Em um ambiente historicamente marcado por formalidade, rigor técnico e decisões que
impactam diretamente a vida de outras pessoas, a presença da maternidade não chega como
ruptura, mas como ampliação. Para Maria da Graça Cardoso Carvalho, esse processo não significou suavizar critérios, e sim aprofundar a forma de enxergar o outro.
“A maternidade ampliou minha escuta qualificada e minha sensibilidade, sem afastar o
necessário rigor técnico”, afirma.
Essa mudança não acontece de forma abrupta, mas se infiltra no cotidiano. Ao lidar com
equipes e situações complexas, ela percebeu que a experiência de ser mãe trouxe uma nova
camada de leitura humana.
“Na condução de equipes, senti que a maternidade contribuiu para uma liderança mais
empática, organizada e eficiente”, completa, indicando que o impacto vai além do campo
emocional e alcança diretamente a gestão.
Entre o desafio e a construção de autoridade

A trajetória feminina no direito ainda carrega marcas de um ambiente predominantemente
masculino, onde a necessidade de provar competência é constante. Nesse cenário, a
maternidade poderia ser vista como obstáculo. Para Maria da Graça, no entanto, o efeito foi
outro, mais estrutural do que circunstancial.
“Embora represente um desafio adicional em termos de gestão de tempo e múltiplas
responsabilidades, senti que a minha maternidade fortaleceu habilidades como organização,
disciplina, resiliência e escuta ativa”, explica.
São características que, no exercício da função, deixam de ser diferenciais e passam a ser
ferramentas indispensáveis.
Essa construção não elimina as dificuldades, mas reorganiza prioridades. Ao invés de fragilizar
a atuação profissional, a maternidade atua como catalisadora de competências que já eram
necessárias, mas que se tornam ainda mais refinadas diante da exigência de conciliar múltiplos
papéis.
Equilíbrio possível em meio às tensões do cotidiano

A ideia de conciliar carreira e maternidade frequentemente aparece associada a escolhas
definitivas, como se fosse inevitável abrir mão de uma dimensão em favor da outra. A
experiência prática, no entanto, revela um cenário mais complexo, feito de ajustes contínuos.
“Como em muitas trajetórias profissionais exigentes, há momentos de tensão entre demandas
profissionais e a amplitude da presença familiar”, reconhece.
A solução, segundo ela, não está em decisões radicais, mas em estrutura. “Procurei atuar com
planejamento, organização e transparência, construindo uma rede de apoio e adotando uma
gestão de tempo rigorosa.”
Essa lógica desloca o foco da ideia de equilíbrio perfeito para uma gestão consciente das
imperfeições. Não se trata de estar integralmente em todos os lugares ao mesmo tempo, mas
de garantir qualidade naquilo que se propõe a fazer, tanto no trabalho quanto na vida familiar.
Filhos como construção contínua de identidade


A maternidade também se manifesta nas fases. Não é uma experiência estática, mas um
processo que evolui conforme o crescimento dos filhos e as demandas de cada etapa. Maria da
Graça resume isso com clareza ao falar de Igor e Hugo, seus dois filhos.
“Tenho dois filhos, Igor e Hugo, de sete e cinco anos, os grandes amores da minha vida”, diz,
antes de destacar o impacto de cada fase. “A primeira infância exigiu maior entrega e
adaptação. Com o crescimento deles, vieram desafios ligados à formação, ao diálogo e à
construção de valores.”
Essa transição revela uma maternidade que deixa de ser exclusivamente operacional para se
tornar cada vez mais formativa. O cuidado físico dá espaço à construção de referências,
princípios e autonomia, elementos que exigem presença, mas também escuta e flexibilidade.
Para além do texto legal, a leitura do humano
No campo jurídico, a interpretação de situações vai muito além da leitura literal da lei. Envolve
compreender contextos, histórias e vulnerabilidades. É nesse ponto que a maternidade se
apresenta como um diferencial silencioso, mas decisivo.
“Sem dúvida a maternidade contribui para ampliar a percepção das múltiplas dimensões que
envolvem os conflitos humanos”, afirma. Essa ampliação não compromete o rigor técnico, mas
o complementa.
“Essa vivência fortaleceu minha escuta qualificada e a capacidade de compreender contextos
para além da literalidade do texto legal.”
O resultado é uma atuação mais completa, que não ignora a complexidade das relações
humanas. Em vez de simplificar, a maternidade adiciona camadas de entendimento, permitindo
decisões mais conscientes e alinhadas com a realidade.
Expectativas sociais e o peso da prova constante

A cobrança sobre mulheres em posições de liderança ainda carrega um componente adicional
quando envolve a maternidade. A necessidade de provar competência, muitas vezes, não se
limita ao desempenho profissional, mas se estende à forma como essas mulheres conduzem
suas vidas pessoais.
“É possível identificar, ainda hoje, expectativas sociais distintas em relação às mulheres,
especialmente às mães, no exercício de funções de liderança”, observa. Ainda assim, ela
aponta um movimento de transformação.
“Há um processo gradual de mudança, com maior reconhecimento da capacidade técnica e da
legitimidade das mulheres nesses espaços.”
Diante disso, sua estratégia não é confrontar diretamente essas expectativas, mas estabelecer
um padrão próprio de atuação.
“Procuro pautar minha atuação por critérios objetivos, consistência decisória e compromisso
institucional”, explica, reforçando que a autoridade precisa se sustentar no mérito e na
qualidade do trabalho.
O exemplo que se constrói no cotidiano
Mais do que discursos, a maternidade também se traduz em exemplos práticos. A forma como
uma trajetória é construída passa a ser, inevitavelmente, uma referência para os filhos, ainda
que de maneira indireta.
“Acredito que o principal exemplo é o de coerência entre valores e prática”, afirma. Para ela,
não basta defender princípios; é preciso vivê-los. “Ao construir uma trajetória pautada por
disciplina, estudo e responsabilidade, procuro demonstrar a importância do compromisso com o
próprio desenvolvimento”, completa.
Essa construção ultrapassa o ambiente familiar e se conecta com o papel social do trabalho.
“Busco transmitir que esforço, integridade e senso de dever são fundamentos duradouros”,
completa, indicando que o legado não está apenas no que se conquista, mas na forma como
se conquista.
Transformação e permanência em uma mesma experiência

Ao longo do tempo, a maternidade se transforma, mas também preserva elementos essenciais.
Entre mudanças e permanências, há um ponto que se mantém constante e que, para Maria da
Graça, define a experiência de forma mais precisa.
“Ter acesso a um amor inexplicável e imensurável”, resume. É uma definição que não busca
complexidade, mas que sintetiza a dimensão mais profunda da maternidade, aquela que não
depende de contexto ou circunstância.
Ao olhar para trás, ela também revisita a própria trajetória com um olhar mais amplo,
reconhecendo os desafios, mas sem perder de vista as possibilidades. “Diria que a
maternidade não me afastaria dos meus sonhos e objetivos profissionais, apenas exigiria
adaptações e ainda mais disciplina.”
Essa percepção reforça a ideia de que não há incompatibilidade estrutural entre maternidade e
carreira. O que existe é a necessidade de reorganização, de ajustes e, principalmente, de
clareza sobre prioridades.
Um equilíbrio construído, não idealizado
A ideia de equilíbrio, muitas vezes, aparece associada a um estado ideal, quase inalcançável.
Na prática, porém, ele se constrói de forma dinâmica, com concessões e escolhas que variam
ao longo do tempo.
“É possível conciliar diferentes dimensões da vida com um equilíbrio possível, não perfeito”,
afirma. A distinção entre o possível e o perfeito não é apenas semântica; ela redefine
expectativas e reduz a pressão por um modelo inalcançável.
Esse entendimento permite uma vivência mais realista da maternidade e da carreira. Em vez
de buscar um padrão ideal, a construção se dá a partir das condições reais, respeitando limites
e potencialidades.
No fim, o que se revela é uma trajetória que não separa maternidade e profissão, mas as
integra. Não como elementos em disputa, mas como dimensões que se complementam e se
fortalecem mutuamente, criando uma experiência mais completa, consistente e, sobretudo,
humana.

