Quem precisou sair de casa nas primeiras horas desta manhã encontrou uma paisagem já conhecida nesta época do ano em Manaus: fumaça, cheiro de queimadas e ar carregado em diferentes pontos da cidade. Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) apontam que a qualidade do ar atingiu nível “moderado” na maior parte das estações de monitoramento. Em alguns pontos, no entanto, a classificação chegou a “ruim”.
O cenário não é novidade em setembro, período marcado por temperaturas elevadas e baixos volumes de chuva no Amazonas. Apesar de a fumaça ser frequentemente associada às queimadas na Região Metropolitana de Manaus — como as registradas nos últimos dias na zona rural de Manacapuru —, a origem da atual concentração de poluentes está mais distante da capital.
Segundo o pesquisador do Laboratório de Climatologia e Meio Ambiente (Labclim) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Fábio Nunes, as partículas que chegaram a Manaus foram transportadas a partir de áreas com queimadas no sul do Amazonas, sul de Rondônia e norte de Mato Grosso.
De acordo com o pesquisador, a passagem de uma frente fria pelo centro-sul do país alterou temporariamente o padrão de circulação dos ventos na região. Normalmente, predominam em Manaus ventos de leste e nordeste. Com o avanço do sistema meteorológico, porém, houve uma mudança para ventos com componentes sul e sudeste nos baixos níveis da atmosfera, favorecendo o deslocamento das plumas de fumaça em direção à capital amazonense.
“Tivemos um avanço de uma frente fria pelo centro-sul do Brasil; ela provoca ajuste no campo de pressão sobre o continente. O efeito prático é a substituição do regime de ventos de leste/nordeste — típico da região — por escoamento de componente sul a sudeste em baixos níveis. Esse redirecionamento conecta Manaus às áreas de queima ativa do sul do Amazonas, sul de Rondônia e norte do Mato Grosso”, explicou.
A mudança na circulação atmosférica alterou a rota das chamadas plumas de fumaça, grandes concentrações de partículas e gases produzidas por queimadas e incêndios florestais que podem ser transportadas por centenas de quilômetros.
Segundo Nunes, a condição deve permanecer enquanto a frente fria não se dissipar completamente. Mesmo com a perda de intensidade do sistema, o pesquisador alerta que novos episódios semelhantes podem provocar novamente a mudança na direção dos ventos e favorecer a chegada da fumaça à região.
“Se tivermos outro episódio de frente fria no Brasil, é bem capaz de termos essa modulação dos ventos novamente, o que acabará favorecendo a subida dessas plumas de fumaça”, afirmou.
Estiagem agrava qualidade do ar
A presença das plumas de fumaça em Manaus e na Região Metropolitana ocorre em um período de estiagem, quando a baixa ocorrência de chuvas dificulta a dispersão e a remoção dos poluentes presentes na atmosfera.
A engenheira florestal e mestre em Clima e Ambiente Samanta Lacerda explica que as queimadas elevam a concentração de diferentes poluentes, com destaque para o material particulado fino, conhecido como PM2,5.
“Além disso, a ausência de precipitação reduz um dos principais mecanismos naturais de ‘limpeza’ da atmosfera, conhecido como deposição úmida. Nesse processo, gases e partículas presentes no ar são incorporados às gotas de água nas nuvens ou capturados pela própria precipitação, sendo posteriormente removidos da atmosfera e transportados para a superfície”, explicou.
Com a combinação entre queimadas, estiagem e alterações temporárias no regime de ventos, a fumaça pode permanecer concentrada sobre a região por mais tempo, comprometendo a qualidade do ar e aumentando a exposição da população aos poluentes atmosféricos.

