Um incêndio florestal na região do Rio Urubu, em Itacoatiara, no interior do Amazonas, está ativo há 54 dias e já atingiu mais de 4 mil hectares de vegetação, área equivalente a aproximadamente 5,6 mil campos de futebol. Nesta sexta-feira (23), as chamas continuavam avançando sobre parte da Terra Indígena (TI) Paraná do Arauató, território tradicional do povo Mura, apesar da mobilização de equipes estaduais e federais para conter o fogo.
O primeiro foco de calor na região foi registrado em 30 de agosto, às margens do Rio Urubu, segundo o sistema Fire Information for Resource Management System (FIRMS), da Nasa. Desde então, o incêndio se espalhou pela área, e as dificuldades de acesso têm complicado o trabalho das equipes.
O deslocamento até a região exige trajetos por estrada e, em determinados trechos, por embarcação, o que dificulta o transporte de profissionais, equipamentos e materiais necessários à operação.
Aviões e brigadistas atuam no combate ao fogo
Há uma semana, dois aviões do Prevfogo, programa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e uma aeronave da Defesa Civil do Amazonas atuam na região. As operações incluem o lançamento de água sobre as áreas atingidas, com apoio de bombeiros e brigadistas em solo.
Apesar da mobilização, o incêndio permanecia ativo nesta sexta-feira (23), sem ter sido controlado. A dificuldade de acesso à região, a extensão da área atingida e o surgimento de novos focos dificultam o trabalho das equipes de combate.
Moradores relatam morte de animais e problemas de saúde
Os impactos das queimadas também são sentidos pelas comunidades indígenas da região. Em 15 de outubro, moradores da Terra Indígena Paraná do Arauató relataram à Rede Amazônica que a fumaça e os incêndios recorrentes provocam a morte de animais silvestres e prejudicam a saúde da população.
Na ocasião, a cacica da Aldeia Paricá, Aldenora Maquinez Lima, que também trabalha como agente indígena de saúde, lamentou os efeitos do fogo sobre a floresta e os animais.
“Dá pena de ver os bichos morrer. Preguiça, pássaros que vão fugindo do fogo e vão se acabando”, relatou.
A cacique Dina Marques, da TI Paraná do Arauató, afirmou que os brigadistas enfrentam dificuldades para conter as chamas diante da extensão da área atingida e do surgimento de novos focos.
Segundo ela, enquanto as equipes trabalham para controlar o fogo em um ponto, novos incêndios aparecem em outros locais. A liderança pediu que a população deixe de provocar queimadas e cobrou o reforço das ações de proteção ao território indígena.
Fumaça compromete a qualidade do ar
Além de ameaçar a floresta e a fauna local, o incêndio provoca uma intensa cortina de fumaça que encobre Itacoatiara e compromete a qualidade do ar. Na manhã desta sexta-feira (23), o município registrou um dos piores índices entre as localidades monitoradas no Amazonas.
Às 6h, a concentração de partículas finas suspensas no ar chegou a 250 microgramas por metro cúbico (µg/m³). Às 8h15, o índice recuou para 148,8 µg/m³, mas a qualidade do ar permaneceu na categoria péssima, conforme dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
As partículas finas presentes na fumaça das queimadas podem penetrar profundamente nos pulmões e representar riscos à saúde, principalmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) informou que a fumaça que atinge Itacoatiara também é proveniente de incêndios em outros municípios do Baixo Amazonas e do oeste do Pará. Segundo a pasta, a fumaça produzida pelas queimadas no próprio município também é transportada pelos ventos para outras localidades, podendo chegar a Manaus.
Outros incêndios atingem a zona rural
O incêndio na região do Rio Urubu não é o único a atingir Itacoatiara. Outras localidades da zona rural enfrentam queimadas há mais de duas semanas.
Na região da Vila de Lindóia, outro incêndio já atingiu mais de 800 hectares, conforme dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
Bombeiros, equipes do governo, moradores e lideranças comunitárias estão mobilizados há vários dias para tentar conter as chamas. A população também contribui com doações de combustível e alimentos destinados aos profissionais envolvidos no combate ao fogo.
Governo federal reforça operação no Amazonas
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a atuação de aeronaves, brigadistas e forças de segurança do governo federal contribuiu para extinguir 338 incêndios florestais no Amazonas desde o início da operação de combate às queimadas.
O apoio federal está concentrado principalmente em áreas isoladas e de difícil acesso, onde o deslocamento das equipes e o transporte de equipamentos representam desafios adicionais.
A estrutura mobilizada conta com 17 aeronaves, sendo seis aviões Air Tractor, dois KC-390, oito helicópteros e uma aeronave Caravan. A operação também dispõe de nove embarcações e 66 veículos, utilizados no transporte de profissionais e materiais e no combate direto às chamas.
A força-tarefa reúne 474 brigadistas do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de 54 militares da Força Aérea Brasileira (FAB) e 41 integrantes da Força Nacional.
O governo federal também custeia as diárias de 116 bombeiros do Amazonas para reforçar as ações de combate aos incêndios no estado.

