O governo dos Estados Unidos confirmou as tarifas de 25% sobre produtos do Brasil a partir de 22 de julho, seguindo a indicação do USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos).
A tarifa é adicional às alíquotas já existentes, ou seja: um produto que atualmente paga 5% de imposto de importação passará a pagar 30%, somando a tarifa regular aos 25% adicionais.
Apesar de a medida contar com isenção de produtos de relevância para as exportações brasileiras aos norte-americanos, como café e carne, setores de peso na economia doméstica serão impactados.
Nesta listam entra bens como estanol, açúcar orgânico, máquinas agrícolas, papel e vestuário.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirma em sua nota oficial, que tem acompanhado com preocupação o anúncio.
Segundo a entidade, no primeiro trimestre de 2026, 20 dos 27 estados brasileiros reduziram suas exportações aos Estados Unidos, o que tende a se agravar com nova medida.
“Isso corre ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) também diz estar apreensiva sobre os efeitos, e não só em relação às exportações.
“Medidas dessa natureza aumentam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas e geram impactos sobre investimentos, produção, emprego e integração das cadeias produtivas”, afirmou em nota,
A associação têxtil salienta, piorém, que ambos os países mantêm uma “longa e relevante relação econômica e comercial, construída ao longo de décadas, que sempre se caracterizou pelo diálogo e pela complementaridade em diversos setores”.
Não à toa, a nota oficial brasileira publicada pelo governo federal nesta quinta-feira (16) também argumenta que os Estados Unidos possuem superávit comercial na relação bilateral, tendo acumulado saldo positivo de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.
Entretanto, para a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a resposta do Palácio do Planalto em relação ao assunto não foi positiva.
O governo brasileiro reagiu por meio da Lei da Reciprocidade sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de citar que o dia 15 de julho “passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”.
O comunicado da Presidência também voltou a defender que a investigação dos EUA “faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro”.
“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”, lamentou a Fiesp.
Nessa linha, a Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente) pede que o governo brasileiro conduza, com urgência, uma negociação para que preserve a indústria nacional, proteja postos de trabalho e restabeleça as relações comerciais com os Estados Unidos.
“Diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática, para evitar um resultado que penaliza diretamente a indústria brasileira de madeira processada”, afirmou.
Vale ressaltar que nem todos os produtos foram afetados com a medida, a proposta exclui alguns produtos considerados estratégicos ao mercado americano.
A lista de isenção não inclui, porém, o setor de calçados brasileiro, que prevê inclusive uma queda de 7,1% nas exportações de calçados em 2026, piora de 3,5 pontos porcentuais em relação à previsão anterior.
“A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano”, afirmou o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.
Um dos pontos centrais da investigação do USTR foi o fim da cooperação bilateral no caso do etanol. O Brasil abandonou o tratamento tarifário recíproco de 2010 e impôs uma tarifa de 18%, desde 2023, sobre o etanol americano, enquanto o etanol brasileiro continua tendo acesso aberto ao mercado dos EUA.
Com isso, as exportações de etanol dos EUA para o Brasil caíram 87% em valor desde o pico em 2018 devido a essas barreiras.
Após a implementação das novas tarifas, a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) afirmou “lamentar” a decisão do governo dos Estados Unidos. Em nota divulgada nesta quinta-feira (16), a entidade afirmou que a política brasileira para o biocombustível está em conformidade com as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Segundo a Unica, o tratamento tarifário aplicado pelo Brasil ao etanol é não discriminatório e segue os compromissos multilaterais assumidos pelo país.
“Não existe qualquer acordo bilateral que obrigue o Brasil a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol norte-americano. Da mesma forma, a redução das exportações de etanol dos Estados Unidos para o mercado brasileiro decorre, sobretudo, da expansão da produção nacional, especialmente do etanol de milho, e não de alterações na política tarifária brasileira”, afirmou no comunicado.

