Em grandes competições, o corpo nem sempre é o primeiro a falhar. Muitas vezes, é a mente. Quando se fala em Campeonato Brasileiro da Confederação Brasileira de JiuJitsu (CBJJ), quase todo atleta pensa em treinos duros, preparação física, dieta, corte de peso e lesões. O corpo precisa estar pronto para um dos torneios mais exigentes do calendário mundial.
Existe um adversário silencioso que frequentemente causa mais derrotas do que uma contusão muscular, uma torção leve ou uma dor no joelho: a ansiedade pré-campeonato. Ela começa aparecer na semana anterior, aumenta na viagem, cresce na véspera e explode minutos antes da primeira luta. Em alguns casos, faz o atleta dormir mal, errar o peso, discutir com familiares, perder foco, travar no combate ou gastar energia antes mesmo de lutar.
Afirmo sem exagero: em muitos casos, a ansiedade tira mais performance do que a lesão. Em tempos de Brasileiro CBJJ, entender isso pode mudar o resultado no placar e também a saúde emocional do competidor.
Vanguarda do Norte: A ansiedade realmente atrapalha tanto assim?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Sim. E muitas vezes de forma subestimada.
Uma lesão normalmente é percebida. O atleta sente dor, limita movimento, procura tratamento. Já a ansiedade costuma ser romantizada:
– “É normal ficar assim.”
– “Estou pilhado porque quero ganhar.”
– “Isso mostra que eu me importo.”
Até certo ponto, tensão é normal. O problema é quando ela ultrapassa a zona útil e vira
sabotagem fisiológica e mental.
VDN: O que acontece no corpo ansioso antes de competir?
Dr. Amaral: O organismo entra em estado de alerta:
- aumento de adrenalina;
- aumento da frequência cardíaca;
- respiração curta;
- tensão muscular;
- pensamentos acelerados;
- dificuldade para dormir;
- alteração intestinal;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
Para luta agarrada, tomada de decisão e controle fino de energia, isso pesa muito.
Um atleta excelente tecnicamente pode render abaixo do comum se chegar mentalmente desorganizado.
VDN: Como isso aparece no tatame?
Dr. Amaral: Os sinais clássicos são:
- entrar duro demais na pegada;
- cansar cedo;
- esquecer estratégia simples;
- atacar fora de hora;
- travar na primeira troca;
- lutar “com medo de perder”;
- não enxergar oportunidades;
Ou seja: o atleta está presente fisicamente, mas ausente mentalmente.
VDN: Então ansiedade pode derrubar mais que lesão?
Dr. Amaral: Eu diria que, sim.
Uma dor leve no dedo, ombro ou joelho pode ser administrada. O atleta adapta, usa estratégia e segue competitivo.
Já ansiedade intensa pode comprometer:
- sono por vários dias;
- recuperação;
- alimentação;
- peso;
- humor;
- confiança;
- timing competitivo;
Ela contamina o sistema inteiro.
Há atletas que entram inteiros no corpo e quebrados por dentro.
VDN: Redes sociais pioram isso no Brasileiro?
Dr. Amaral: Frequentemente. O atleta começa a pesquisar a chave, ver vídeos de adversários, medalhas, shape, seguidores, equipe rival. Com isso, transfere energia do próprio preparo para fantasias externas.
A comparação digital virou aquecimento emocional errado.
Informação estratégica sempre é útil! Obsessão comparativa é veneno.
VDN: O corte de peso também influencia?
Dr. Amaral: Muito. Quando há restrição extrema e desidratação de última hora, o cérebro sofre junto com o corpo. O atleta tende a ficar:
- mais irritado;
- impulsivo;
- pessimista;
- mentalmente lento;
- emocionalmente frágil;
Muitos interpretam como “pressão do campeonato”, mas parte do problema seguramente é manejo ruim do peso.
VDN: Como controlar a ansiedade na semana do Brasileiro?
Dr. Amaral: Cinco medidas práticas:
- Preserve o sono
Sono ruim piora ansiedade e desempenho. - Reduza excesso de tela
Menos comparação, mais foco. - Mantenha rotina simples
Horários previsíveis acalmam o cérebro. - Respire de forma consciente
Expiração longa reduz ativação. - Pense em processo, não em medalha
Primeira pegada, primeira luta, próxima decisão.
Campeonato grande assusta quando visto inteiro. Fica administrável quando dividido em etapas. Vença luta a luta.
VDN: Como o atleta deve interpretar o nervosismo antes de entrar no tatame?
Dr. Amaral: Como algo normal e até útil, quando bem conduzido. Sentir o coração acelerar, as mãos suarem ou a mente ficar alerta não significa fraqueza. Significa que o corpo entendeu que aquele momento importa!
O erro é interpretar nervosismo como sinal de desastre. Na verdade, muitas vezes ele é apenas energia pronta para ser direcionada. O atleta mais experiente não é o que sente menos. É o que entende melhor o que está sentindo e consegue transformar tensão em presença competitiva.
No Brasileiro CBJJ, lesões chamam atenção. Ansiedade, não. Mas basta acompanhar bastidores para perceber: muitos atletas chegam fisicamente aptos e emocionalmente nem tanto.
Não é fraqueza sentir pressão. É humano. Fraqueza é ignorar que o mental também treina.
Quem aprende a competir com o coração acelerado, a mente estável e o foco no presente ganha uma vantagem real.
No alto rendimento, nem sempre vence quem sente menos. Muitas vezes vence quem administra melhor.

