Por muito tempo treinadores aconselhavam a abstinência, acreditando que “nada de sexo antes de uma competição” geraria mais energia e agressividade no atleta, mas estudos atuais mostram o contrário, a atividade sexual não prejudica o rendimento atlético e pode até trazer benefícios físicos e mentais. Uma meta-análise recente concluiu que ter relações sexuais de 30 minutos até 24 horas antes de um teste não afetou parâmetros de aptidão física como resistência aeróbia, força muscular e potência.
Em outras palavras, não houve diferença significativa em desempenho entre quem manteve relações na véspera e quem se absteve. Essa evidência derruba o mito de que o sexo pré-competição atrapalha o atleta, confirmando que não existe vantagem comprovada em evitar o orgasmo antes de uma prova.
Vanguarda do Norte: Sexo antes da competição atrapalha ou ajuda o desempenho?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Na prática esportiva, o consenso científico atual é de que sexo e desempenho não têm impacto relevante um sobre o outro. Estudos objetivos têm medido a capacidade aeróbia (por exemplo, teste máximo de VO₂), resistência muscular (como número de flexões) e força (ex.: salto vertical ou one-rep max) tanto em atletas que tiveram relação na véspera quanto em grupos que ficaram abstinentes. O resultado é praticamente neutro. Em um grande levantamento publicado em 2022 (meta-análise), não se verificou diferença estatística nem favorável à abstinência nem a favor do sexo.
Mas, em linhas gerais, a evidência sugere que proibir o ato sexual antes da prova não é necessário e não traz ganhos claros no rendimento.
Saciar a libido na véspera de uma competição não é garantia de queda de rendimento.
Estudos mostram que sexo (incluindo masturbação) de 30 min 24 h antes de um exercício não altera a capacidade aeróbica, a resistência muscular ou a força do atleta.
VDN: O que dizem os estudos sobre força, resistência e foco após relações sexuais?
Dr. Amaral: Os poucos estudos controlados que encontramos mostram que os índices de força muscular e resistência física não sofrem alteração significativa após o sexo recente. Por exemplo, testes que medem salto vertical, força de preensão manual, tempo de reação e número de flexões apresentam resultados equivalentes em atletas que tiveram relações ou se abstiveram na noite anterior . Um estudo clássico de Boone & Gilmore (1995) em voluntários sedentários observou que a concentração mental, a potência aeróbia e a eficiência cardiovascular foram as mesmas se o sexo ocorreu 10 horas antes do teste. Ou seja, não houve perda de foco cognitivo nem de capacidade física quando o intervalo foi adequado. Quanto ao “foco” mental, não há evidências de déficit após o sexo; pelo contrário, sabe-se que o orgasmo libera hormônios relaxantes como oxitocina e prolactina, o que tende a reduzir a ansiedade e aumentar a sensação de bem-estar, isso pode até ajudar a concentração no dia seguinte, embora não existam estudos formais sobre desempenho cognitivo pós-relacionamento. De qualquer forma, as pesquisas disponíveis não apontam nenhum comprometimento objetivo de habilidades esportivas (força, resistência ou reação) devido ao sexo prévio.
VDN: Quais são os mitos mais comuns entre atletas?
Dr. Amaral: No meio esportivo circulam vários mitos antigos sobre sexo e desempenho.
Alguns dos mais comuns são:
- “Sexo reduz a testosterona e a agressividade”. Esse é um dos maiores mitos. A
crença de que a ejaculação “drena” o hormônio masculino foi desmentida em estudos
científicos. Alguns pesquisadores mediram níveis de testosterona antes e depois do ato
sexual e não encontraram redução em certos casos, os valores até aumentaram
ligeiramente após o orgasmo . - “Sexo gasta muita energia e deixa o atleta cansado”. Na verdade, o gasto calórico
do sexo é muito baixo, comparável a subir dois lances de escadas (cerca de 25 calorias
em média). Mesmo em atividade vigorosa, dificilmente esse esforço inibe as reservas de
glicogênio musculares para o dia seguinte. Ou seja, a perda de “energia” é mínima. - “Sexo enfraquece as pernas”. Este é um mito clássico que já apareceu em livros e
artigos antigos: acreditava-se que sexo agacharia temporariamente os músculos das
pernas. Porém, estudos modernos não confirmam isso. Testes de força de membros
inferiores mostraram resultados equivalentes entre atletas que transaram ou se
abstiveram antes do exame . - “Só masturbação atrapalha, mas transar não” (ou vice-versa). Não há dados
científicos que diferenciem orgasmo via masturbação da via intercourse no contexto
esportivo. Ambos liberam os mesmos hormônios, e os estudos (que em geral incluíam
masturbação nos protocolos) não evidenciaram distinção de efeitos no desempenho. - “Abstinência aumenta agressividade e concentração”. Alguns acreditam que o
acúmulo de tensão sexual leva a mais motivação e combatividade. Essa hipótese segue
a linha da “inverted-U” da psicologia esportiva (atrito ótimo de excitação). Mas não há
provas concretas de que ficar semanas sem sexo torne o atleta mais violento ou focado,
pelo contrário, a frustração pode aumentar a ansiedade em alguns casos.
Crenças como “sexo suga testosterona” ou “é como tomar uma ressaca de précompetição” não têm respaldo científico . A maioria dessas ideias é baseada em achismos ou crenças culturais (por exemplo, já que na Grécia antiga abster era recomendação, os treinadores copiaram a tradição). A ciência atual diz que tais efeitos não são comprovados, tanto que revisões sistemáticas recentes concluem, não há evidência de que sexo prévio afete a performance do atleta.
VDN: Existe diferença entre homens e mulheres nesse aspecto?
Dr. Amaral: Até o momento, quase todos os estudos científicos sobre sexo e esporte
foram feitos com homens. Na meta-análise de 2022, por exemplo, 99% dos
participantes eram do sexo masculino. Em termos biológicos, as mulheres têm perfil
hormonal diferente (baixos níveis de testosterona, oscilações de estrogênio e
progesterona), mas não há nenhum estudo que mostre claramente efeitos distintos de
atividade sexual sobre o desempenho delas. Assim, não se sabe se o sexo précompetição age de forma diferente em atletas femininas. Na prática, recomendações
para mulheres seguem os mesmos princípios de bom senso e condicionamento, se a
atleta se sente bem e descansada, não há motivo científico para regras distintas.
Treinadores e médicas devem tratar homens e mulheres de forma igualitária nesse
tema, já que até prova em contrário, não há evidência de dano específico em nenhum
dos sexos.
VDN: Sexo atrapalha o sono ou ajuda na recuperação?
Dr. Amaral: O sexo em si não atrapalha o sono; pelo contrário, pode ajudar o descanso.
As fases do orgasmo provocam liberação de substâncias como a oxitocina e a
prolactina, que promovem relaxamento muscular e psicofisiológico. Após uma relação
íntima muitas pessoas sentem sonolência natural, o sexo é inclusive usado como indutor
de sono saudável em algumas terapias. Um artigo de revisão sobre sono e recuperação
de atletas ressalta que efeitos pós-orgasmo (relaxamento, redução de tensão,
sonolência) estão associados a melhor qualidade de sono. Em outras palavras, quem faz
sexo antes de dormir costuma adormecer mais fácil e ter sono profundo. Isso favorece a
recuperação muscular e mental, justamente porque um bom descanso noturno é
essencial após treinos intensos.
Porém, a relação íntima só será benéfica se não atrapalhar o horário de dormir. O único
cuidado real é garantir que o atleta não vá para a cama muito tarde e durma as horas
necessárias. Se fazer sexo significa ficar acordado até às 3h da manhã, aí sim prejudica
o descanso. Mas por si só, o sexo não diminui a quantidade de sono nem impede o corpo
de recuperar; pelo contrário, pode ajudar a entrar no estado de repouso reparador.
VDN: Quando ele pode ser prejudicial para a performance?
Dr. Amaral: Mesmo não sendo problemático em geral, há situações específicas em que
sexo próximo demais da competição pode trazer efeitos negativos temporários. De
modo geral, a pesquisa indica que o intervalo entre a relação sexual e a atividade
esportiva é o fator-chave. Um estudo sistemático de 2016 observou que, se o intervalo
for menor que 2 horas, pode haver influência negativa no desempenho. Mais ainda,
especialistas apontam que um orgasmo imediatamente antes de sair do vestiário (por
exemplo, minutos antes do apito inicial) pode prejudicar, pela alta liberação de
prolactina e a leve fadiga pós-orgasmo.
Ter sexo na véspera cedo ou no dia anterior costuma ser irrelevante para o rendimento,
mas fazê-lo muito em cima da hora pode ter perda de performance.
Outras situações que podem transformar o sexo em algo prejudicial incluem
comportamentos associados, se a atividade sexual vem acompanhada de álcool, festas
até tarde ou falta de hidratação, aí sim o atleta agrava sua condição. Por exemplo,
consumir bebida alcoólica ou ficar acordado até altas horas por conta de um encontro
sexual certamente prejudica a recuperação e o rendimento no dia seguinte.
VDN: Existe influência do fator psicológico, como controle da ansiedade?
Dr. Amaral: Sim, o componente psicológico é real nesse contexto. O sexo libera
substâncias que promovem sensação de bem-estar e relaxamento, por exemplo,
durante a fase de orgasmo aumentam muito os níveis de dopamina e oxitocina, seguidos
pela prolactina no pós-orgasmo . Isso costuma reduzir a ansiedade pré-competitiva e
transmitir calma ao atleta. Em outras palavras, para muitos praticantes o sexo na
véspera funciona como um relaxante natural, ajudando a mente a “desligar” das
preocupações esportivas e entrar no estado ideal de concentração no dia seguinte.
Necessito frisar que as evidências empíricas sobre esse aspecto subjetivo são
limitadas. Muito do que se comenta sobre “ansiedade” e “combustível emocional” vem
de relatos individuais. Há atletas e treinadores que, por crença própria, acreditam que a
abstinência aumenta a raiva competitiva e melhora o foco, enquanto outros acham que o
sexo alivia a pressão do jogo. O importante é reconhecer que os efeitos psicológicos
variam de pessoa para pessoa. O treinador ou médico deve avaliar cada atleta, se
alguém se sente mais tranquilo e confiante após o sexo, não há por que condená-lo; se
outro atleta fica ansioso ou inseguro por conta disso, pode-se aconselhar cautela. Em
suma, a influência do sexo sobre o controle emocional é real, mas individualizada, e
deve ser vista com maturidade, sem tabu, mas também sem mitos.
VDN: Diferenças entre atletas amadores e profissionais nesse tema?
Dr. Amaral: Fisicamente, o sexo age da mesma forma em amadores ou profissionais, não há razão biológica para comportar-se diferente em nível de músculo ou coração. A principal diferença está na cultura e rotina de treinos. Atletas profissionais normalmente têm equipe de apoio (treinadores, preparadores físicos, psicólogos) que orientam toda rotina, incluindo descanso, recuperação e até vida social.
A mensagem é de bom senso e equilíbrio. Os dados científicos atuais deixam claro que não faz sentido proibir categoricamente o sexo na véspera de competições, o ato sexual é parte natural da vida humana e pode até trazer benefícios fisiológicos (relações amorosas melhoram o humor e o sono, que por sua vez ajudam na recuperação). Por outro lado, o profissional do esporte deve orientar o atleta de forma prática, evitar transar muito perto da hora da prova, garantir que isso não atrapalhe o sono nem a hidratação, e sempre respeitar as preferências pessoais de cada um.
Deve-se priorizar o individual acima do dogma. Se um atleta sênior, experiente, se sente relaxado fazendo sexo na véspera, não há motivo para constrangê-lo. Se outro atleta júnior se sente inseguro com isso, cabe à equipe explicar que, segundo estudos recentes, não há prejuízo, considerando aspectos físicos e psicológicos. Em suma, a recomendação equilibrada é confiar na evidência científica (que não mostrou nenhum efeito negativo geral) e usar o “bom senso”: sexo prévio não é doping nem vilão é uma questão a ser avaliada caso a caso. Assim, um treinador maduro orientará seu time com maturidade emocional: desmistificando lendas (“sexo não é vilão”), focando no descanso adequado e tratando o atleta como um ser humano completo, em vez de uma máquina biologicamente condicionada. Com essa postura equilibrada, o atleta pode viver sua sexualidade normalmente, sem medo infundado, enquanto mantém a disciplina e o foco que o esporte exige.

