Entre janeiro e junho de 2026, 43.828 pessoas foram registradas como desaparecidas no Brasil, segundo dados do Painel Estatístico do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública).
São, em média, 242 desaparecimentos por dia. O número representa 40,92 casos para cada 100 mil habitantes e é o maior registrado em um primeiro semestre desde o início da série histórica, em 2015.
Por trás de cada registro, há uma família que procura. Em São Paulo, estado com o maior número de casos no período, foram 10.449 desaparecimentos nos primeiros seis meses do ano, mais de 23% do total nacional. Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro aparecem na sequência, com 4.864, 3.933 e 3.364 casos, respectivamente.
Uma espera que dura décadas
Para Ivanise Esperidião da Silva, a pergunta permanece há quase 31 anos.

Na noite de 23 de dezembro de 1995, sua filha Fabiana, então com 13 anos, saiu sozinha para caminhar cerca de 300 metros até a casa de uma amiga que fazia aniversário. Após a visita, ela se despediu da amiga e pegou o caminho de volta pra casa, onde nunca chegou.
O que deveria ser um trajeto de aproximadamente 20 minutos se transformou em uma busca que atravessou três décadas. Ivanise se tornou presidente e fundadora da Associação Mães da Sé, criada a partir da mobilização de famílias que, como ela, procuravam por parentes desaparecidos.
Ter um filho desaparecido é mil vezes pior que a morte.Ivanise Esperidião da Silva, presidente e fundadora da Associação Mães da Sé
A diferença entre ter um parente desaparecido ou morto, segundo ela, está na ausência de uma resposta. Na morte, existe uma despedida. No desaparecimento, permanece a possibilidade de que a pessoa esteja viva e possa voltar.
Você não quer imaginar o que é acordar todos os dias e sentar na mesa do café da manhã e ter sempre um lugar sobrando. A noite é a pior hora das nossas vidas. Você vai dormir e aquela pessoa não está.Ivanise Esperidião da Silva, presidente e fundadora da Associação Mães da Sé
Quando a busca virou luta coletiva
Durante os primeiros meses depois do desaparecimento de Fabiana, Ivanise percorreu diferentes pontos de São Paulo em busca de informações. Em 1996, depois de participar de uma novela, ela recebeu dezenas de contatos de outras mães que também procuravam pelos filhos.
O encontro foi marcado para 31 de março daquele ano, nas escadarias da Catedral da Sé. Mais de 100 pessoas compareceram.
“Quando eu cheguei na Praça da Sé, que eu me deparei com aquela realidade de mais de 100 mães naquele lugar, eu resolvi transformar a minha dor em uma luta. Não só pela minha filha, mas por todas aquelas mulheres que ali estavam”, conta.
Em três décadas, a Mães da Sé afirmam ter ajudado a localizar quase 6 mil pessoas, mas também acompanham famílias que nunca tiveram uma resposta.
Segundo Ivanise, 26 mães que participaram do movimento morreram sem descobrir o paradeiro dos filhos.
Quando a investigação para
Para as famílias, o tempo tem outro significado. Cada dia sem informação é também mais um dia sem saber se a pessoa está viva, onde está ou o que aconteceu.
Ivanise afirma que um dos problemas enfrentados pelas famílias é a falta de continuidade das investigações. Segundo ela, depois que procedimentos como buscas em hospitais, Institutos Médicos-Legais e no sistema penitenciário não apresentam resultados, os trabalhos podem ser interrompidos.
A Lei da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas sancionada em 2019, no entanto, determina que as investigações não devem ser interrompidas até que seja obtida uma resposta sobre o desaparecimento.
Outro obstáculo é a integração dos dados. O CNPD (Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas), lançado somente em 2024, foi criado para reunir informações de diferentes estados e permitir o cruzamento dos registros. O cadastro busca diminuir a falta de compartilhamento dos dados entre estados.
O DNA como possibilidade de identificação
Enquanto algumas famílias passam anos sem respostas, bancos genéticos passaram a ser utilizados para tentar identificar pessoas desaparecidas e corpos sem identificação.
Entre 24 e 28 de agosto de 2026, o MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) realiza a 4ª Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas. São 342 postos de coleta distribuídos por todas as 27 unidades da federação.
A estratégia é comparar o material genético fornecido pelos familiares com perfis armazenados nos bancos estaduais e nacional.
“Essa campanha de mobilização surgiu em decorrência da aflição que passam os familiares de pessoas desaparecidas em não conseguir ter informações que possam levar ao encontro dessas pessoas”, explicou João Alberto Nogueira Júnior, diretor da Diretoria do Sistema Único de Segurança Pública do MJSP.
O número de perfis genéticos cresceu nos últimos anos. Segundo o ministério, havia cerca de 3 mil perfis em 2021. O número passou de 13 mil após as mobilizações e, até julho de 2026, superava 14 mil perfis de pessoas desaparecidas e 10 mil de familiares.

Os cruzamentos já permitiram identificações. Foram 52 pessoas identificadas a partir da mobilização de 2024 e outras 60 entre 2025 e julho de 2026. Desde 2013, a RIBPG (Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos) realizou 815 identificações.
A coleta de DNA é feita com um cotonete na parte interna da bochecha. O procedimento é gratuito e não exige coleta de sangue.
A orientação é que, preferencialmente, participem parentes biológicos de primeiro grau: primeiro os pais; depois os filhos, acompanhados do outro genitor; e, em seguida, irmãos que tenham os mesmos pais.
Segundo Simone de Jesus, técnica da Coordenação de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas do MJSP, para participar, o familiar deve apresentar documento de identificação com foto e as informações do Boletim de Ocorrência do desaparecimento.
Também podem ser utilizados objetos pessoais da pessoa desaparecida que contenham material genético, como escova de dentes ou roupas.
A busca começa antes das 24 horas
Outro ponto reforçado por João Alberto é que não é necessário esperar 24 ou 48 horas para registrar um desaparecimento.
Ele conta que assim que a família perceber que a pessoa não foi localizada como esperado, deve procurar uma unidade policial. O registro permite iniciar os procedimentos de busca e inserir as informações nos sistemas de segurança.
Segundo os representantes da pasta, o Ministério da Justiça tem buscado integrar unidades de saúde e assistência social à rede de localização.
A ideia é identificar pessoas que chegam a hospitais ou abrigos sem documentos ou sem condições de informar quem são e cruzar essas informações com os registros de desaparecidos.
Em casos envolvendo crianças e adolescentes, também pode ser utilizado o Amber Alert, sistema que divulga alertas com informações sobre desaparecimentos em redes sociais e aplicativos.
Entre números e nomes
Os 43.828 registros do primeiro semestre de 2026 ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Mas, para quem espera por alguém, o desaparecimento não cabe em uma estatística.
É um lugar vazio à mesa. Uma mensagem que não chega. Um telefone que pode tocar. Uma fotografia que continua sendo compartilhada.
Para Ivanise, depois de quase três décadas procurando pela filha, o que as famílias querem não é necessariamente um determinado desfecho. É saber o que aconteceu.
“O que nós queremos, na verdade, é uma resposta, seja ela qual for, positiva ou negativa, mas nós queremos essa resposta. E, às vezes, a resposta vem de uma forma negativa, mas é um ciclo que se fechou”, afirmou.

