Início de ano começam os estaduais e a famosa “pelada” que no Amazonas não é muito diferente do Brasil, a pelada é mais do que um jogo. É encontro, é conversa, é riso, é identidade cultural e até competição. Depois do apito final, quase sempre vem o ritual de sentar, conversar, rir… e muitas vezes, beber.
Nada disso é, um problema, a questão é começa quando o pós-jogo passa a sabotar tudo aquilo que o corpo tentou construir durante o jogo.
Vanguarda do Norte: Beber após a pelada atrapalha a recuperação muscular?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Sim, atrapalha e mais do que se imagina. O álcool interfere diretamente nos processos de recuperação muscular, reduzindo a síntese proteica, que é fundamental para reparar as microlesões causadas pelo exercício. Estudos mostram que mesmo doses moderadas de álcool após o exercício reduzem a capacidade do músculo de se regenerar adequadamente.
O álcool:
– aumenta inflamação muscular,
– piora a coordenação motora residual,
– favorece desidratação,
– atrapalha o sono reparador.
VDN: O que acontece com o corpo quando se mistura esforço físico e álcool?
Dr. Amaral: O exercício físico gera um estado metabólico específico, aumento da sensibilidade à insulina, ativação muscular, liberação de hormônios anabólicos e estímulo ao sistema cardiovascular. O álcool vai na contramão desse processo. O fígado prioriza metabolizar o álcool, não a recuperação, há queda na reposição de glicogênio muscular, aumenta o risco de hipoglicemia tardia, ocorre piora do equilíbrio hidroeletrolítico.
O corpo entra em conflito fisiológico. Ele tenta se recuperar, mas é sabotado por uma substância que não faz parte do processo adaptativo do exercício.
VDN: Existe quantidade “segura” de álcool após o jogo?
Dr. Amaral: Do ponto de vista da recuperação muscular, não existe dose ideal. Quanto menos álcool, melhor será a recuperação. A ciência mostra que quanto maior a dose, maior o prejuízo, mas mesmo pequenas quantidades já causam impacto.
Diretrizes internacionais mostram que o consumo deve ser baixo e ocasional. Se, associar álcool sistematicamente ao exercício cria um padrão que aumenta risco cardiovascular, favorece ganho de gordura, reduz performance a médio prazo, aumenta risco de lesão em jogos seguintes.
Com que frequência você está atrapalhando sua recuperação?
VDN: Hidratação faz diferença real ou é exagero?
Dr. Amaral: Faz muita diferença, durante uma pelada é comum perder de 1 a 3 litros de líquido, dependendo do clima, intensidade e duração. No Amazonas, esse número tende a ser ainda maior.
A desidratação:
- aumenta dor muscular,
- piora desempenho cognitivo,
- eleva risco de lesões,
- sobrecarrega coração e rins.
Reposição hídrica adequada após o jogo melhora:
- recuperação muscular,
- função cardiovascular,
- clareza mental,
- qualidade do sono.
VDN: Dormir mal depois do jogo interfere na saúde?
Dr. Amaral: Interfere profundamente. O sono é o principal momento de recuperação do
corpo. É durante o sono profundo que ocorre liberação de hormônio do crescimento,
consolidação neuromuscular e regulação inflamatória.
Álcool, telas e refeições pesadas após o jogo:
- fragmentam o sono,
- reduzem sono profundo,
- pioram recuperação,
- aumentam dor no dia seguinte.
VDN: O que fazer nas 24 horas seguintes para reduzir dor e lesão?
Dr. Amaral: As 24 horas pós-jogo são decisivas. Algumas estratégias simples fazem
grande diferença:
- hidratar-se adequadamente,
- alimentar-se com proteína e carboidrato,
- dormir bem,
- evitar álcool,
- realizar mobilidade leve ou caminhada.
VDN: Alongar depois do jogo realmente ajuda ou é mito?
Dr. Amaral: Alongar ajuda na sensação de bem-estar e mobilidade, mas não previne dor
muscular tardia de forma isolada. O erro é achar que alongar resolve tudo.
Alongamento é complemento, não solução mágica!
O mais eficaz é:
- combinação de mobilidade,
- fortalecimento ao longo da semana,
- progressão de carga,
- recuperação adequada.
VDN: Gelo, calor ou nada o que realmente ajuda na recuperação?
Dr. Amaral: O gelo pode ajudar no alívio da dor imediata, mas não acelera regeneração muscular a longo prazo. O calor pode ajudar em rigidez tardia. Nenhum dos dois substitui sono, hidratação e alimentação.
A ciência atual mostra que recuperação ativa, sono e nutrição têm impacto muito maior do que qualquer compressa.
VDN: Jogar só no fim de semana é suficiente para manter a saúde?
Dr. Amaral: Para sair do sedentarismo, já é um começo. Para sustentar saúde, geralmente não é suficiente. Uma única sessão semanal concentra carga, aumenta risco de lesão e não mantém adaptações fisiológicas.
O ideal é distribuir movimento ao longo da semana, fortalecimento 2x/semana, mobilidade, caminhadas e a pelada como parte do processo.
VDN: Depois dos 40, o corpo responde diferente ao pós-jogo?
Dr. Amaral: Sim. Com o passar dos anos, a recuperação fica mais lenta, a tolerância a sobrecarga diminui e o impacto do álcool e do sono ruim é maior. Isso não significa parar significa ser mais estratégico
A pelada é parte da nossa cultura. A cerveja, muitas vezes, faz parte do ritual social.
Nada disso precisa ser proibido ou demonizado. Mas é preciso maturidade para entender que o corpo cobra.
Em tempos de estadual vamos aproveitar o espetáculo do futebol Bare! Vamos acompanhar a roda de deste fim de semana:
2ª rodada 15 a 19 de janeiro
– Parintins x Princesa, dia 17/01, às 15h30, no F. Garcia.
– Itacoatiara x São Raimundo, dia 17/01, às 15h30, no F. Mendonça.
– Manaus x Manauara, dia 18/01, às 15h30, na Colina.
– Nacional x Amazonas, dia 19/01, às 20h, na Arena.
Não é o jogo que machuca.
É o conjunto de escolhas repetidas depois dele. Mover-se é saúde. Recuperar-se bem é inteligência bom fim de semana.

