Há histórias que não começam no nascimento de uma carreira; começam no momento em que
a vida exige um novo tipo de consciência. E, para muitas mulheres, esse ponto não está em
uma conquista profissional, em um título acadêmico ou em um cargo de liderança. Está no
instante em que se tornam mães.
Não é uma mudança superficial. Não é apenas emocional. É estrutural. A maternidade
reorganiza o tempo, reposiciona prioridades e, sobretudo, altera a forma como se enxerga o
impacto das próprias decisões.
O que antes era urgência, passa a ser escolha. O que antes era desempenho, passa a ser
sentido. E o que antes era individual, passa a ser coletivo.
No Amazonas, onde trajetórias de excelência convivem com desafios históricos, essa
transformação ganha ainda mais relevância. Porque não se trata apenas de crescer
profissionalmente; trata-se de sustentar esse crescimento em um ambiente que, muitas vezes,
ainda exige mais das mulheres do que está disposto a oferecer em estrutura.

Priorizar processos humanos na gestão técnica
É nesse cenário que a trajetória de Valeska Francesconi se destaca. Médica, professora,
gestora e referência na dermatologia, ela construiu uma carreira sólida na medicina e na
formação de profissionais. Mas é na forma como a maternidade atravessa essa trajetória que
se revela algo maior do que sucesso: coerência.
“A maternidade mudou minha forma de liderar desde o momento em que entendi que liderar
não é apenas entregar resultados, mas também cuidar de pessoas, formar equipes e construir
legados. Ser mãe ampliou meu senso de responsabilidade e também minha sensibilidade.
Passei a olhar mais para processos humanos, para o impacto das decisões no longo prazo e
para a importância de criar ambientes mais saudáveis e colaborativos.”
A fala não carrega apenas emoção, carrega direção. Durante muito tempo, liderança foi
construída sobre bases rígidas. Controle, produtividade, eficiência. Em ambientes como a
medicina, essa lógica se intensifica.
O erro é mínimo, a cobrança é alta e a expectativa de desempenho é constante. Mas esse
modelo, embora funcional, sempre deixou lacunas; especialmente quando se trata de pessoas.
E é exatamente nesse ponto que a maternidade atua. Ela amplia a leitura, refina a percepção. Ela introduz uma camada de humanidade que não enfraquece a liderança, mas a sustenta.
Não se trata de suavizar decisões, mas de compreender melhor seus efeitos. Não se trata de
reduzir exigência, mas de alinhar propósito. E isso, em um cenário cada vez mais complexo, deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.

Sustentar valores através da autenticidade
Existe, no entanto, uma barreira silenciosa que ainda atravessa a trajetória de muitas mulheres
em posição de liderança: a expectativa de perfeição.
A ideia de que autoridade precisa ser impenetrável. De que fragilidade compromete
credibilidade. De que, para ocupar espaços de poder, é preciso eliminar qualquer traço de
vulnerabilidade.
“A maternidade me ensinou que vulnerabilidade não diminui autoridade, ela humaniza. Hoje me
sinto uma profissional mais segura justamente porque não preciso sustentar uma imagem de
perfeição.”

A frase, simples na forma, é profunda no impacto. Porque desloca o conceito de força. Durante
décadas, esse conceito foi associado à ausência de falhas. Hoje, ela começa a ser
compreendida como capacidade de adaptação, de reconhecimento de limites e de construção
coletiva.
E isso não é teoria. É prática. Na rotina de uma médica que também é professora, gestora e
mãe, não existe espaço para modelos irreais. Existe organização, priorização e, principalmente,
consciência.
Transformar a rotina em estratégia de presença
Essa consciência se estende também à construção de uma marca que carrega o próprio nome.
Quando identidade pessoal e profissional se encontram, o nível de exigência muda. Não se
trata apenas de entregar um serviço de qualidade; trata-se de sustentar valores.
“Quando uma marca carrega o nome da família, ela precisa representar muito mais do que
excelência técnica. Precisa transmitir confiança, ética, cuidado e verdade. A maternidade
reforçou em mim esses valores. Quero que a Francesconi Dermatologia continue sendo
reconhecida não apenas pelos resultados técnicos que entrega, mas pela forma como acolhe,
cuida e transforma vidas.”
Há, nessa construção, um elemento que não pode ser ignorado: coerência. O mercado mudou.
O público mudou. E, cada vez mais, o que se espera não é apenas competência, mas
consistência.
E mães que lideram negócios entendem isso de forma quase intuitiva. Porque vivem,
diariamente, a responsabilidade de formar, cuidar e orientar. Mas se há avanços evidentes na forma como mulheres têm ocupado espaços de liderança, ainda existem estruturas que não acompanham esse movimento.
“Em muitos contextos, a maternidade ainda é vista como limitação, e isso revela um problema
estrutural da sociedade, não da mulher. Mas também vejo que muitas mulheres se tornam
líderes ainda mais fortes depois da maternidade. Desenvolvem capacidade de decisão,
resiliência, inteligência emocional e senso de prioridade em um nível muito alto.”

Expandir horizontes para as próximas gerações
A contradição é clara: de um lado, um sistema que ainda carrega resquícios de um modelo
ultrapassado. Do outro, uma realidade que já evoluiu.
E é nesse intervalo que se constrói o desafio contemporâneo, ao alinhar estrutura e prática.
Porque não se trata mais de provar capacidade. Trata-se de reconhecer aquilo que já está
posto.
E poucas experiências desenvolvem tantas habilidades quanto a maternidade. Gerir tempo,
lidar com imprevistos, tomar decisões sob pressão, priorizar, cuidar, formar. Tudo isso faz parte
do cotidiano de uma mãe. E tudo isso, quando levado para o ambiente profissional, transforma
a forma de liderar.
Talvez por isso uma das maiores mudanças não esteja na quantidade de tarefas, mas na forma
como elas são organizadas.
“Equilíbrio perfeito de tempo é uma ilusão. O que existe, na prática, é gestão consciente de
prioridades. Passei a valorizar mais qualidade de presença do que quantidade de horas.
Quando estou com meu filho, procuro estar inteira. Quando estou no trabalho, também. Essa
mudança trouxe mais clareza, menos culpa e decisões mais estratégicas.”
Essa leitura rompe com uma das maiores armadilhas impostas às mulheres: a ideia de que é
possível (e necessário) dar conta de tudo ao mesmo tempo. Não é. E reconhecer isso não é fraqueza; é inteligência.


A partir desse entendimento, a culpa diminui, a clareza aumenta e as decisões passam a ser tomadas com mais intenção. E, no meio de tudo isso, existe um aspecto que raramente aparece nos discursos, mas que talvez seja o mais importante: o exemplo.
O filho de Valeska cresce observando. Não apenas ouvindo, mas vendo. Vendo o que significa
trabalhar, decidir, liderar e, ao mesmo tempo, estar presente.
“Espero estar mostrando a ele que trabalho é uma forma de servir, construir e honrar talentos.
Que disciplina não é rigidez, é constância. E que sucesso não deve ser medido apenas por
resultados materiais, mas pelo impacto positivo que geramos na vida das pessoas.”
Essa construção é silenciosa, mas poderosa. Porque forma visão de mundo. Forma
entendimento sobre o que realmente importa. E talvez esse seja o maior legado da
maternidade: não aquilo que se ensina, mas aquilo que se vive. Ainda assim, há um caminho a
ser percorrido.
“Precisamos avançar em corresponsabilidade, redes de apoio e mudança cultural. A
maternidade ainda recai de forma desproporcional sobre a mulher. Nenhuma mulher deveria ter
que escolher entre crescer profissionalmente e viver plenamente a maternidade.”


Consolidar o legado por meio da coerência e do exemplo
A fala é direta porque o problema é real. E a solução não está apenas na força individual, mas
na construção coletiva.
Famílias, empresas e instituições precisam evoluir. Precisam entender que apoiar a
maternidade não é um favor; é um investimento em uma sociedade mais equilibrada e
produtiva.
Ao olhar para sua própria trajetória, Valeska reconhece que a transformação não foi apenas
profissional. Foi pessoal.
“A Valeska de hoje é mais madura, mais consciente e mais conectada ao que realmente
importa. A ambição permaneceu, mas ganhou propósito. A disciplina se fortaleceu. E precisei
deixar para trás a necessidade de controle absoluto, a cobrança excessiva e a ideia de que
valor pessoal depende apenas de performance.”
Há, nessa conclusão, uma síntese do nosso tempo. A substituição da perfeição pela coerência.
Do controle pela consciência e da cobrança pelo propósito. E, talvez, a principal mudança: a compreensão de que sucesso não é apenas chegar; é sustentar.

No Dia das Mães, histórias como a de Valeska Francesconi deixam de ser apenas perfis
profissionais e passam a ser retratos de uma transformação maior.
Uma transformação que não faz barulho, mas muda estruturas. Que não rompe de forma
abrupta, mas reorganiza. Que não exige escolha, mas propõe integração.
Porque, no fim, a maternidade não reduz caminhos. Ela amplia. E, para mulheres que lideram,
constroem e transformam, ela se torna exatamente aquilo que sustenta tudo o que vem depois:
base, direção e propósito.

