No esporte a dor é uma constante em que se todo as modalidades quando se pensa em rendimento por exemplo, no Jiu-Jítsu, a dor é algo quem em algum momento o praticante conhece até como um “idioma próprio”, aparece por conta das pegadas intensas, nas quedas repetidas, nas raspagens, passagens a pressão e nos treinos duros de preparação para campeonato. Microlesões musculares, inflamação transitória, rigidez e fadiga acumulada fazem parte da rotina de quem treina sério.
Para dar resposta a isto, cresce o interesse por estratégias que possam acelerar a recuperação muscular, melhorar o sono e reduzir o tempo de inatividade, entre essas estratégias, que tem ganhado espaço é o CBD (canabidiol).
Mas estamos diante de uma ferramenta terapêutica com base científica ou de mais um produto impulsionado pelo marketing esportivo? Seria um placebo?
Vamos analisar o tema com equilíbrio, ciência e responsabilidade.
Vanguarda do Norte: O que é o CBD e por que ele tem sido tão discutido no esporte?
Dr. Ricardo Amaral: CBD é a sigla para canabidiol, um composto extraído da planta Cannabis sativa. Ele é diferente do THC (tetrahidrocanabinol), responsável pelos efeitos psicoativos da maconha.
O CBD não provoca euforia nem alteração da consciência. Seu interesse terapêutico está relacionado à modulação de dor, inflamação, ansiedade e sono.
Nos últimos anos, o aumento da regulamentação para uso medicinal e a maior divulgação científica levam a sua popularidade também no ambiente esportivo.
VDN: Como o CBD atua no corpo do atleta?
Dr. Amaral: O organismo humano possui o Sistema Endocanabinoide (SEC), responsável por regular diversas funções fisiológicas, incluindo:
- Dor
- Inflamação
- Sono
- Humor
- Resposta ao estresse
O CBD atua modulando esse sistema, influencia receptores CB1 e CB2 e inibe a enzima FAAH, que degrada a anandamida substância envolvida na regulação da dor e sensação de bem-estar.
Essa modulação impacta diretamente no processo inflamatório e percepção dolorosa, dois fatores centrais na recuperação muscular.
VDN: O que acontece com o músculo após um treino intenso?
Dr. Amaral: Treinos intensos provocam microlesões nas fibras musculares. O corpo responde com inflamação fisiológica, necessária para adaptação e ganho de performance.
Esse processo pode gerar:
- Dor muscular tardia (DOMS)
- Rigidez
- Sensação de peso muscular
- Redução temporária de potência
A inflamação não é inimiga. Ela faz parte do processo adaptativo. O problema surge
quando há excesso de carga e recuperação insuficiente.
VDN: O CBD realmente reduz inflamação?
Dr. Amaral: Estudos indicam que o CBD possui propriedades anti-inflamatórias por atuar na modulação de citocinas e na atividade do receptor CB2.
Revisões científicas mostram potencial benefício na dor inflamatória e em condições crônicas.
VDN: O CBD ajuda na dor muscular pós-treino?
Dr. Amaral: Evidências mostram que o CBD modula a sinalização da dor no sistema nervoso central e periférico.
Estudo com praticantes de atividade física mostrou melhora significativa na tensão e rigidez muscular após aplicação tópica de CBD.
Também tem, revisões sobre dor crônica apontam efeito analgésico com perfil de segurança favorável.
Mas é importante reforçar: ele não substitui descanso adequado nem controle adequado de carga.
VDN: Existe relação entre CBD e melhora do sono?
Dr. Amaral: Sim, e esse talvez seja um dos mecanismos mais interessantes para atletas.
O sono profundo é essencial para:
- Liberação de hormônio do crescimento
- Reparação tecidual
- Consolidação neuromuscular
Estudos sugerem que o CBD pode ajudar a modular níveis de cortisol e reduzir ansiedade, favorecendo melhor qualidade de sono em atletas com hiperativação précompetitiva.
Dormir melhor é recuperar melhor.
VDN: O CBD é permitido no esporte competitivo?
Dr. Amaral: Segundo a World Anti-Doping Agency (WADA), o CBD não está na lista de substâncias proibidas.
Diferente do THC que continua proibido em competição.
O risco está na contaminação cruzada ou produtos mal rotulados. Atletas devem buscar produtos com certificação e acompanhamento médico.
VDN: Estamos diante de uma revolução ou de um modismo?
Dr. Amaral: Honestamente ainda tem muito a se estudar e comprovar.
Existe base científica plausível. Existem estudos promissores. Mas ainda faltam pesquisas robustas com grandes amostras.
O risco maior não é o CBD é a banalização. Transformar qualquer substância em “atalho” para performance é sempre perigoso.
VDN: Em quem o CBD pode ser usado?
Dr. Amaral: Pode ser considerado o uso, com orientação médica, em casos como:
- Dor muscular persistente
- Dificuldade significativa de sono
- Estresse elevado em períodos competitivos
- Dor crônica associada a treinamento
Mas sempre dentro de um plano estruturado de recuperação e acompanhamento
profissional.
Quando considerar o uso de CBD
- Atletas com dor muscular persistente
- Dificuldade relevante de sono
- Períodos de estresse competitivo
- Sob acompanhamento médico
- Produto com certificação e procedência confiável
Quando evitar ou ter cautela
- Uso sem orientação profissional
- Doença hepática ou renal ativa
- Uso concomitante de medicações metabolizadas pelo fígado
- Busca por “atalho” para performance
- Produtos sem controle de qualidade
No esporte de alto rendimento, toda ferramenta deve ser analisada com critério, ciência e responsabilidade.
O CBD não é milagre. Também não é mito.
Pode ser um recurso complementar na modulação da dor, inflamação e sono, mas nunca substitui:
- Periodização inteligente
- Nutrição adequada
- Sono estruturado
- Preparação mental
- Disciplina
Recuperar bem é tão estratégico quanto treinar forte, o verdadeiro diferencial do atleta
não está no que ele consome mas na consistência com que constrói sua rotina de
treinos.

