A Copa do Mundo de 2026 será marcada não apenas pelo aumento para 48 seleções e pela realização em três países, mas também por uma presença inédita da inteligência artificial em diferentes áreas do torneio. De análises táticas avançadas a recursos para arbitragem e transmissão, novas ferramentas prometem transformar a forma como equipes, árbitros e torcedores interagem com o jogo.
Grande parte dessas soluções está sendo desenvolvida pela Lenovo, parceira oficial de tecnologia da FIFA para o Mundial, que será disputado nos Estados Unidos, Canadá e México.
Entre as novidades está uma plataforma de análise desenvolvida especificamente para o futebol, que será disponibilizada para todas as seleções participantes. Segundo Valério Mateus, gerente-geral de Serviços e Soluções para a América Latina, a principal diferença em relação às inteligências artificiais generativas mais conhecidas está na base de treinamento utilizada.
“Enquanto as ferramentas comuns do mercado trabalham com dados genéricos de internet, o FIFA AI Pro foi treinado especificamente na Linguagem de Futebol da FIFA ao longo de 16 meses dedicados à calibração de algoritmos”, afirmou.
De acordo com o executivo, o sistema processa mais de 2 mil métricas por partida e utiliza milhares de conexões de dados para reconstruir o posicionamento das equipes em campo. A proposta é oferecer aos treinadores e analistas um ambiente capaz de simular cenários táticos e identificar padrões de jogo com maior precisão.
O FIFA AI Pro utiliza informações históricas acumuladas pela FIFA ao longo de décadas de competições e busca transformar estatísticas e registros de partidas em recomendações práticas para preparação das equipes.
Conforme divulgado pela Lenovo, a plataforma foi desenvolvida especificamente para o ambiente do futebol e será disponibilizada para todas as 48 seleções participantes do torneio, com o objetivo de ampliar o acesso a análises avançadas de desempenho.
Avatares digitais e visão do árbitro
Outra tecnologia prevista para o torneio envolve a criação de avatares tridimensionais dos jogadores. Os modelos serão utilizados principalmente para auxiliar a visualização de lances complexos, como impedimentos, por meio de representações digitais geradas a partir de escaneamentos detalhados dos atletas.
A iniciativa busca tornar mais compreensíveis para o público decisões que muitas vezes dependem de diferenças de centímetros. Para isso, cada jogador passará por uma digitalização de alta precisão, permitindo que os modelos reproduzam características físicas individuais utilizadas nas análises.
Já o chamado “Referee View” permitirá que o torcedor acompanhe determinados momentos sob a perspectiva do árbitro em campo. A tecnologia utiliza imagens captadas por uma câmera corporal e processadas em tempo real.
Segundo Mateus, o desafio foi garantir qualidade suficiente para transmissão sem comprometer a velocidade do processamento.
“Para entregar esse nível de precisão milimétrica em tempo real, a arquitetura da tecnologia não pode depender do tempo de envio das imagens para nuvens distantes: a latência inviabilizaria o processo”, explicou.
Por isso, o processamento acontece diretamente dentro dos estádios, por meio de estruturas de edge computing — modelo em que os dados são analisados próximos de sua origem, reduzindo atrasos.
“No caso do Referee View, a IA processa o fluxo de vídeo da câmera do corpo do árbitro ali mesmo no estádio, estabilizando e limpando as imperfeições e vibrações das corridas antes de passar para as emissoras de TV”, disse.
De acordo com a Lenovo, servidores instalados localmente nos estádios realizam esse processamento em milissegundos para evitar atrasos que poderiam comprometer a transmissão das imagens. A expectativa é que o recurso ofereça um novo ângulo para análise dos lances e aproxime o público da tomada de decisão da arbitragem.
Operação inédita em três países
Além das aplicações visíveis para torcedores e equipes, a infraestrutura tecnológica também terá papel central nos bastidores do torneio.
A Lenovo também será responsável por parte da infraestrutura computacional que dará suporte às transmissões, ao monitoramento operacional e a sistemas ligados à arbitragem durante a competição.
A Copa de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com jogos espalhados por 16 cidades. Para sustentar a operação, serão utilizados centros de monitoramento, servidores instalados em estádios e sistemas de análise em tempo real para acompanhar desde transmissões até o funcionamento de equipamentos críticos.
“O maior desafio reside justamente na escala e na dispersão geográfica inédita deste torneio, que cruza três países diferentes”, afirmou Mateus.
“Para reduzir os riscos de indisponibilidade, nossa estratégia combinou o fornecimento de uma infraestrutura robusta de hardware sempre ativo (Always-On) com a alocação de equipes de engenharia especializadas em cada local crítico”, complementou.
O executivo destaca que uma das principais lições do projeto foi a necessidade de aproximar o processamento dos locais onde os dados são produzidos.
“O grande aprendizado aqui foi gerenciar e otimizar o consumo da inteligência em borda, provando que o sucesso de sistemas de missão crítica baseados em dados massivos depende inteiramente da capacidade de processar a informação o mais próximo possível de onde ela é gerada”, concluiu.
Com previsão de audiência global na casa dos bilhões de espectadores e mais de uma centena de partidas programadas, a Copa do Mundo de 2026 servirá também como um grande laboratório para o uso de inteligência artificial em eventos esportivos de escala global.

