No imaginário esportivo, ainda persiste a ideia de que o atleta de alto rendimento precisa viver como um monge, abrir mão de prazeres, silenciar emoções e suportar tudo em nome da performance. Disciplina, foco e compromisso são indispensáveis, mas quando esses conceitos se confundem com repressão, o preço costuma ser alto.
Atleta não é máquina, nem projeto moral. É ser humano, com desejos, frustrações, vínculos e limites. Entender essa realidade não enfraquece o rendimento, ao contrário, é o que sustenta carreiras longas, decisões maduras e saúde física e mental ao longo do tempo.
Vanguarda do Norte: O que significa ser um atleta adulto e profissional?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Ser adulto e profissional no esporte significa unir maturidade física e
emocional a compromissos sociais e profissionais igualmente a outras profissões. O
atleta quando chega à categoria adulta precisa lidar com cobranças enormes, mídia,
torcida, patrocinadores, clube, academia e até a própria família exigem resultados.
Mesmo tendo que estar preparado para tudo isto, esse atleta não é uma “máquina de
resultados”, mas um indivíduo com uma história e muitos anos dedicados ao esporte, o
atleta adulto acumula 10, 15 anos de treinamento, adquirindo não só força física, mas
experiência, ser atleta profissional maduro é conciliar disciplina extrema na preparação
com autoconhecimento e responsabilidade social, ter consciência de que, mesmo sob
pressão, é preciso cuidar do próprio corpo e mente .
Fora de campo, espera-se que o atleta seja quase exemplar, alimentação regrada, horas
fixas de sono, treino intenso diário. Mas a realidade vai além dos estereótipos. A história
de cada atleta as escolhas, sacrifícios e até erros ao longo da vida molda sua carreira.
Criar autonomia emocional e aprender a resolver problemas faz parte do treinamento
avançado que nem sempre aparece no olhar do público, ser atleta adulto e profissional
não significa ser um monge, mas sim um adulto dedicado, que combina rotina rigorosa
de treinos com maturidade para equilibrar exigências do esporte e da vida pessoal.
VDN: De onde vem a ideia de que o atleta precisa viver em renúncia constante?
Dr. Amaral: A imagem do atleta como alguém que deve renunciar tudo festas, lazer,
prazeres simples vem de concepções antigas de sacrifício no esporte. Estudos
sociológicos mostram que, culturalmente, o treinamento é muitas vezes encarado como
um rito de sacrifício pelo desempenho. Em termos antropológicos, “a dor proveniente
do treinamento remete ao sacrifício feito em nome do rendimento esportivo”, o próprio
ambiente esportivo encena o atleta como o “sacrificante” que oferece seu corpo à
prática extenuante, dilacerando-se em nome de benefícios futuros (vitória e alta
performance), rituais invisíveis reforçam a ideia de abnegação total, como se o atleta
devesse se afastar da vida social “normal”.
No entanto, essa narrativa de que é preciso “não ter vida social” vem mais da cultura do
que da ciência. Muito do discurso de treinar como um monge tem raízes em mitos do
esporte amador e em histórias de atletas do passado que sacrificaram tudo em nome do
ouro. Com o tempo, passou-se a valorizar certos sacrifícios como prova de dedicação.
Mas pesquisas atuais questionam essa lógica. Ao contrário de um dogma, a renúncia
não é garantia de sucesso, o que conta são escolhas conscientes. Assim, a ideia de vida
de monge no esporte tem muito de mito cultural e pouco fundamento para a alta
performance moderna.
Tudo tem seu tempo!
VDN: Sentimentos como desejo e frustração atrapalham a performance?
Dr. Amaral: Não necessariamente. Desejos e frustrações são emoções humanas
naturais, o problema surge quando são sufocados ou mal canalizados. Por exemplo,
existe um antigo tabu de que relações sexuais antes da competição reduzem o
desempenho. Estudos científicos modernos não confirmam essa crença, uma metaanálise recente concluiu que sexo 30 minutos até 24 horas antes de um exercício não
afeta capacidade aeróbia, resistência muscular ou força.
Já à frustração, por exemplo, a vontade intensa de ganhar ou de querer algo fora do
esporte, ela só atrapalha se for deixada de forma descontrolada. Atletas que acumulam
emoções negativas sem lidar com elas acabam gerando muito estresse interno.
Pesquisas indicam que cerca de 60% dos atletas de alto nível relatam altos níveis de
stress originados de conflitos emocionais não resolvidos. Quando essas emoções ficam
“enterradas”, como alerta um estudo de psicologia do esporte, é comum notar
desconfortos físicos inexplicáveis, perda de foco e piora da tomada de decisão, desejo e
frustração, por si só, não derrubam a performance. A chave é reconhecer esses
sentimentos, trabalhá-los com psicologia e não culpá-los. Assim, o atleta se mantém
inteiro, usando a motivação (desejo de vencer) de forma positiva e aprendendo com as
frustrações em vez de sofrer calado.
VDN: Qual a diferença entre autocontrole e repressão emocional?
Dr. Amaral: Autocontrole é a capacidade consciente de gerenciar impulsos e emoções de
forma equilibrada, exemplo, um atleta com autocontrole sabe canalizar a raiva em foco
no treino ou transformar a ansiedade pré-competição em preparação mental. É uma
escolha ativa de avaliar os próprios sentimentos e decidir a melhor atitude para a
competição.
A repressão emocional é uma defesa inconsciente, o indivíduo simplesmente empurra
para baixo pensamentos e emoções desconfortáveis, sem lidar com eles. A repressão
ocorre quando uma pessoa bloqueia inconscientemente sentimentos dolorosos,
exemplo, um medo de errar ou uma decepção passada.
De forma prática, o atleta com autocontrole entende e simboliza suas emoções, aceita
que está nervoso, pensa numa estratégia para liberar essa tensão, enquanto o que
reprime finge que não sente nada, guardando tudo para si. O problema da repressão é
que, em algum momento, essas emoções “estouram” de modo desorganizado. O atleta
pode quebrar a concentração ou perder a calma no momento crucial. Já o autocontrole
bem executado permite que ele reconheça o nervosismo e escolha responder focado,
minimizando o impacto negativo. O autocontrole requer consciência e escolha livre, a
repressão é um mecanismo automático que acaba pressionando a saúde mental e física
do esportista se for usado em excesso.
VDN: Reprimir emoções impacta o corpo do atleta?
Dr. Amaral: Sim. Guardar emoções tem consequências mensuráveis no corpo.
Psicofisiologicamente, o estresse emocional não expressado ativa o sistema de
estresse crônico no organismo. O estudo Stress and sport performance mostra que o
estresse psicológico eleva o hormônio cortisol no atleta, especialmente se ele
permanece sem lidar com as pressões, este aumento de cortisol, se mantido, resulta em
queda do sistema imunológico e maior propensão a lesões e doenças nas fases agudas
da carreira, reprimir pode literalmente “acabar com o fisicamente saudável” do atleta.
Em termos de performance imediata, o atleta que reprime bem as emoções costuma
perder autopercepção, pode aparecer desconforto físico ou fadiga sem explicação
durante o treino. Relatos e pesquisas apontam que 60% dos atletas reportam altos
níveis de estresse vinculados a conflitos internos não resolvidos, o que compromete
foco, tomada de decisão e trabalho em equipe. Além disso, a negação de problemas
sérios, como a lesão persistente, leva a recuperação mais lenta, estudos mostraram que
atletas que ignoram dores para seguir treinando demoram cerca de 20% mais para
voltar às competições, reprimir emoções sobrecarrega o corpo com uma “carga” extra
fadiga, dor acumulada, desequilíbrio hormonal e risco de lesão aumentados, algo que
compromete a recuperação e a longevidade do atleta na carreira.
VDN: Existe vida social compatível com alto rendimento?
Dr. Amaral: Sim. Deveria de ter vida social… Não só é possível, como pode ser até
benéfico para o desempenho. Psicologia do esporte destaca que suporte social (família,
amigos, relacionamento interpessoal) correlaciona-se positivamente com bem-estar e
negativamente com ansiedade, depressão e estresse, atletas que cultivam laços fora do
esporte têm saúde mental melhor, o que reflete na pista, campo, tatame, ringue etc. O
estudo de Luo et al. (2025) mostrou que apoio de família e amigos está fortemente
ligado à redução de sintomas depressivos entre atletas profissionais.
Na prática, ter um círculo de apoio ajuda o atleta a “desligar” do foco competitivo de vez
em quando e recuperar energia mental. Figuras públicas como jogadores de futebol
Roberto Firmino ou Neymar revelam que, mesmo com rotinas rígidas, mantêm vida
social ativa o que não os impediu de serem campeões e manterem alta performance.
Atletas de MMA frequentemente citam a família e hobbies (pesca, videogame, estudos)
como válvulas de escape saudáveis. A chave é planejamento, ter diversão moderada e
relações afetivas equilibradas, sem exagerar em festas que prejudiquem o treino e
recuperação. Assim, o atleta amadurecido vê a vida social como parte do processo, não
um obstáculo. Como comprovado pela ciência, um atleta apoiado e “humano” lida
melhor com pressão a longo prazo.
VDN: O extremismo pode destruir carreiras?
Dr. Amaral: Pode. Viver ou treinar de forma extrema quase sempre cobra um preço alto.
O exemplo mais claro é o overtraining: treinos intensos sem descanso adequado levam à
queda prolongada de performance, alterações neurológicas, hormonais e imunológicas,
além de risco real de depressão e encerramento precoce da carreira. Em muitos casos, a
recuperação não é completa.
A busca por atalhos também é extremismo. O doping pode até gerar resultados rápidos,
mas costuma deixar sequelas físicas, psicológicas e sociais, além de punições que
encerram carreiras. No fim, tanto o excesso quanto o proibido afastam o atleta do alto
rendimento. Carreiras longas se constroem com treinamento inteligente, equilíbrio e
foco na qualidade, não na quantidade cega.
VDN: O que diferencia quem tem carreira longa de quem tem picos curtos?
Dr. Amaral: A longevidade esportiva depende de vários fatores-chave. Em primeiro lugar,
saúde física e boa gestão de lesões, atletas de carreira longa costumam se cuidar com
nutricionistas, fisioterapeutas etc, e respeitam períodos de recuperação. Mas um
diferencial crucial é a robustez mental. Estudos de psicologia do esporte indicam que
atletas mentalmente mais preparados apresentam consistência muito maior. McCarthy
aponta que “atletas com alta mental toughness […] lidam melhor com obstáculos,
recuperam-se de lesões e retornos de forma mais efetiva” . Na prática, isso significa
manter a calma após uma derrota, aprender com erros e não se desestruturar no ciclo
de treinos. Esses competidores silenciosamente acumulam desempenho estável ano
após ano, em vez de oscilar entre glórias súbitas e longos apagões.
A carreira longa costuma vir acompanhada de equilíbrio emocional (sabendo quando
intensificar ou descansar), planejamento a longo prazo e suporte multidisciplinar.
Também envolve ter “grit” (determinação ao longo de anos) sem esquecer a resiliência
(saber reagir aos revezes), a combinação de mente forte e corpo bem gerenciado
permite sustentar o rendimento no passar do tempo. Já quem tem carreira breve
frequentemente sofre com lesões crônicas, desgaste mental ou erros de gestão (fase de
euforia seguida de queda brusca), terminando cedo enquanto outros seguem
competindo em alto nível.
VDN: O que é profissionalismo maduro?
Dr. Amaral: Profissionalismo maduro é quando o atleta entende que alto rendimento não
se sustenta só com talento ou sacrifício cego. É tratar a carreira como um projeto de
longo prazo: cuidar do corpo, da mente, do sono, da alimentação, e também da vida fora
do esporte. O atleta maduro conhece seus limites, escuta quem entende, aprende com
os erros e não transforma disciplina em punição. Ele não reage por impulso, não vive
refém da pressão e sabe que equilíbrio não enfraquece a performance sustenta.
VDN: Humanizar o atleta enfraquece a performance?
Dr. Amaral: De forma alguma. Humanizar o atleta, reconhecer que ele tem emoções,
família, desejos e limites, tende a fortalecer sua performance, não a enfraquecê-la. Não
é realista esperar um profissional preparado para tudo sem jamais falhar, o atleta
profissional não é uma máquina de resultados, é uma pessoa que tem uma história, e
que dedicou boa parte dela ao esporte assim como o médico a ciência o advogado as leis
etc… Trazer essa pessoa ao centro significa permitir que receba apoio psicológico,
saiba que erros são parte da trajetória e possa mostrar suas fraquezas quando
necessário. Vários estudos mostram que equipes e ambientes que acolhem a saúde
mental do atleta em vez de fingir que ele é inquebrável de fato melhoram o desempenho
coletivo e individual.
O mito de que “mostrar fraqueza” é pecado esportivo tem se provado danoso. Atletas
famosos como a ginasta Simone Biles e futebolistas como Lionel Messi têm mostrado
que reconhecer o lado humano (pela fala de apoio de psicólogos e reuniões de grupo)
não faz cair a força em quadra, na verdade, evita crises de burnout. Evidências sugerem
que culturas de esporte que encorajam empatia e suporte emocional contribuem para
maior bem-estar geral. Em última análise, humanizar o atleta rompe o falso dilema de
“total dedicação X falha humana”.
O atleta de alta performance é, antes de tudo, um ser humano, com crises de confiança,
cansaço e alegria, é justamente ao tratá-lo assim que prolongamos seu brilho esportivo.
Reconhecer seu lado humano cria um espaço seguro para ele recarregar as energias
(entre luta e luta) e voltar mais forte, desmistificando a ideia de que pra vencer precisa
renegar a própria natureza. Equilíbrio, disciplina e respeito ao planejamento adequado
que contemple descanso, treino e social (adequado).
Os grandes campeões não são monges eremitas, mas pessoas intensamente humanas. Eles treinam duro e fazem sacrifícios, sim mas não vivem ignorando a vida. Sabem que desejos, medos e ciclos sociais são parte natural da vida, e que lidar bem com eles significa autoconhecimento e inteligência de não estrapolar.
A verdadeira força está em manter a disciplina sem se anular, acordar cedo para treinar e depois saborear um churrasco em família, sentir angústia antes de lutar e lidar com isso conscientemente, buscar a excelência sem perder a alegria de viver. Humanidade equilibrada, o atleta completo, corpo, mente e espírito em sintonia, que sustenta uma carreira duradoura.
O atleta não precisa viver como monge, mas como adulto comprometido, consciente de seus limites, decisões entendendo que deve-se ter equilibro do biológico, psicológico, social e espiritual para melhor performar.

