Um celular roubado ou furtado poderia passar por uma série de modificações antes de voltar ao mercado. Em alguns casos, a transformação ia além do desbloqueio: peças eram substituídas para mudar a aparência do aparelho e fazê-lo parecer um modelo mais novo.
É o que aponta a investigação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que deu origem à Operação Frankmobile, deflagrada nesta quinta-feira (10).
Segundo o MP, estabelecimentos investigados ofereciam abertamente serviços de “transformação” de celulares. Um dos exemplos encontrados pelos investigadores envolvia a conversão de um iPhone 11 para o padrão estético de um iPhone 17.
A mudança era feita com a substituição da carcaça e de componentes externos, criando o que a investigação descreve como um aparelho híbrido.
Do iPhone XR ao 13 Pro
Em outro estabelecimento investigado, os policiais encontraram divulgação de um serviço para transformar aparelhos mais antigos em modelos mais novos.
Um dos exemplos era a transformação de um iPhone XR no padrão de um iPhone 13 Pro.
De acordo com o documento, a chamada “transformação” envolvia a substituição de peças traseiras e a utilização de câmeras de modelos diferentes.
Para o Ministério Público, esse tipo de serviço exigia a existência de peças de outros aparelhos e levantava a possibilidade de utilização de componentes retirados de celulares furtados ou roubados.
A investigação identificou ainda o mesmo técnico, associado aos dois estabelecimentos que divulgavam as transformações.
Para os investigadores, a publicidade desses serviços justificou a realização de buscas para verificar a origem das peças e dos componentes utilizados nas modificações.
Celular era desmontado para virar peça de outro
A investigação aponta que o reaproveitamento não se limitava à aparência externa dos aparelhos.
Celulares de origem ilícita poderiam ser desmontados e ter componentes retirados para serem utilizados em outros equipamentos.
Entre as peças citadas pelo Ministério Público estão placas, telas, câmeras e carcaças.
Em locais investigados no centro de São Paulo, os policiais encontraram aparelhos identificados como “IMEI impedido” ou “IMEI bloqueado”. Em uma análise de apenas duas caixas, cerca de 200 celulares foram consultados e 60 apresentaram registros de roubo ou furto.
Parte desses aparelhos estava com adesivos de “desmontagem” e já havia sido fragmentada. Segundo o MP, a situação reforçava a hipótese de que peças de celulares de origem ilícita eram removidas para posterior revenda ou substituição em outros aparelhos.
Peças “retiradas” eram vendidas separadamente
A investigação também encontrou um mercado específico para componentes usados.
Segundo os investigadores, lojas ofereciam peças chamadas de “retiradas”, expressão usada no setor para identificar componentes originais removidos de outros aparelhos, mas cuja procedência não podia ser determinada.
Também eram comercializadas peças “paralelas”, “compatíveis” ou “chinesas”, que não seriam originais.
Em um dos estabelecimentos, os investigadores encontraram telas originais usadas, chamadas de “retiradas”, sendo oferecidas por R$ 1,5 mil.
O MP aponta que, no caso de aparelhos da Apple, a substituição de determinados componentes pode exigir intervenção por software para que a peça transplantada funcione sem alertas do sistema.
O IMEI também podia desaparecer
A transformação podia atingir ainda a identificação do próprio aparelho.
Segundo o Ministério Público, técnicos utilizavam softwares e equipamentos para desbloquear celulares, retirar a vinculação com a conta do proprietário e alterar o IMEI.
Em alguns casos, a placa lógica do aparelho era substituída. Como o IMEI é o identificador individual do celular, a troca da placa podia eliminar o número original associado ao aparelho roubado ou furtado.
Em uma conversa analisada pelos investigadores, um técnico identificado como “Icloudeiro” teria cobrado R$ 250 pelo serviço de troca da placa lógica de um aparelho bloqueado. Em outro atendimento, teria informado o valor de R$ 140 para desbloqueio de celulares roubados.
Com a combinação de desbloqueio, troca de componentes, alteração de identificação e transformação estética, o aparelho poderia voltar ao mercado com poucas características aparentes que permitissem associá-lo ao celular originalmente roubado.
Para o Ministério Público, é justamente essa etapa que dificulta a identificação e a restituição do aparelho ao verdadeiro proprietário: depois de modificado, o celular pode ser reinserido no comércio sob aparência de licitude.

