O que um aperto de mão ignorado no Europeu de Jiu-Jítsu nos ensina sobre caráter, educação e responsabilidade no esporte? Este gesto fala mais que qualquer medalha… A luta terminou. O árbitro encerrou o combate. O pódio já estava definido. Mas algo ficou suspenso no ar, literalmente!
Após a final do Campeonato Europeu de Jiu-Jítsu da IBJJF um atleta estende a mão ao adversário. O braço permanece ali por alguns segundos. O gesto não é correspondido. O atleta se levanta e se afasta. Não se trata aqui de julgar nomes, nacionalidades ou circunstâncias emocionais de um atleta específico. Trata-se de algo maior.
O braço estendido que não encontra resposta revela mais do que um momento de tensão, ele expõe uma falha formativa. Porque no Jiu-Jítsu e no esporte de forma geral o combate termina no apito final. Mas a formação do atleta se revela justamente depois dele.
Esse episódio, aparentemente simples, nos convida a uma reflexão profunda: estamos ensinando nossos atletas apenas a ganhar ou também a respeitar?
Uma das maiores confusões no esporte contemporâneo é a ideia de que o resultado resume o processo. Ganhou? Então tudo está certo. Perdeu? Algo falhou. Isto é uma “lógica” perigosa.
A luta é um espaço controlado de conflito, onde dois indivíduos aceitam voluntariamente o risco físico, emocional e simbólico. O cumprimento final não é um detalhe: é o fechamento desse pacto, demonstração de respeito e gratidão por ter lutado.
O placar define quem venceu a luta. O comportamento revela quem tem formação. Quando um atleta ignora o adversário após o combate, não estamos diante apenas de um “mau gesto”. Estamos diante de um sinal de alerta, algo falhou no processo educativo que o trouxe até ali.
Fair play não é romantização do esporte. É um princípio estruturante!
Respeitar o adversário, aceitar a derrota, reconhecer o mérito do outro e manter o autocontrole são competências tão treináveis quanto força, técnica ou condicionamento físico.
O problema é que vivemos uma era de hipervalorização da performance imediata e de baixa tolerância à frustração. O erro não pode aparecer. A derrota vira ofensa pessoal. O adversário deixa de ser parceiro de crescimento e passa a ser inimigo.
Do ponto de vista médico e esportivo, isso tem consequências claras, emoções mal
reguladas produzem comportamentos mal regulados. O fair play, portanto, não é um acessório ético. Ele é um marcador de maturidade emocional.
Onde essa falha começa? Nenhum comportamento surge do nada. No esporte, ele é construído ou permitido ao longo do tempo. O atleta reproduz em competição aquilo que foi ensinado e, principalmente, aquilo que foi aceitado durante o treino.
O professor não deve corrigir apenas a técnica, mas também atitudes desrespeitosas, quando o foco exclusivo é o pódio, quando se tolera comportamentos inadequados “porque o aluno é bom”, a mensagem é clara: ganhar justifica tudo. O que não é corrigido no treino aparece amplificado no campeonato.
Pais e responsáveis têm papel decisivo. Quando aplaudem apenas a vitória, quando justificam qualquer atitude “porque ele estava nervoso”, quando tratam a derrota como humilhação, ajudam a criar atletas emocionalmente frágeis, defensivos e até agressivos.
O esporte deixa de ser ferramenta educativa e vira fonte de pressão. Redes sociais, cultura da provocação e da desmoralização do adversário criam um cenário onde o respeito parece fraqueza. Isto é um erro conceitual grave!
A ciência e a prática esportiva nos mostram na psicologia do esporte e neurociência de forma clara, atletas com melhor regulação emocional apresentam maior longevidade esportiva, melhor tomada de decisão sob pressão e menor incidência de comportamentos antidesportivos.
O autocontrole emocional está associado ao funcionamento do córtex pré-frontal, região responsável por inibição de impulsos, empatia e julgamento moral. Quando o atleta não aprende a lidar com frustração, derrota ou vitória, ele reage de forma primitiva: fuga, agressividade ou negação.
Ensinar fair play é, na prática, treinar o cérebro do atleta. Não se trata de “tirar a competitividade”, mas de sustentá-la a longo prazo. O respeito não enfraquece o atleta. Ele o estabiliza. O cumprimento final no Jiu-Jítsu é um ritual. Rituais existem para dar sentido à experiência humana.
Aquele gesto simples comunica:
“Reconheço você.”
“Reconheço o risco.”
“Reconheço o caminho.”
Quem ignora o adversário após a luta não o diminui… diminui a si mesmo. Porque nega o
processo que o levou até ali. No tatame, ninguém vence sozinho. Nem te como lutar só… devemos respeitar o adversário.
O professor de Jiu-Jítsu não é apenas um transmissor de técnicas. Ele é um formador de
cultura.
Todo treino se ensina algo além da luta:
– como lidar com erro,
– como lidar com dor,
– como lidar com o próximo.
Corrigir um aluno que não cumprimenta o adversário é tão importante quanto corrigir
uma pegada mal feita. Talvez até mais…
Todo treino é uma aula de valores, mesmo quando o professor não percebe. Medalhas passam, valores ficam. A cena do braço estendido que não foi correspondido não deve ser usada para atacar indivíduos. Deve ser usada para educar coletivos.
Se queremos campeões no pódio, precisamos primeiro formar pessoas fora dele.
Ganhar é circunstância.
Cumprimentar é caráter.
O Jiu-Jítsu sempre foi maior do que a medalha. Cabe a nós professores, famílias e
instituições, garantir que ele continue sendo.
No fim, o que fica não é a medalha, nem o placar, nem o vídeo da luta. O que permanece
é aquilo que o atleta leva para fora do tatame quando o combate acaba. O aperto de mão,
o olhar, o respeito ao outro são sinais silenciosos de uma formação bem conduzida.
O Jiu-Jítsu sempre se propôs a formar mais do que lutadores formar pessoas capazes de vencer sem se perder e de perder sem se quebrar. Quando ensinamos nossos atletas a reconhecer o adversário, ensinamos algo ainda maior: a reconhecer limites, humanidade e caráter. Porque no esporte, como na vida, ganhar é momentâneo. O respeito, esse sim, fica.

