A maternidade, quando analisada fora do campo romantizado, costuma operar como um divisor
de águas silencioso. Não se trata apenas do nascimento de um filho, mas da reorganização de
estruturas internas que, muitas vezes, estavam sustentadas por lógicas de produtividade,
desempenho e validação externa.
No caso da arquiteta e designer Sihame Cruz Simões Silva, esse processo não aconteceu de forma imediata ou previsível. Ele foi construído ao longo de um tempo que ela mesma define como uma
gestação estendida, carregada de expectativa, fé e ressignificação.
“Na verdade, eu falo que gestei meu filho por 16 anos, um longo tempo, uma longa espera que
valeu cada segundo, porque tenho certeza que Deus estava preparando essa pessoinha tão
incrível, generosa, genuína para a minha vida.”
A fala não apenas contextualiza o tempo de espera, mas estabelece o ponto de partida de uma
transformação que ultrapassa a esfera pessoal. Ao longo desse período, construiu-se não
apenas o desejo da maternidade, mas também uma identidade profissional consolidada em um
mercado exigente, marcado por padrões estéticos rígidos e uma constante pressão por
inovação e diferenciação.

O mundo visto por novos olhos
Quando o filho, Victinho, finalmente chega, o impacto não se restringe à rotina doméstica. Ele
atravessa diretamente a forma como Sihame passa a interpretar o mundo, influenciando desde
decisões cotidianas até a maneira como ela conduz sua atuação profissional.
“Tudo que eu vou apresentar para ele é como se eu estivesse redescobrindo. Lembro muito da
primeira vez que ele viu o pôr do sol, ainda muito pequeno, e o olhar dele, emocionado, me
marcou profundamente. Isso muda completamente o seu olhar para o todo.”
Esse tipo de percepção, embora subjetiva, tem implicações práticas. A partir do momento em
que a maternidade introduz uma nova lente de leitura da realidade, há uma reavaliação natural
sobre prioridades, tempo e sentido.
E é justamente nesse ponto que a trajetória de Sihame se distancia de narrativas tradicionais
que associam a maternidade a uma pausa ou desaceleração de carreira. No caso dela, o que
ocorre é uma mudança de direção.

“Passei o primeiro ano totalmente dedicada a ele. E isso mudou muito a minha profissão,
porque hoje eu faço o que vale a pena, o que me move, o que eu amo, não o que eu tenho que
fazer.”
A declaração evidencia uma ruptura com um modelo de atuação baseado exclusivamente em
demanda e entrega. Ao priorizar projetos que fazem sentido, Sihame não reduz sua atuação;
ela a qualifica.
Essa mudança dialoga com um movimento mais amplo entre mulheres que conciliam
maternidade e carreira, substituindo a lógica de “dar conta de tudo” por uma gestão mais
estratégica de energia e propósito.
Arquitetura que acolhe, não apenas impressiona
No campo da arquitetura, essa transformação se traduz de forma clara na abordagem adotada
por Sihame em seus projetos.
“Hoje eu quero uma arquitetura mais gostosa, uma arquitetura que abraça, que traz conforto,
acolhimento de útero. Eu penso muito mais no que é vivido dentro da casa do que apenas no
que é visto.”
A expressão sintetiza uma mudança de paradigma. Em vez de priorizar exclusivamente
estética e tendências, a arquiteta passa a valorizar a experiência sensorial e emocional dos
espaços. O ambiente deixa de ser apenas um produto visual e passa a ser entendido como
extensão da dinâmica familiar.

“Não é mais sobre ter móveis caros ou seguir tendências. É sobre ter um tapete onde você
possa sentar com seu filho, um sofá onde você possa se jogar, um espaço que realmente
funcione para a vida real.”
Essa abordagem dialoga com um conceito contemporâneo de arquitetura centrada no usuário,
mas ganha uma camada adicional ao ser atravessada pela experiência da maternidade.
O olhar técnico se soma ao afetivo, resultando em projetos que refletem não apenas estética,
mas funcionalidade emocional. Outro ponto relevante nessa transformação é a rejeição a
padrões replicáveis.

“Eu tenho uma ojeriza a projetos feitos em série, porque cada família tem uma história, uma
dinâmica, uma identidade. Não faz sentido repetir soluções como se fossem universais.”
Essa postura evidencia um posicionamento mais autoral e menos condicionado às demandas
de mercado.
“O Victinho me trouxe essa autonomia de ser quem eu sou, de pensar o que eu penso e de
entender que está tudo bem não seguir o que todo mundo está fazendo.”
Entre o afeto e a responsabilidade diária
Se, por um lado, a maternidade fortalece o posicionamento profissional, por outro, ela também
introduz desafios práticos que fazem parte da rotina de qualquer mulher que ocupa múltiplos
papéis.
“Às vezes me corta o coração sair de casa e vê-lo chorando. Agora que ele começou a falar e
me chama de mãe, isso mexe muito comigo, porque foi algo que eu esperei a vida inteira.”
Isso expõe um aspecto frequentemente suavizado em narrativas públicas: o conflito emocional
entre presença e responsabilidade profissional.

“Eu tenho meus compromissos, meus clientes, e cumpro tudo com muito profissionalismo. Mas
o meu foco principal, desde o dia que ele nasceu, é ele. Isso não muda.”
Há, nesse ponto, uma ponte entre vida pessoal e profissional, onde ambos os universos
coexistem e se influenciam mutuamente, sem a necessidade de hierarquias rígidas.
Reconstrução, sentido e completude
Ao refletir sobre sua própria trajetória, Sihame Cruz demonstra clareza ao reconhecer o
impacto acumulado de experiências anteriores à maternidade.
“As perdas e as tentativas me fizeram, em alguns momentos, me sentir fracassada. Mas, ao
mesmo tempo, eu sempre senti que existia uma promessa para mim. E hoje eu entendo isso
com muita clareza.”

Essa percepção contribui para a construção de uma identidade mais sólida, menos dependente
de validações externas.
“Hoje eu sou uma pessoa mais segura, mais consciente, mas também alguém que aprendeu a
lidar com o medo da perda. Isso faz parte de quem eu me tornei.”
A maternidade, nesta perspectiva, não apenas acrescenta uma nova camada à identidade de
Sihame, mas reorganiza sua base.


“Eu sempre busquei essa sensação de estar completa. Viajava, comprava coisas, fazia várias
atividades, mas parecia que nunca era suficiente. Hoje eu posso dizer que encontrei esse lugar.
Ele é o meu 100%.”
No contexto amazônico, onde mulheres ocupam cada vez mais espaços de liderança, histórias
como a de Sihame ajudam a construir novas referências sobre o papel feminino na
sociedade.
Ao integrar maternidade, carreira e identidade de forma orgânica, sua trajetória
aponta para um processo contínuo de ajuste e coerência entre o que se vive e o que se
constrói.

Neste Dia das Mães, mais do que celebrar conquistas, sua história propõe uma reflexão sobre
escolhas, tempo e presença, e sobre como a maternidade, quando vivida em profundidade, não
limita trajetórias, mas redefine caminhos.

