo fortalecimento muscular, mobilidade e atividade aeróbica distribuída em mais dias. Jogar só uma vez por semana concentra carga, aumenta risco de lesão e não mantém adaptações consistentes. O ideal é usar a pelada como parte de uma rotina mais ampla de movimento, não como o único momento de atividade física.
VDN: Existe idade certa para começar (ou recomeçar) a se movimentar com segurança?
Dr. Amaral: Não existe idade limite para se movimentar, existe forma errada de começar.
O corpo mantém capacidade de adaptação ao longo da vida, desde que o estímulo seja progressivo e respeite o histórico de cada pessoa. Quem ficou muito tempo parado precisa começar com volumes menores, intensidade ajustada e foco em fortalecimento e mobilidade antes de pensar em desempenho. Caminhar, jogar bola de forma recreativa, treinar força e melhorar a flexibilidade são estratégias seguras em qualquer idade quando bem orientadas. O erro mais comum não é começar tarde, é tentar voltar hoje no ritmo de quando se tinha 15 anos.
VDN: Existe comprovação científica de que se mover previne dor, doenças e envelhecimento precoce?
Dr. Amaral: Sim, e essa é uma das áreas mais sólidas da ciência atual. Estudos populacionais e diretrizes da Organização Mundial da Saúde, mostram que pessoas fisicamente ativas têm menor risco de dor crônica, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, depressão e declínio funcional com o envelhecimento. Mesmo volumes modestos de atividade, como caminhar, jogar bola recreativamente ou se movimentar de forma regular ao longo da semana já reduzem mortalidade e melhoram qualidade de vida. O mais importante não é intensidade extrema, mas regularidade. O corpo humano foi feito para o movimento, quando ele acontece, sistemas muscular, cardiovascular e neurológico funcionam melhor juntos. Quando não acontece, o corpo adoece mais rápido. Simples assim.
As evidências atuais são consistentes em afirmar que movimento regular, mesmo em intensidade moderada, é uma das intervenções mais eficazes e seguras para promoção de saúde e prevenção de doenças, superando, em muitos cenários, abordagens exclusivamente medicamentosas.
Os atletas entram em campo preparados porque sabem que o corpo cobra.
Você não precisa ser profissional para aprender essa lição. Mover-se não é estética. Não é vaidade. Não é modismo. É uma necessidade, para autonomia e qualidade de vida.
Vamos valorizar nossos times e prestigiar a 1° rodada do Barezão 2026:
- Sábado (10/01) – Amazonas x São Raimundo – 18h30 – Arena da Amazônia
- Domingo (11/01) – Nacional x Itacoatiara – 15h30 – Arena da Amazônia
- Domingo (11/01) – Manauara x Princesa do Solimões – 20h – Arena da Amazônia
- Segunda-feira (12/01) – Manaus x RPE Parintins – 20h – estádio Carlos Zamith
Para finalizar com o início do Barezão, vamos fazer uma reflexão, faça uma pergunta honesta a si mesmo: quando você vai começar a cuidar do seu corpo com a mesma seriedade que cobra do seu time?

