A história de Luzia Piassa Neves com a maternidade começa cedo, aos 21 anos, em um
momento em que a vida ainda estava em construção. Ao contrário do que muitas trajetórias
sugerem, não houve pausa, nem interrupção definitiva de planos. Houve adaptação, esforço e,
sobretudo, persistência.
Com uma filha pequena nos braços, ela seguiu frequentando a faculdade, conciliando
responsabilidades que, naquele momento, pareciam maiores do que qualquer planejamento
prévio poderia prever. A filha acompanhava a rotina, presente em um cotidiano que misturava
estudo, vida conjugal e os primeiros desafios de ser mãe.
Esse início não foi idealizado. Foi difícil. Exigiu reorganização, exigiu renúncias pontuais, exigiu
maturidade precoce. Mas também trouxe um elemento que, segundo ela, redefine
completamente a percepção de mundo: a consciência de que, a partir daquele momento, sua
vida já não dizia respeito apenas a si mesma.
A maternidade, nesse estágio inicial, aparece como um deslocamento de eixo. A
responsabilidade deixa de ser individual e passa a ser compartilhada; ou, mais do que isso,
direcionada ao outro.
“Você começa a pensar que não pode morrer, porque tem alguém que depende de você”,
sintetiza, em uma frase que traduz o impacto dessa transformação.

O peso e a força de ser necessária
A experiência de ser mãe, especialmente na juventude, carrega um componente que
ultrapassa o afeto: a urgência. Existe o amor, mas existe também o medo. O medo de não dar
conta, de não corresponder, de não conseguir sustentar todas as demandas que surgem junto
com a chegada de um filho.
Nos primeiros meses, essa sensação se intensifica. O cuidado constante, a necessidade de
estar presente, a responsabilidade absoluta sobre uma vida ainda em formação criam um
estado de alerta permanente. É um aprendizado que não se dá de forma teórica, mas prática,
cotidiana e, muitas vezes, exaustiva.
“Quando a gente vira mãe, percebe que não vive mais só por si. Parece que você não pode
mais falhar, porque tem alguém que depende totalmente de você. Os primeiros meses são
incríveis, mas também dão muito medo. Você sente que precisa ser forte por aquela criança
que está ali no seu colo.”
Luzia descreve esse período como um misto de descoberta e insegurança. Ao mesmo tempo
em que há encantamento, há também uma pressão interna silenciosa. A necessidade de ser
forte, mesmo sem saber exatamente como, passa a fazer parte da rotina.
E é nesse ponto que a maternidade começa a moldar não apenas comportamentos, mas a
própria estrutura emocional da mulher. A capacidade de suportar, de insistir, de seguir mesmo
diante das incertezas passa a ser construída dia após dia.
Dois momentos, duas maternidades

A chegada do segundo filho acontece em um cenário completamente diferente. Mais madura,
com maior estabilidade financeira e emocional, Luzia vivencia uma maternidade menos tensa e
mais consciente.
Se no primeiro momento havia urgência, no segundo havia presença. Se antes havia
insegurança, agora existe experiência. Essa diferença não altera o amor, que, segundo ela,
permanece igual, mas transforma profundamente a forma de viver a maternidade.
“Não é amor diferente entre os filhos, mas com o mais novo veio mais companheirismo. A
gente compartilha mais coisas, gostos, momentos”, revela.
Com mais tempo, mais estrutura e mais clareza, ela consegue acompanhar de perto o
crescimento do filho, participar de atividades, estar presente em momentos que antes eram
atravessados pela necessidade de conciliar múltiplas demandas.
Esse contraste evidencia um ponto importante: a maternidade não é uma experiência única e
fixa. Ela se transforma de acordo com o contexto, com a fase da vida, com as condições
materiais e emocionais disponíveis.
E essa transformação não diminui o valor de nenhuma das experiências. Pelo contrário, amplia
a compreensão sobre o que significa, de fato, ser mãe em diferentes momentos da vida.
O que muda dentro de quem se torna mãe
Independentemente do contexto, há algo que se mantém constante: a mudança interna. Para
Luzia, poucas experiências são tão transformadoras quanto a maternidade. É um processo que
altera prioridades, reorganiza pensamentos e redefine o modo de enxergar o mundo.
“A maternidade muda completamente a mulher. Acho que é a coisa que mais transforma. É um
amor que a gente nem consegue explicar, e ao mesmo tempo vem um medo enorme de não
dar conta, de não ser uma boa mãe.”
A partir do momento em que se torna mãe, tudo passa a ser filtrado por uma nova perspectiva.
O futuro deixa de ser apenas um projeto pessoal e passa a incluir o destino do filho. Questões
como saúde, segurança, educação e até o cenário político ganham novos significados.
Existe, também, uma dimensão emocional que se intensifica. O amor se torna mais profundo,
mais visceral, mas o medo acompanha esse movimento. O receio de não ser suficiente, de não
conseguir proteger ou orientar da melhor forma possível, passa a coexistir com o afeto.
Essa dualidade, amor e medo, é um dos elementos mais marcantes da maternidade real,
distante das idealizações. E é justamente essa leitura que Luzia faz questão de destacar.
“Ser mãe é maravilhoso, mas não é esse paraíso que romantizam. Tem desespero, tem
cansaço, tem noites sem dormir, tem preocupação quando o filho adoece ou não chega na
hora. É bonito, mas também é difícil.”

A maternidade sem romantização
Ao longo da conversa, um ponto se repete com clareza: a maternidade não é um paraíso. Ela
é, ao mesmo tempo, maravilhosa e desafiadora. É fonte de alegria, mas também de exaustão,
preocupação e, em muitos momentos, desespero.
A imagem idealizada da maternidade, frequentemente reforçada por discursos sociais e
culturais, não corresponde à totalidade da experiência. Há noites mal dormidas, há angústias,
há momentos de dúvida e cansaço extremo.
“Ser mãe é maravilhoso, mas não é esse paraíso que romantizam. Tem desespero, tem
cansaço, tem noites sem dormir, tem preocupação quando o filho adoece ou não chega na
hora. É bonito, mas também é difícil.”, resume.
É uma fala que desmonta o imaginário romantizado e aproxima a maternidade da realidade
vivida por milhões de mulheres. E, ao fazer isso, ela não diminui a importância da experiência. Apenas a torna mais honesta. Mais humana. Mais possível de ser compreendida em sua complexidade.
Família, respeito e persistência

Entre os valores que procura transmitir aos filhos, Luzia destaca três pilares: a importância da
família, o respeito às pessoas e a persistência.
A família aparece como base, como referência, como espaço de apoio e construção. O respeito
surge como princípio fundamental de convivência, independente de diferenças sociais, culturais
ou econômicas. E a persistência como motor para a realização pessoal.
São valores que refletem não apenas o que foi ensinado, mas o que foi vivido. A trajetória dela,
marcada por desafios e superações, reforça a ideia de que nada é impossível para quem
insiste e não desiste.
Esse conjunto de princípios forma o que ela entende como legado. Não um legado material,
mas que deveria ser ético. Um conjunto de referências que orientam escolhas e
comportamentos ao longo da vida.
O vínculo que permanece
Com o passar dos anos, os filhos crescem, constroem suas próprias trajetórias e, naturalmente,
se afastam fisicamente. Mas, no caso de Luzia, esse afastamento nunca foi completo.
A relação se mantém próxima, quase como um núcleo que se expande, mas não se rompe. A
filha vive perto, os encontros são frequentes, os netos fazem parte da rotina.
Essa dinâmica cria o que ela define como um “clã”, uma estrutura familiar que permanece
unida, mesmo com as mudanças naturais do tempo.
Há, também, um entendimento claro sobre os limites dessa relação. O respeito à autonomia
dos filhos é fundamental. A presença existe, mas sem imposições. O apoio é constante, mas
sem interferência excessiva.
“Ser mãe, para mim, é estar ao lado, ser amiga, conselheira. É um amor quase enlouquecido.
Eu faria qualquer coisa pelos meus filhos. Sou muito grata pela família que construí. Me
considero uma mulher feliz.”

Maternidade, trabalho e empatia
A experiência de ser mãe também impacta a forma como Luzia se relaciona com o mundo
profissional. Não necessariamente na tomada de decisões estratégicas, mas na maneira de
lidar com as pessoas.
Existe, segundo ela, uma espécie de instinto que se transfere. Uma forma de cuidar, de
orientar, de exigir sem pressionar excessivamente. Não como substituição da figura materna,
mas como extensão de uma vivência.
Essa conexão entre maternidade e empatia reforça um aspecto importante: a experiência
pessoal influencia, direta ou indiretamente, a forma como se constrói relações profissionais.
“A maternidade me ensinou a ter mais paciência com as pessoas. A entender melhor as
limitações dos outros. Isso eu levo para o trabalho também.”
Ser mãe, mas não apenas isso
Talvez o ponto mais marcante da fala de Luzia seja a recusa em colocar a maternidade como
centro absoluto da vida feminina. Para ela, ser mãe é importante, é significativo, mas não é
obrigatório nem suficiente para definir a felicidade de uma mulher.
A independência, a formação, a construção de uma identidade própria são, em sua visão,
etapas fundamentais. A maternidade pode vir depois; ou não vir.
“Acho que as mulheres hoje estão certas em se preparar mais antes de serem mães. Estudar,
ter independência, construir a própria vida. Talvez ser mãe mais tarde traga mais experiência. É
importante, mas não é obrigação. Uma mulher pode ser feliz sendo mãe ou não. Não é isso
que define a felicidade.”
Essa perspectiva rompe com uma lógica ainda presente em muitos contextos sociais, onde a
mulher é frequentemente associada, de forma quase exclusiva, ao papel da maternidade. Ao afirmar que é possível ser feliz sem filhos, ela amplia o debate e legitima outras formas de
existência. E, ao mesmo tempo, reafirma que a maternidade, quando acontece, deve ser vivida
com consciência, não como imposição.

Entre o cotidiano e o simbólico
O Dia das Mães, para Luzia, não carrega um significado especial. Não por desvalorização, mas
por uma compreensão diferente do que representa o afeto.
Para ela, o amor não deve ser concentrado em uma data. Deve ser demonstrado no cotidiano,
nas pequenas ações, nas relações constantes. A celebração pontual perde força diante da
convivência contínua.
Essa visão também carrega uma crítica ao caráter comercial dessas datas. A ideia de que o
reconhecimento precisa ser comprado ou marcado por um momento específico não faz sentido
dentro da lógica que ela construiu ao longo da vida.
O que importa, no fim, é o vínculo. E esse não se limita a um dia no calendário. “Todo dia é dia.
Eu não acho que precisa de uma data específica para demonstrar amor. O carinho pode ser
demonstrado em qualquer momento.”
O que realmente importa

Ao final, quando questionada sobre o que representa a maternidade hoje, Luzia responde com
simplicidade: estar presente. Ser amiga, conselheira, companheira. Fazer o possível para
ajudar, apoiar, orientar.
Não há grandes elaborações teóricas. Há prática. Há vivência. Há uma clareza construída ao
longo dos anos.
E, acima de tudo, há o reconhecimento de que, apesar de todas as dificuldades, a maternidade
ocupa um lugar central em sua vida; não como obrigação, mas como escolha vivida.
Se existe uma síntese possível, ela está na forma como define os filhos: as coisas mais
importantes do mundo. Uma frase direta, sem adornos, mas carregada de tudo o que foi
construído até aqui.
Entre amor, responsabilidade, liberdade e consciência, Luzia Piassa Neves constrói uma
narrativa que não busca ser exemplo, mas acaba sendo. Não pela perfeição, mas pela
honestidade. Não pela idealização, mas pela verdade.
“Meus filhos e meus netos são as coisas mais importantes da minha vida. Tenho muito orgulho
deles e quero que continuem sendo quem são.”

