No mundo das lutas, a dor aguda é quase um mantra… Ela acompanha o treino intenso, a raspagem insistente, a queda repetida, o drill exaustivo, mas há uma diferença fundamental entre a dor do esforço e a dor persistente. A dor crônica é silenciosa, progressiva e, muitas vezes, negligenciada, não te impede de treinar imediatamente, mas vai reduzindo rendimento, alterando padrões de movimento, performance e comprometendo longevidade esportiva.
Nos últimos anos, o CBD (canabidiol) passou a ser discutido como alternativa ou complemento terapêutico para dor crônica musculoesquelética, mas qual é o seu real papel? Estamos diante de uma ferramenta válida dentro da medicina esportiva ou de uma mito criado pelo mercado?
Vamos analisar com profundidade:
Vanguarda do Norte: O que caracteriza dor crônica no atleta de luta?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Dor crônica é definida como aquela que persiste por mais de três meses, ultrapassando o período esperado de cicatrização tecidual.
No atleta de Jiu-Jítsu, judô, wrestling ou MMA, ela frequentemente se manifesta como:
- Lombalgia persistente
- Cervicalgia associada a pegadas e quedas
- Tendinopatia de ombro
- Dor anterior no joelho
- Dor crônica nos dedos e punhos
VDN: Por que atletas de luta são mais suscetíveis à dor persistente?
Dr. Amaral: As modalidades de combate impõem demandas específicas:
- Contrações isométricas prolongadas
- Força rotacional repetitiva
- Compressão axial da coluna
- Impactos repetidos
- Alavancas articulares
Além disso, muitos atletas treinam em volume elevado, com recuperação insuficiente.
A soma de microtraumas, sobrecarga e recuperação inadequada pode gerar inflamação de baixo grau persistente, alterando a bioquímica local e favorecendo dor contínua.
Outro ponto é a cultura da resistência à dor no esporte de combate. Muitas vezes, o atleta treina “por cima da dor”, o que perpetua o ciclo inflamatório.
VDN: Como o CBD atua nos mecanismos da dor?
Dr. Amaral: O CBD interage com o Sistema Endocanabinoide, modulando receptores CB1 e CB2, além de influenciar:
- Receptores TRPV1 (associados à dor e temperatura)
- Receptores serotoninérgicos (5-HT1A)
- Vias inflamatórias
O receptor CB2, presente principalmente em células do sistema imune, está diretamente ligado à modulação inflamatória.
Estudos apontam que o CBD pode reduzir mediadores inflamatórios e modular a transmissão nociceptiva.
Isso não significa bloqueio absoluto da dor, mas possível redução da amplificação inflamatória.
VDN: O que dizem as evidências científicas sobre dor crônica?
Dr. Amaral: Revisões sistemáticas apontam que canabinoides (CBD ) podem apresentar benefício em:
- Dor neuropática
- Dor inflamatória crônica
- Fibromialgia
- Dor oncológica
Existem resultados promissores, mas ainda faltam ensaios clínicos robustos voltados para dor musculoesquelética esportiva em populações específicas como lutadores.
VDN: O CBD pode substituir anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)?
Dr. Amaral: Essa é uma dúvida frequente. Os AINEs atuam bloqueando a enzima COX, reduzindo prostaglandinas inflamatórias. O uso prolongado, porém, pode causar efeitos adversos gastrointestinais, renais e cardiovasculares.
O CBD atua por mecanismos diferentes, com potencial perfil de segurança mais favorável em alguns contextos.
Ele pode ser considerado como alternativa ou complemento em casos selecionados, mas não deve substituir avaliação médica nem protocolo terapêutico estruturado.
VDN: Existe relação entre dor crônica, sono e estresse?
Dr. Amaral: Sim , e esse ponto é central. Dor crônica prejudica o sono. Sono inadequado aumenta percepção de dor.
Forma-se um ciclo! Atletas com dor persistente frequentemente apresentam:
- Ansiedade
- Medo de piorar a lesão
- Insegurança competitiva
Estudos sugerem que o CBD pode atuar também na modulação da ansiedade e do sono, influenciando níveis de cortisol e atividade autonômica, o benefício pode não ser apenas periférico, mas também central.
VDN: O CBD resolve a causa estrutural da dor?
Dr. Amaral: Não.
Ele pode modular sintomas, mas não corrige, “erros técnicos, desequilíbrios musculares, falhas de periodização, sobrecarga inadequada etc. Se o atleta não ajustar biomecânica, volume e recuperação, a dor tende a retornar.
O CBD pode ser ferramenta complementar, nunca substitutiva da reabilitação.
VDN: Quais são os riscos e cuidados necessários?
Dr. Amaral: É considerado relativamente seguro, o CBD pode causar:
- Sonolência
- Alterações gastrointestinais
- Alterações no apetite
- Elevação de enzimas hepáticas
- Interações medicamentosas
Atletas devem ter atenção especial à procedência do produto, pois contaminação com THC pode gerar problemas em exames antidoping segundo a World Anti-Doping Agency.
O uso deve ser supervisionado por profissional de saúde!
VDN: Quando considerar o CBD na dor crônica do lutador?
Dr. Amaral: Pode ser considerado quando:
– A dor persiste apesar de reabilitação adequada;
– Existe componente inflamatório relevante;
– Há intolerância ou limitação ao uso de AINEs;
– O atleta apresenta distúrbio de sono associado;
É necessário acompanhamento médico estruturado e individualizar.
- Quando considerar
– Dor musculoesquelética persistente
– Tendinopatias recorrentes
– Sono prejudicado pela dor
– Avaliação médica completa
– Produto com certifi
- Quando evitar
– Uso sem diagnóstico claro
– Substituir fisioterapia
– Esperar “cura rápida”
– Produto sem controle de qualidade
– Uso para mascarar sobrecarga excessiva
Dor crônica no atleta de luta não se pode romantizar, é sinal de que algo precisa ser ajustado. O CBD apresenta plausibilidade científica como modulador da dor inflamatória e possivelmente da dor neuropática, além de potencial benefício indireto via melhora do sono e redução do estresse.
Mas ele não substitui:
– Reabilitação adequada
– Correção técnica
– Ajuste de carga
– Planejamento inteligente
Performance sustentável não se constrói ignorando a dor e sim compreendendo a mesma, tratando com critério e prevenindo sua recorrência.
No esporte de combate, a verdadeira força não está em suportar tudo. Está em saber quando ajustar, recuperar e evoluir. Sem pausa e sem pressa!
Dr. Ricardo Amaral Filho Médico de Família e Comunidade | Médico do Esporte | Mestre em Educação em Saúde

