O conceito de cidades pêndulo — municípios que não possuem alinhamento político estável e oscilam entre candidatos de campos opostos — ganha relevância na análise do cenário eleitoral brasileiro.
Inspirado na lógica dos “swing states” norte-americanos, o termo descreve localidades que, a depender de para qual lado migrarem, têm capacidade de definir o resultado de uma eleição presidencial disputada. O conceito é fruto de estudo do instituto ReDem (Representação e Legitimidade Democrática), vinculado à UFPR (Universidade Federal do Paraná).
34 milhões de eleitores em disputa
Desde 2002, um grupo de pouco mais de mil cidades oscilou ao menos duas vezes entre o candidato do PT e o candidato da direita no segundo turno da eleição presidencial. São municípios onde os eleitores votaram majoritariamente, por exemplo, em Dilma Rousseff em 2014, migraram para Jair Bolsonaro (PL) em 2018 e optaram por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022.
Esse conjunto de cidades concentra cerca de 20% dos eleitores brasileiros, totalizando 34 milhões de pessoas aptas a votar.
O número representa mais do que o total de eleitores residentes em municípios onde o PT venceu todos os segundos turnos desde 2002, e equivale a quatro vezes o número de eleitores em cidades onde a direita foi dominante em todos os confrontos com o PT desde o início do século.
Segundo Fábio Vasconcellos, cientista político e professor da UFRJ e PUC-Rio, mais de 70% das cidades pêndulo são municípios pequenos, com menos de 20 mil habitantes, mas o peso eleitoral se concentra em cerca de 65 cidades maiores, que reúnem mais de 75% dos votos desse grupo.
São Paulo como epicentro eleitoral
O estado de São Paulo concentra cerca de 40% dos eleitores residentes em cidades pêndulo, com destaque para a capital e municípios da região metropolitana, como São Bernardo do Campo e Osasco.
Para ilustrar o peso dessas localidades, Vasconcellos apresentou um teste contrafactual: se Lula tivesse obtido os mesmos resultados em todo o país em 2022, mas perdido nas cidades pêndulo de São Paulo, Bolsonaro estaria reeleito com mais de 400 mil votos de diferença. “Essas cidades têm uma decisão fundamental, vai ser fundamental na decisão eleitoral novamente”, afirmou.
A região metropolitana de São Paulo reúne 18 cidades pêndulo que, isoladamente, já exercem influência determinante. Vasconcellos ressaltou que, em eleições muito competitivas como a de 2022, essas localidades passam a ser decisivas. Para os candidatos, a atenção a essas regiões “precisa ser essencial na sua campanha”, segundo o analista.
Minas Gerais perde o papel de espelho do Brasil?
Historicamente considerado um espelho do resultado nacional — onde quem vence em Minas vence no Brasil —, o estado de Minas Gerais pode estar passando por uma transformação. Vasconcellos observou que a diferença entre o vencedor e o perdedor no estado vem diminuindo eleição após eleição.
Em 2022, pela primeira vez, a margem em pontos percentuais em Minas ficou abaixo da média nacional, o que indica uma tendência de inclinação mais acentuada à direita no estado em relação ao restante do país. “O que me leva a levantar a hipótese de que, pela primeira vez, quem vencer em Minas pode ser que não vença no Brasil, ou vice-versa”, disse Vasconcellos.
O especialista identificou que várias regiões do estado penderam mais fortemente para o lado da direita em 2022, mesmo em localidades onde o PT historicamente tinha desempenho razoável. “Essa média vem sendo desidratada ao longo do período”, observou.
Quem é o eleitor das cidades pêndulo?
Segundo Vasconcellos, traçar o perfil exato desse eleitor é metodologicamente desafiador, pois a unidade de análise do estudo é o município, não o indivíduo. No entanto, considerando as características médias das cidades com maior peso eleitoral nesse grupo, é possível identificar alguns traços: índice de envelhecimento mais elevado, PIB per capita mediano e renda mais próxima das cidades que tendem à direita.
“Me parece que se aproxima muito do perfil do eleitor mais indeciso, que não se identifica nem com bolsonaristas nem com lulistas, que não se identifica com partido algum”, afirmou.
O analista de Política, Caio Junqueira destacou que esse perfil se assemelha ao que institutos de pesquisa classificam como eleitores independentes — um grupo que, nas pesquisas mais recentes, apresenta alto índice de indecisão e vem flutuando ao longo do ano entre os principais candidatos ao segundo turno.
Vasconcellos concordou com a correlação: “É um eleitor que está cansado desse acirramento, que posterga um pouco a decisão”, disse, citando custo de vida, segurança pública e acesso a transporte como temas centrais para esse eleitorado.
O desafio para as campanhas
Diante desse cenário, Vasconcellos avaliou que as campanhas precisam calibrar com cuidado o discurso voltado às cidades pêndulo. Nas regiões onde os candidatos já são fortes, o objetivo é reforçar o posicionamento. Já nas cidades pêndulo, a abordagem exige maior sensibilidade às demandas locais.
“O candidato precisa pensar as agendas desse eleitor. Ele vive na cidade, com questões muito pragmáticas do seu dia a dia”, afirmou.
O cientista político também ressaltou que, embora algumas questões — como segurança pública e transporte — não sejam de responsabilidade direta do presidente, o candidato é convocado a apresentar soluções articuladas com governadores e prefeitos.
“Esse é o desafio das candidaturas: ouvir esse eleitor, andar junto com esse eleitor e saber como solucionar as questões que atravessam a sua vida”, concluiu Vasconcellos.

