Reduzir o impacto ambiental da agropecuária é assunto incontornável no campo e nas discussões sobre o futuro do setor. Nesse contexto, a chamada agricultura de baixo carbono vem sendo se popularizando como uma estratégia para conciliar produtividade e sustentabilidade.
Entre 2010 e 2020 o Plano ABC, programa que contempla um conjunto de ações que promovem a adoção de tecnologias agropecuárias sustentáveis, atingiu 54 milhões de hectares, superando em 52% as metas do governo de 35,5 milhões de hectares para o período. Na segunda fase do programa, as metas são alcançar 72,68 milhões de hectares entre 2020 e 2030 por meio da adoção de tecnologias como recuperação de pastagens degradadas, sistema de plantio direto, sistemas de integração, florestas plantadas, uso de bioinsumos e sistemas irrigados.
Um dos instrumentos operacionais de grande visibilidade do Plano ABC foi a linha de crédito criada especificamente para apoiar o produtor na adoção das tecnologias de agricultura de baixo carbono. Durante o primeiro decênio, o Programa ABC liberou R$ 32,27 bilhões para o financiamento de tecnologias executadas por meio de 38,3 mil contratos.
O plano ABC funciona como uma estratégia nacional que reúne metas de redução de emissões e de adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono, como recuperação de pastagens, sistemas integrados e plantio direto. Além de orientar a política agrícola, o programa também prevê incentivos financeiros. Segundo Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja, a agricultura de baixo carbono reflete uma mudança na forma de produzir. “A agricultura brasileira não é parte do problema, mas parte da solução no enfrentamento das mudanças climáticas”, afirma.
Como funciona
A ideia da agricultura de baixo carbono é reunir práticas que permitam reduzir a emissão de gases de efeito estufa sem comprometer o desempenho das lavouras. Na prática, a técnica envolve um conjunto de ações e tecnologias voltadas a diminuir o impacto ambiental da produção agropecuária. São ações que ajudam a manter o carbono no solo e, em alguns casos, até sequestrar carbono da atmosfera. No Brasil, o plantio direto, por exemplo, já é adotado em cerca de 70% das áreas agrícolas, segundo a Embrapa.
O avanço dessas práticas está diretamente ligado ao ganho de eficiência no campo. Nepomuceno explica que o uso de tecnologias tem permitido ampliar a produtividade ao mesmo tempo em que reduz emissões. “Os sistemas produtivos conseguem reduzir emissões e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade.”
Dados da Embrapa Soja mostram que esse ganho evitou a abertura de novas áreas agrícolas nas últimas décadas. Entre 1990 e 2025, cerca de 50 milhões de hectares deixaram de ser incorporados à produção graças ao aumento da produtividade.
Destaque para a soja
Neste contexto, a soja aparece como um dos principais exemplos de aplicação do conceito. A cultura, que tem grande peso na produção agrícola brasileira, tem avançado na adoção de sistemas mais sustentáveis.
A soja de baixo carbono envolve desde práticas conservacionistas até o uso de tecnologias como a fixação biológica de nitrogênio, que reduz a necessidade de fertilizantes químicos. “A soja de baixo carbono é produzida em sistemas que reduzem o impacto climático por unidade produzida, tornando a atividade mais eficiente e sustentável”, diz Nepomuceno.
Segundo a Embrapa Soja, sistemas baseados em plantio direto também contribuem para o sequestro de carbono. Em algumas áreas, a captura pode chegar a quase 3 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano, a depender do manejo.
Outro ponto destacado por pesquisadores é o potencial de crescimento da produção sem necessidade de abertura de novas áreas. “O Brasil pode ampliar a produção sem necessidade de desmatamento, aproveitando áreas já abertas, como pastagens degradadas”, afirma Nepomuceno.

