A muito tempo cresce a preocupação com os efeitos da pressão parental (dos pais) no esporte infantil. Estudos mostram que cerca de 70% das crianças abandonam o esporte organizado antes dos 13 anos. Curiosamente, o principal motivo raramente é a derrota, o que mais afasta os jovens do esporte é, na maioria das vezes, o excesso de cobrança, a perda da diversão e a sensação de que estão jogando mais para agradar os adultos do que por amor ao jogo.
Foi justamente para combater essa cultura que, em 2007, o ex-jogador e técnico de beisebol Mike Matheny escreveu uma carta aos pais de seus atletas. O texto viralizou e ficou conhecido como Matheny Manifesto, tornando-se referência mundial para treinadores e famílias.
Sua essência é simples: o esporte infantil não é sobre troféus, é sobre formação humana.
Organizei os principais ideias e ensinamentos do manifesto em formato de perguntas e respostas, também trazendo evidências científicas e à realidade do esporte juvenil principal referência Mike Matheny.
Por que o esporte pertence à criança e não aos pais?
Porque é a criança quem joga, quem aprende e quem vive a experiência emocional do esporte.
O manifesto é claro: o papel dos pais é ser uma fonte silenciosa de incentivo. Se perguntarmos às crianças o que querem dos pais durante o jogo, a resposta mais comum é: “Nada. Apenas que estejam lá.”
A ciência confirma isso, a teoria da autodeterminação mostra que a motivação verdadeira surge quando o jovem sente autonomia, competência e apoio emocional, no momento em que o esporte passa a ser controlado pelos adultos, ele deixa de ser prazer e vira obrigação.
Não se deve projetar seus sonhos no seu filho. O jogo é dele.
- Pressão comum: “Filho, por que você não chutou? Eu falei pra ir pra cima!”
- Acolhimento saudável: “Eu gostei de ver sua coragem de tentar hoje. Vamos conversar sobre o jogo quando você quiser.”
Qual deve ser o verdadeiro papel dos pais no esporte?
Ser apoio emocional, não técnicos de arquibancada.
Matheny insiste: quem treina é o treinador. Quando os pais gritam instruções durante o jogo, a criança recebe mensagens conflitantes, sente ansiedade e perde confiança.
Pesquisas mostram que o apoio emocional dos pais é um dos fatores mais importantes para a permanência no esporte. Já os comportamentos intrusivos aumentam muito o risco do abandono ao esporte.
A pergunta que todo pai deve fazer não é “o que posso ensinar durante o jogo?”, mas sim:
“Meu filho sente que estou orgulhoso dele independentemente do resultado?”
- Pressão comum: “Você ficou parado! Presta atenção no treinador!”
- Acolhimento saudável: “Estou orgulhoso do seu esforço. Sei que você tentou dar o seu melhor.”
Por que caráter deve vir antes da vitória?
Porque vitórias passam. Caráter permanece.
O manifesto deixa isso claro, o objetivo do esporte juvenil não é formar campeões é formar pessoas.
Quando o foco é apenas ganhar, surge arrogância, medo de errar e baixa tolerância à frustração.
Quando o foco é caráter, surgem resiliência, disciplina, espírito coletivo e profissional (quer seja área que desejar). O verdadeiro sucesso esportivo infantil não é levantar troféus. É aprender a perder com dignidade e vencer com humildade.
- Pressão comum: “Você perdeu porque não treinou direito!”
- Acolhimento saudável: “Perder faz parte. O importante é que você lutou com coragem, fez o seu melhor e respeito.”
Como o esporte ensina respeito ao adversário?
Quando se entende que o adversário não é inimigo é parceiro de crescimento.
Sem adversário não existe jogo, não existe evolução e não existe aprendizado, o manifesto é enfático ao dizer que os jovens devem jogar sempre com respeito aos colegas, oponentes e árbitros.
No Jiu-Jitsu, judô, tênis de mesa são esportes que isso fica ainda mais evidente. Treinase com quem nos ajuda a melhorar. No tatame, nos campos ou quadras o adversário é alguém que nos permite evoluir técnica e emocionalmente.
Ensinar respeito no esporte é ensinar respeito para a vida.
- Pressão comum: “Aquele menino ganhou porque teve sorte!”
- Acolhimento saudável: “Ele também treinou muito. Hoje foi o dia dele, e isso nos ajuda a crescer.”
Por que preservar a alegria é essencial?
Porque a diversão é o principal motivo pelo qual crianças praticam esporte. Quando a alegria desaparece, surgem o burnout, a ansiedade e o abandono precoce. Estudos mostram que o prazer é o maior fator de motivação para crianças continuarem praticando atividade física.
Matheny resume essa ideia em uma frase simples, que talvez seja a mais poderosa de todo o manifesto: “A melhor coisa que você pode dizer ao seu filho depois do jogo é: Eu adorei te ver jogar hoje.”
Não é sobre o placar. É sobre o sorriso.
- Pressão comum (muito frequente): “Por que você errou o pênalti? Eu te ensinei como fazer!”
- Acolhimento correto: “Vem cá, me dá um abraço. Isso acontece na vida, filho. O mais importante é ter coragem de tentar e sempre fazer o seu melhor.”
Estamos formando atletas ou seres humanos?
O Matheny Manifesto continua atual porque toca em uma verdade fundamental, o esporte infantil é uma escola de vida.
Ele ensina disciplina, coragem, respeito e resiliência quando conduzido com equilíbrio.
Pais e treinadores caminham juntos. Quando entendemos que o esporte pertence à criança, que nosso papel é apoiar emocionalmente e que caráter vale mais do que vitórias, criamos algo muito maior do que campeões.
Criamos pessoas fortes, seguras e felizes. E, no final, é isso que realmente importa.

