Uma proteína encontrada na superfície das células, denominada SDC4 (sindecam-4), pode ser explorada como uma forma de combater o câncer, segundo estudo conduzido na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
A pesquisa, publicada em março na revista Cytotechnology, aponta que inibir a proteína pode anular a resistência das células tumorais.
Os experimentos realizados em laboratório mostraram que o bloqueio da molécula SDC4 paralisa a divisão celular, além de eliminar a proteção que as células tumorais usam para sobreviver no organismo, neutralizando o principal mecanismo que facilita as metástases.
“Nosso estudo mostra que a SDC4 pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados em cada caso específico da doença.”Professora Carla Cristina Lopes
O trabalho de pesquisa é fruto do mestrado de Bianca Zaia F. Ferreira, com apoio da FAPESP, financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).
O processo de inibição
A pesquisadora Carla Cristina Lopes, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente do artigo, explica que para formar os tecidos do organismo, as células precisam estar ancoradas umas às outras e à matriz extracelular, que funciona como uma espécie de preenchimento entre elas.
A célula normal, quando se desprende desse ambiente, acaba ativando um mecanismo natural de autodestruição chamado anoikis, termo grego que significa “morte por falta de casa”.
Em células tumorais, no entanto, esse processo de proteção é transformado, já que as mais agressivas adquirem a capacidade de resistir à anoikis, podendo sobreviver soltas e migrar pela corrente sanguínea até outros órgãos, formando metástases.
A proteína SDC4 é produzida para desempenhar funções essenciais, como a adesão aos tecidos, porém, pode ocorrer uma produção excessiva dessa molécula, que está associada ao desenvolvimento e à progressão da doença.
A proteína acaba protegendo as células tumorais da morte celular que ocorre quando a célula se desprende do tecido. Por isso, a inibição da SDC4 podebloquear a progressão do câncer.
Trabalho em laboratório
Os pesquisadores realizaram testes em laboratório utilizando células de vasos sanguíneos de coelhos e forçaram essas células a ficarem soltas no meio de cultura, impedindo que se fixassem em qualquer superfície.
A grande maioria não resistiu, mas menos de 5% delas sobreviveu à falta de casa, mas se tornaram altamente agressivas e passaram a produzir a proteína SDC4 em quantidades exageradas.
A equipe, então, utilizou técnicas de engenharia genética para inibir a SDC4 nessas células, confirmando a hipótese. Sem a proteína, as células perderam as características malignas e voltaram a depender da adesão física a uma superfície para continuarem vivas.
O estudo também revelou o comportamento da SDC4 no interior das células: a proteína interfere diretamente nas etapas iniciais do ciclo de multiplicação celular.
Quando o gene da SDC4 é inibido, segundo observado pela equipe, existe um aumento na produção de uma molécula chamada p27, uma inibidora natural da divisão celular que consegueparalisar a proliferação desordenada que caracteriza os tumores.
O bloqueio da molécula também ajudou a reequilibrar a produção de ciclinas e CDKs, proteínas que ditam o ritmo e autorizam o avanço da multiplicação das células.
“Essa reversão aumentou significativamente a morte programada e reduziu a capacidade invasiva das células, indicando a SDC4 como um alvo terapêutico promissor para conter a metástase antes que ela se estabeleça.”Professora Carla Cristina Lopes, autora correspondente do estudo
Para o futuro, os resultados precisam ser replicados em células humanas para que a pesquisa avance para a possibilidade de real aplicação clínica.
A pesquisa abriu caminho para novas descobertas. Agora, a equipe também busca entender se o CBD (canabidiol), um composto não psicoativo derivado da Cannabis sativa, pode atuar sobre as moléculas de SDC4.

