O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, disse que mensagens que teriam sido enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a ele “não conferem com os contatos do ministro”.
Vorcaro voltou a ser preso esta semana pela Polícia Federal (PF) em São Paulo.
Segundo o jornal O Globo, Vorcaro trocou mensagens com Moraes no dia de sua primeira prisão, em 17 de novembro.
Na conversa, ele parece fazer referência à tentativa que estava em curso de vender o Banco Master para o grupo Fictor. A operação não se concretizou, já que o Banco Central decidiu liquidar o banco no mesmo dia em que Vorcaro foi preso.
Em uma das mensagens, ele teria dito, segundo O Globo: “Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação”.
Após outra troca de mensagens supostamente com Moraes, Vorcaro teria dito também: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
De acordo com o jornal, as mensagens eram trocadas de forma a evitar que ficassem registradas: Vorcaro escrevia os textos no bloco de notas do celular, tirava um print, e mandava como imagem de visualização única para Moraes.
A PF, porém, conseguiu recuperar esses prints de Vorcaro e associou os horários em que os prints foram feitos com a hora das mensagens de visualização única enviadas ao ministro.
Não é possível saber as respostas supostamente de Moraes porque elas também foram enviadas com visualização única, e aparecem apagadas no celular aprendido de Vorcaro.
Em nota na noite de sexta-feira (6/3), o gabinete de Moraes disse que “análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”.
Segundo o gabinete do ministro, “os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes”.
Morte de ‘Sicário’
Na quinta-feira (5/3), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a transferência do banqueiro para a Penitenciária Federal em Brasília.
A nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira, também levou à prisão Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, Luiz Phillipi Mourão, chamado de ‘Sicário’, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
Nesta sexta-feira, foi confirmado que Mourão, o “Sicário”, morreu na prisão por suicídio.
A decisão que autorizou a operação, de Mendonça, cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Dois servidores de carreira do Banco Central — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — também foram alvos da operação. Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento de seus cargos.
A defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está à disposição das autoridades e não conhece o imputado contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos servidores do BC e de Marilson Roseno da Silva.
Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Na época, foi determinado que o empresário fizesse o uso de tornozeleira eletrônica.
A decisão de Mendonça menciona mensagens trocadas entre o banqueiro e os demais alvos da operação, apontando que elas “indicam que os investigados atuavam de forma estruturada e com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas”.
A nova prisão de Vorcaro é mais um capítulo do caso Master. Entenda, em cinco pontos, o que está acontecendo.
1. Por que Daniel Vorcaro foi preso de novo?
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado por determinação da Justiça Federal. Ele estava no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, tentando embarcar em um avião particular. Na época, seu celular foi apreendido também.
A prisão, realizada pela PF, ocorreu no âmbito da Operação Compliance. Ele era suspeito de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
No mesmo dia da operação, o Banco Central emitiu um comunicado decretando a liquidação extrajudicial do Master e a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.
A prisão preventiva foi revogada dez dias depois pelo Tribunal Regional Federal (TRF), que determinou que ele usasse tornozeleira eletrônica.
Em dezembro, o ministro Antonio Dias Toffoli, do STF, passou a ser responsável pelo inquérito após aceitar um pedido da defesa de Vorcaro para que o caso fosse julgado no Supremo.
Mas Toffoli deixou a relatoria do caso em janeiro, um dia depois que a PF enviou um relatório com menções a Toffoli no caso ao presidente do STF, Edson Fachin.
A atuação de Toffoli no caso vinha sendo questionada devido a supostas relações dele com pessoas ligadas ao Master, incluindo Daniel Vorcaro.
Agora, sob relatoria do ministro André Mendonça, uma nova fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada na quarta-feira, culminando com a prisão, novamente de Vorcaro e mais três pessoas.
2. Quem é ‘Sicário’ e o que aconteceu com ele?

Suspeito de integrar uma “milícia pessoal” de Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão aparecia nos documentos da PF com o codinome de “Sicário” — que quer dizer pistoleiro ou matador de aluguel.
Ele era descrito como integrante de um suposto grupo liderado por Vorcaro para monitorar e ameaçar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas.
Segundo a PF, horas após ser preso na quarta-feira, Mourão tentou se matar na Superintendência Regional da Polícia Federal, onde estava sob custódia. Ele foi socorrido por policiais e levado para um hospital em Belo Horizonte.
A morte de Mourão foi confirmada por sua defesa em nota à imprensa na sexta-feira.
Uma nota anterior da defesa afirmava que um dos advogados de Mourão esteve pessoalmente com ele na quarta-feira, até por volta das 14h, “quando ele se encontrava em plena integridade física e mental” e que só souberam da suposta tentativa de suicídio pela polícia.
A Polícia Federal informou que uma investigação foi aberta para apurar o caso e que vídeos que mostram a dinâmica do que aconteceu serão entregues ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF).
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou ao portal G1 que “toda a ação dele e o atendimento pelos policiais estão filmados sem pontos cegos”, ou seja, sem momentos de interrupção.

3. O que foi descoberto no celular de Vorcaro e qual a ligação com a CPMI do INSS?
Na quarta-feira, o pedido de prisão de Vorcaro, assinado pelo ministro André Mendonça, já mencionava a troca de mensagens do banqueiro com servidores do Banco Central, Fabio Zettel e Mourão.
Por meio das mensagens, os investigadores suspeitam que Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, prestavam uma espécie de consultoria para Vorcaro.
Segundo Mendonça, os servidores forneciam informações estratégicas de dentro do BC e orientavam sobre decisões do Master. Na decisão, o ministro aponta Belline como um “empregado” de Vorcaro.
Também na quarta-feira o ministro autorizou que parte dos documentos da investigação fossem enviados à CPMI do INSS. A CPMI também apura a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas, objeto da investigação da comissão.
A decisão de Mendonça autorizava apenas o envio de conteúdo relacionado ao INSS, mas o pacote que chegou à CPMI continha conversas mais amplas, que acabaram vazadas à imprensa. A BBC News Brasil também obteve acesso ao material.
4. Quem aparece nas mensagens do celular de Vorcaro?
As mensagens de Vorcaro obtidas pela CPMI do INSS e vistas pela BBC News Brasil mostram as relações que o dono do banco Master com altas autoridades da República (leia aqui).
Ciro Nogueira – Uma delas é com o ex-ministro da Casa Civil do Governo Bolsonaro, senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ele aparece nas conversas do banqueiro com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff.
O banqueiro diz, em 2024, que o senador é “um dos meus grandes amigos de vida”. Três meses mais tarde, Vorcaro fala sobre um “projeto de lei” apresentado por Nogueira, “que é uma bomba atômica no mercado financeiro!”.
Naquele mês de agosto, na discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre a autonomia do Banco Central, Nogueira apresentou uma emenda para aumentar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Bancado pelas institiuições financeiras, o FGC é acionado em caso de falências de bancos. A proposta de Nogueira, no entanto, não foi para frente. Procurado pela reportagem da BBC News Brasil, o senador não respondeu aos questionamentos.
Alexandre de Moraes e Viviane Barci – As mensagens com Graeff também mostram que o banqueiro se encontrou com o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em 19 de abril de 2025, provavelmente em Campos de Jordão (SP).
A esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, também aparece nas mensagens quando a namorada de Vorcaro diz que “tava lendo o negócio” dela.
Em dezembro, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, que previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório por três anos a partir de 2024.
Procurado pela reportagem da BBC News Brasil por meio da assessoria de imprensa do STF, Moraes não respondeu aos questionamentos.
Lula e Bolsonaro – Também há menção a uma reunião de Vorcaro com o presidente Lula, em dezembro de 2024. Martha Graeff pergunta como foi o encontro, e Vorcaro responde: “Foi ótimo” e “Muito forte”.
A imprensa já havia revelado em janeiro que Lula encontrou Vorcaro em dezembro de 2024 num encontro fora da agenda oficial, junto a Gabriel Galípolo, então indicado à Presidência do Banco Central.
Vorcaro foi levado ao Planalto, segundo veículos como Folha de S.Paulo e CNN Brasil, por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff (PT).
De acordo com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Vorcaro teria feito queixas sobre a suposta concentração de mercado no setor bancário e o presidente Lula teria dito que o assunto precisava ser tratado de forma técnica.
Nas mensagens, Vorcaro também critica o ex-presidente Jair Bolsonaro, que teria feito uma postagem repercutindo uma notícia negativa para o Master – a demissão de diretores da Caixa que teriam se recusado a autorizar transação com o banco.
5. O que aconteceu com o Banco Master?
O Banco Master surgiu em 2018 e ficou famoso no mercado financeiro por oferecer papéis com juros altos e investir em empresas em situação financeira precária.
A estratégia fez com que a instituição tivesse forte crescimento, mas também despertou críticas e desconfiança no mercado.
No ano passado, o Master ganhou as manchetes ao ser alvo de tentativa de aquisição por outros grupos financeiros, em meio a notícias de que o banco apresentava problemas para honrar seus CDBs.
CDBs é um investimento de renda fixa: um cliente empresta dinheiro aos bancos e, em troca, recebe juros pelo tempo que “emprestou”.
O BRB, banco público do Distrito Federal, anunciou, no início de 2025, a intenção de comprar o Master, em um acordo estimado em R$ 2 bilhões. A compra foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Também foi aprovada uma lei na Câmara Legislativa do DF que autorizava a compra, que era defendida pelo governador Ibaneis Rocha (MDB).
No entanto, ela foi barrada pelo Banco Central, que analisou o negócio e concluiu haver dúvidas sobre a “viabilidade econômico-financeira do empreendimento”.
As investigações da PF sobre o banco, por sua vez, tiveram início em 2024, a pedido do Ministério Público Federal. O inquérito estava concentrado na possível emissão de carteiras de crédito falsas.
Essas carteiras teriam sido vendidas a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídas por outros ativos sem avaliação técnica adequada, segundo a Polícia Federal.
Apesar da investigação e dos rumores, o BC tomou só tomou a decisão de liquidar o Banco Master no dia da primeira prisão de Vorcaro, com base em uma lei de 1974 que prevê essa medida quando uma instituição financeira apresenta riscos relevantes — como inadimplência, violação grave de normas e prejuízos que exponham credores a risco considerado anormal.
Com a liquidação, foi acionado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma associação mantida pelos bancos que protege correntistas, poupadores e investidores de instituições financeiras em situação de risco.
O FGC permite ressarcir todos os investimentos no Master até um limite de R$ 250 por CPF ou CNPJ (pessoa jurídica). Qualquer valor acima desse limite não é coberto pelo FGC — e só poderá ser recuperado a partir do processo de liquidação e venda dos bens do banco.
Outra parte do conglomerado, o Master Múltiplo, foi colocado em regime de administração especial temporária, em que as autoridades ainda tentam recuperar a viabilidade da instituição.

