Levar o filho ao treino, esperar na arquibancada, organizar a rotina da família em torno das competições e vibrar a cada conquista faz parte da vida de muitos pais. No jiu-jítsu, no futebol ou em qualquer modalidade, o sonho começa cedo, e cresce rápido, disciplina aparece, a técnica evolui, as medalhas surgem e também, a expectativa. Mas no meio deste caminho, uma pergunta precisa ser feita com honestidade… Está sendo possível crescer no esporte sem perder a infância?
Crianças e adolescentes não são atletas adultos em miniatura. Estão em pleno desenvolvimento físico, emocional e neurológico. Devemos ter cuidado com os modelos de alto rendimento profissional para essa fase da vida, podemos até acelerar resultados, mas também aumentamos o risco de lesões, ansiedade, esgotamento e abandono precoce. O esporte deve formar caráter, fortalecer o corpo e ensinar resiliência e nunca transformar o sonho em peso.
Crescer no esporte é saudável. Crescer sob pressão constante, não.
Vanguarda do Norte: Por que o jovem atleta não pode ser tratado como um atleta adulto?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Porque o corpo e o cérebro ainda estão em formação.
A ciência do desenvolvimento mostra que o córtex pré-frontal, área responsável por controle emocional, tomada de decisão e planejamento, só atinge maturidade completa por volta dos 20 a 25 anos. Antes disso, impulsividade e instabilidade emocional são naturais.
Do ponto de vista físico, o sistema musculoesquelético também está em crescimento.
Placas de crescimento ósseo abertas, menor produção hormonal e menor capacidade de recuperação tornam o jovem mais vulnerável a sobrecarga. Estudos em medicina do esporte demonstram que aplicar cargas intensas e repetitivas precocemente aumenta risco de lesões por estresse e abandono esportivo.
Treinar criança como adulto não acelera maturidade. Antecipar pressão não antecipa equilíbrio.
VDN: A ideia de “atleta não pode isso ou aquilo” faz sentido na formação?
Dr. Amaral: Depende da intenção.
Limite educativo organiza. Repressão desorganiza.
Proibir completamente lazer, socialização ou pequenos prazeres cria associação negativa com o esporte. A literatura em psicologia esportiva mostra que apoio social e equilíbrio vida-esporte estão associados a maior bem-estar e menor ansiedade em jovens atletas.
A criança precisa aprender responsabilidade, não viver em vigilância.
VDN: Qual o impacto psicológico da cobrança precoce por comportamento “perfeito”?
Dr. Amaral: Perfeccionismo precoce está associado a aumento de ansiedade, medo de errar e sintomas depressivos.
Crianças que sentem que só são valorizadas quando vencem desenvolvem uma identidade frágil, dependente de resultado, o erro vira ameaça à autoestima, o esporte deixa de ser espaço de aprendizado e passa a ser lugar de medo.
Muitos abandonos não acontecem por falta de talento. Acontecem por excesso de pressão.
VDN: Reprimir emoções na infância e adolescência afeta o futuro esportivo?
Dr. Amaral: Sim.
Ensinar a criança a “engolir o choro”, “não demonstrar nervosismo” ou “não reclamar” pode parecer fortalecimento, mas é repressão emocional.
Estudos mostram que stress emocional crônico eleva níveis de cortisol, prejudica recuperação muscular e impacta sistema imunológico. Jovens que não aprendem a regular emoções tendem a desenvolver dificuldade de lidar com frustração na vida adulta esportiva.
Autocontrole é diferente de silenciamento.
VDN: Onde pais e treinadores mais erram com jovens atletas?
Dr. Amaral: Nos excessos bem-intencionados:
– Projetar sonhos próprios na criança;
– Comparar constantemente com outros atletas;
– Especializar cedo demais;
– Cobrar resultado acima do processo;
Especialização precoce está associada a maior risco de lesões e burnout. Crianças que praticam múltiplas modalidades desenvolvem melhor coordenação, menor sobrecarga e maior prazer esportivo.
Sonhar junto é saudável. Sonhar pela criança não.
VDN: Disciplina é importante para crianças e adolescentes?
Dr. Amaral: Sim. Mas disciplina como estrutura, não punição.
Horários, constância, responsabilidade com uniforme e respeito ao treino ensinam organização e comprometimento.
Disciplina positiva constrói segurança emocional. Disciplina baseada em medo constrói ansiedade.
A criança precisa entender consequências, não temer humilhação.
VDN: O jovem atleta precisa abrir mão de viver para competir bem?
Dr. Amaral: Não!
Vida social equilibrada melhora saúde mental e aumenta adesão ao esporte. Estudos mostram que suporte familiar e amizades estão associados a menor índice de ansiedade e maior resiliência.
Privar a criança de viver não cria campeões. Cria exaustos precoces.
VDN: Quais sinais indicam que o modelo está adoecendo o jovem atleta?
Dr. Amaral: Sinais como:
– Queda de prazer pelo treino;
– Irritabilidade excessiva;
– Queixas físicas recorrentes sem causa clara;
– Medo exagerado de errar;
– Alteração de sono ou apetite;
Burnout juvenil é real e silencioso.
VDN: Qual é o verdadeiro papel do esporte na formação do jovem?
Dr. Amaral: Formar pessoas antes de formar atletas.
O esporte ensina disciplina, convivência, respeito, resiliência e liderança. Ele é ferramenta de desenvolvimento humano.
Medalhas são consequência. Caráter é construção.
Se o jovem abandona o esporte emocionalmente ferido, algo foi feito de errado.
Pais, o sonho é legítimo. A arquibancada faz parte da história. A medalha emociona. Mas nenhuma conquista vale a perda da infância.
Crescer no esporte é saudável quando há equilíbrio, escuta e proteção. O jovem atleta precisa de disciplina, sim mas também de apoio, compreensão e espaço para ser criança.
O esporte deve ensinar coragem, não medo. Resiliência, não repressão. Compromisso, não culpa.
Mais importante que formar campeões é formar adultos emocionalmente saudáveis.
E o papel de quem decide, paga, leva, busca e sonha junto é simples e gigante:
Proteger o sonho sem esmagar a infância.

