O esporte quando praticado na infância e adolescência se torna uma das maiores ferramentas para formação integral: física, mental e ética. Mas quando o estímulo vira pressão? O treino se transforma em cobrança e a vitória vale mais do que o processo, corremos o risco de adoecer o corpo e desvirtuar todo objetivo inicial.
Hoje vamos abordar três conceitos essenciais para familiares e aqueles que atuam com crianças e adolescentes no ambiente esportivo: Overtraining, Overreaching e Fair Play. Estes conceitos vão nos ajudar a entender e responder perguntas que recebo com frequência como: “Quanto é demais? Quando parar? E como ensinar ética com o esporte?”
Vanguarda do Norte: O que é Overtraining e por que é tão preocupante em crianças e adolescentes?
Dr. Amaral: O overtraining é um estado de esgotamento físico e mental crônico, causado por excesso de treino sem o devido tempo de recuperação adequada. Ele não é simplesmente “cansaço”, é sim um desequilíbrio profundo entre estímulo e recuperação, que pode comprometer a saúde e o desempenho do jovem atleta.
Nas crianças e adolescentes, o risco é maior porque o organismo está em fase de crescimento e desenvolvimento neuromuscular. Expor jovens a cargas excessivas não calculadas e periodizadas pode resultar em: – Lesões por sobrecarga, como tendinites e fraturas por estresse; – Distúrbios hormonais, afetando inclusive o crescimento; – Queda de rendimento escolar e alterações no comportamento; – Perda do prazer pelo esporte, levando ao abandono precoce;
Os danos não ficam em apenas aspectos físicos, o overtraining afetar a autoestima, a motivação e a relação da criança com os demais e com o próprio corpo. Não é apenas fazer treinos duros, é fundamental treinar com inteligência, respeitando os limites biológicos e emocionais de cada um em sua fase da vida. Quem deseja viver bem deve aprender a parar antes que o corpo o obrigue.
VDN: Como identificar os primeiros sinais de overtraining em jovens atletas?
Dr. Amaral: Os sinais normalmente no início são sutis, mas pais e treinadores atentos são toda a diferença. É preciso observar: – Cansaço persistente, mesmo após dias de descanso. Irritabilidade e oscilações de humor, fora do padrão da criança; – Queda na motivação, com frases como “não quero mais treinar”. -Dificuldades para dormir ou sono não reparador; – Lesões recorrentes ou dores musculares constantes; – Desempenho escolar prejudicado ou falta de concentração; – Perda de prazer pela atividade que antes era motivo de estímulo e alegria. O corpo da criança “fala” através desses sinais; Overtraining não aparece de uma hora para outra, ele se dá pelo acúmulo. Observar esses primeiros alertas é a melhor forma de se proteger, garantir a saúde física, mental e permanência no esporte. Quando menino escutava ditado popular ensinado por meu avô: “Quem escuta cedo, corrige e cura barato. Quem insiste, tem problemas, talvez nunca corrija e paga caro.”
VDN: Existe um limite de treinos por semana considerado seguro para essa faixa etária?
Dr. Amaral: Sim. Diversas entidades internacionais recomendam limites claros para a carga de treino em crianças e adolescentes. Uma diretriz simples e prática reconhecida por sociedades como a American Academy of Pediatrics e a Sociedade Brasileira de Pediatria é:
A quantidade de horas semanais de treino organizado não deve ultrapassar a idade da criança. Exemplo: uma criança de 10 anos deve treinar 10 horas por semana segundo as entidades.
Essa orientação diz se basear na prevenção de lesões por sobrecarga, esgotamento físico, psicológico e abandono precoce do esporte. A American Academy of Pediatrics também reforça a necessidade de: Um ou dois dias livres de atividade organizada por semana. Intervalos de 2 a 3 meses por ano sem competição formal. Priorização de práticas esportivas variadas antes da adolescência, evitando assim especialização precoce. Gosto de pensar que, o equilíbrio entre estímulo, descanso e variedade de experiências motoras é essencial para garantir um desenvolvimento físico saudável, menor risco de lesão, permanência no esporte e prazer pela prática esportiva a longo prazo. “Nada em excesso, até a virtude exige medida.” – Oráculo de Delfos.
VDN: E o que é Overreaching?
Dr. Amaral: Overreaching é uma sobrecarga aguda de treino, ou seja, um aumento intencional na intensidade e volume dos exercícios com o objetivo de provocar uma adaptação positiva no corpo. Se bem planejado e acompanhado com recuperação adequada, chamamos de overreaching funcional. É o tipo de estresse controlado que, após o descanso, resulta em ganho de performance, o que chamamos de supercompensação.
O problema está justo quando essa sobrecarga é mal dosada, repetitiva ou não acompanhada de descanso adequado. Neste caso temos o chamado overreaching não funcional, que não gera adaptação positiva, mas sim queda de rendimento, fadiga acumulada, irritabilidade, dores musculares persistentes e risco real de evoluir para overtraining.
Em crianças e adolescentes, o cuidado deve ser redobrado. O sistema neuromuscular imaturo responde de forma diferente ao estresse do treino. O limiar entre evolução e exaustão é muito mais tênue nessa faixa etária. Por isso, a regra de ouro é: estimular sim, forçar jamais.
Treinar com intensidade só é válido quando existe planejamento, acompanhamento e escutando os sinais do corpo e da mente. “A força que não respeita os limites se transforma em fraqueza.” – Marco Aurélio.
VDN: Na prática, como diferenciar os dois tipos de overreaching?
Dr. Amaral: A principal diferença entre os dois tipos de overreaching está no efeito que provocam no corpo e no desempenho do atleta após o período de recuperação.
O overreaching funcional, a sobrecarga é controlada e programada. O atleta pode até apresentar leve queda de rendimento por alguns dias, mas após o descanso adequado, ele retorna mais forte, mais rápido, mais resistente, esse é o processo de supercompensação, que se busca com ciclos bem planejados de treino.
O overreaching não funcional ocorre quando o estímulo é excessivo ou mal distribuído, e não há tempo suficiente para o corpo se recuperar. Nesse caso, a resposta não é ganho, mas perda progressiva de performance, maior irritabilidade, desmotivação e até riscos físicos e emocionais, principalmente em atletas jovens.
Na simplista, se o atleta não mostra sinais claros de recuperação e evolução após 7 a 14 dias de descanso relativo, o overreaching deixa de ser funcional. E em crianças e adolescentes, esse tempo pode ser maior, e os sinais mais sutis. Por isso, o ideal é prevenir.
Recomendamos sempre refletir se o zelo é melhor do que arriscar a saúde por pressa no desempenho e que diferença entre avanço e queda é o tempo da pausa.
VDN: O fair play é uma regra ou um valor?
Dr. Amaral: O fair play é muito mais do que uma regra, é um valor formativo. Ele representa o respeito às regras, ao adversário, aos árbitros e à própria essência do esporte. É agir com ética mesmo quando ninguém está olhando.
Na infância e adolescência, o esporte é uma ferramenta poderosa, e o que se aprende nele ultrapassa as quadras, o campo ou o tatame. Uma criança que cresce entendendo
que vencer não justifica passar por cima dos outros, desenvolve caráter, autocontrole, humildade e empatia.
Infelizmente, frases como “vale tudo pra ganhar” ou “todo mundo faz isso” são cada vez mais vistas como normal, em ambientes competitivos, e muitas vezes, ensinadas por adultos que deveriam proteger o espírito educativo do esporte.
Fair play é dar o melhor de si com integridade. É saber vencer sem arrogância e perder sem desrespeito. E, acima de tudo, é entender que o adversário não é o inimigo, ele é parte da construção de quem nos tornamos como atletas e como pessoas. “A vitória sobre si mesmo é a maior de todas as conquistas.” – Sêneca
VDN: Como pais e treinadores podem reforçar o fair play no dia a dia?
Dr. Amaral: A fórmula ideal de ensinar fair play seria praticar o exemplo todos os dias. Crianças aprendem pelo que veem e o que escutam. Um treinador que respeita o árbitro, mesmo diante de um erro, ou um pai que elogia o esforço da criança mesmo sem vitória, está ensinando mais do que qualquer palestra. Tenho que evoluir… temos que evoluir enquanto sociedade e praticar três atitudes simples:
– Valorizar comportamento ético, não só o desempenho;
– Corrigir com firmeza atitudes desonestas, mesmo em pequenas situaçõe;
– Celebrar vitórias com humildade e reconhecer adversários com respeito;
O esporte educa. Mas quem forma, de verdade, são os adultos ao redor da criança. O esporte é a ferramenta! Nós operamos a ferramenta! “Não se educa com palavras, mas com exemplos.” -Sêneca
VDN: Que tipo de atitude indica risco de conduta antiesportiva em jovens atletas?
Dr. Amaral: Atitudes como simular faltas, provocar o adversário, trapacear discretamente ou comemorar de forma humilhante são sinais de alerta.
Frases como:
“Se o juiz não viu, vale.”
“Todo mundo faz isso.”
“Importa é ganhar.”
São indicativos de que a formação ética está inadequada.
Comportamentos como estes não podem ser naturalizados, e a criança cresce acreditando que vencer justifica qualquer meio. A longo prazo, isso compromete o caráter esportivo e a saúde emocional do jovem atleta. “A recompensa da injustiça é a desconfiança eterna.” – Epicteto.
VDN: Como equilibrar saúde e performance no esporte de base?
Dr. Amaral: A chave está no planejamento consciente e individualizado, no respeito aos limites de cada idade e na presença de uma rede de apoio atenta, formada por pais, professores, treinadores e profissionais da saúde. Alguns pilares descritos na bibliografia para equilíbrio:
– Alternar períodos de treino com dias de descanso;
– Monitorar sinais físicos e emocionais de fadiga;
– Evitar a especialização precoce;
– Garantir variedade motora, alimentação adequada e sono de qualidade;
Digo aos meus atletas e seus pais que: A verdadeira performance se constrói com consistência e proteção, não com pressa ou pressão. O flow e felicidade de fazer a modalidade não pode faltar! Temos que ensinar a eles que a pressa é inimiga da excelência e o caminho ou processo até ela deve-se desfrutar.
VDN: Qual a sua mensagem final para quem forma atletas?
Dr. Amaral: Formar um atleta vai muito além do técnico e do físico. É sobre cuidar da saúde, orientar com valores e proteger a trajetória de quem ainda está crescendo.
Treinar é necessário. Competir também. Mas a base de tudo é respeitar os limites do corpo, ouvir a mente de cada uma e cultivar o caráter. O verdadeiro pódio é onde o atleta chega, consciente e dentro e fora do esporte.
Treinar, competir, vencer, são importantes na trajetória de qualquer atleta. Mas nada deve vir antes do que sustenta a jornada a longo prazo: a saúde e os valores.
No esporte, e na vida, o verdadeiro progresso não está na pressa, mas na consistência, no equilíbrio e na consciência de cada escolha. Formar atletas exige técnica, sim, mas também cuidado, escuta e exemplo.
Não deixem de enviar mensagens solicitando temas para trazermos a coluna! Ótimo fim de semana a todos!
Dr. Ricardo Amaral Filho (@amaralfilho)
Mestre em Educação e Saúde | Médico de Família e Comunidade | Medicina do Exercício
e do Esporte