O confronto entre Argentina e Inglaterra pelas semifinais da Copa do Mundo de 2026 tem uma rivalidade que vai além das quatro linhas. Ambos os países disputam o controle das Ilhas Malvinas, um assunto que causa atrito há décadas.
O tema, inclusive, foi citado em uma música cantada pelos jogadores argentinos na comemoração após a vitória nas quartas de final contra a Suíça: “Pelas Malvinas, pelo Diego [Maradona] e pela última do Leo [Messi]”.
Entenda abaixo o conflito entre os dois países que gera repercussão até os dias de hoje.
O que são as Ilhas Malvinas?
As Ilhas Malvinas (como são conhecidas na Argentina) ou Falklands (como são chamadas no Reino Unido) são um arquipélago de 11.718 km² de superfície.
Com clima frio, é rico em recursos e fica localizado no Atlântico Sul, a cerca de 600 km da costa da Argentina.
Mais de 3.000 pessoas vivem no arquipélago, incluindo descendentes dos primeiros colonos que chegaram quando o Reino Unido assumiu o controle à força em 1833, imigrantes e soldados em uma base no Monte Agradable (Mount Pleasant, para os britânicos).
Sua importância estratégica se deve à posição no Oceano Atlântico e seus recursos naturais. Há também a perspectiva de exploração de petróleo na região.
História que remonta a 1520
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, as ilhas foram descobertas em 1520 por integrantes da expedição do navegador português Fernando de Magalhães, a serviço da Espanha.
Com isso, a chancelaria argentina argumenta que sua localização foi registrada na cartografia europeia sob o controle da Espanha, com base nas Bulas Papais e no Tratado de Tordesilhas de 1494.
O Reino Unido, no entanto, diz que foi o navegador inglês John Davies quem descobriu o arquipélago, em 1592.
Um ponto que parece consenso entre as partes é que as ilhas foram nomeadas pela primeira vez em 1600 pelo navegador holandês Sebald van de Weert, que as chamou de “Sebaldinas”

Em 1692, o capitão inglês John Strong desembarcou na região e deu o seu nome ao estreito que separa as duas maiores ilhas do arquipélago: Falkland Sound (Estreito de Falkland), em homenagem ao Visconde de Falkland.
A Espanha reagiu e reivindicou seus direitos às ilhas, invocando o Tratado de Tordesilhas e vários outros acordos com o Reino Unido, incluindo Utrecht em 1713 e a convenção Nootka Sound em 1790.
Mas foram os franceses que iniciaram a colonização das ilhas com o primeiro povoado, Puerto Luis, fundado em 1764, como destaca o trabalho de Cisneros e Escudé.
Como esses marinheiros vinham de Saint-Malo, na França, batizaram as ilhas como Les Malouines, de onde derivou o nome espanhol Las Malvinas.
A Espanha negociou com a França a transferência de Puerto Luís para sua soberania e exerceu o controle sobre as Ilhas Malvinas. Em 1811, devido à onda de revoluções de independência na América Latina, organizou uma retirada da área.
Em seguida, o governo das Províncias Unidas do Río de la Plata reivindicou os direitos territoriais da Espanha, inclusive os que pesavam sobre as ilhas, e, em 1820, passou a exercer sua soberania sobre o arquipélago.
Em 1833, o Reino Unido expulsou o governador e a guarnição que estavam no local, assumindo o controle das ilhas — que se tornaram um dos atuais 14 Territórios Ultramarinos Britânicos.
Disputa da soberania das Malvinas
Desde aquela época, a Argentina reivindica a soberania sobre as Malvinas, mas o assunto ganhou força após a Segunda Guerra Mundial, com a descolonização de territórios pelo mundo promovida pela ONU em 1960.
Então, em 1965, a resolução 2.065 das Nações Unidas reconheceu especificamente a disputa de soberania das Malvinas e a existência de um caso contemplado na resolução 1.514, convocando as partes a negociar.
“Os britânicos interpretam esta resolução, segundo a carta da ONU, a partir da autodeterminação, e os argentinos, também segundo a carta da ONU, da integridade territorial”, disse Alejandro Corbacho, especialista na guerra das Malvinas e diretor do Observatório de Segurança e Defesa da Universidade Cema.
Guerra entre Argentina e Inglaterra pelas Malvinas
Assim, em 2 de abril de 1982, começou a batalha de Wireless Ridge.
As forças argentinas desembarcaram nas ilhas, tomaram a capital, Puerto Argentino (Port Stanley para os britânicos), e derrotaram uma pequena guarnição britânica.
Os Estados Unidos rapidamente mostraram seu apoio ao Reino Unido, seu aliado na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), assim como Alemanha, Itália, França, Japão e Canadá.
Quase imediatamente, o Reino Unido, liderado pela então primeira-ministra Margaret Thatcher, enviou uma frota, incluindo dois porta-aviões, para retomar as Ilhas Malvinas.
O que se seguiu foram 74 dias de intensos combates terrestres em torno de Pradera del Ganso (Green Goose, para os britânicos) e Puerto Argentino e batalhas aeronavais com grandes perdas humanas.

Um submarino britânico afundou o cruzador argentino ARA Belgrano, e aviões argentinos fizeram o mesmo com os navios britânicos HMS Sheffield e HMS Antelope, entre outros.
Em 14 de junho de 1982, os argentinos em Puerto Argentino se renderam às tropas britânicas e a guerra chegou ao fim.
Cerca de 650 militares argentinos e 255 britânicos morreram no conflito.
Chanceler do Reino Unido visitou Malvinas em 2024
James Cameron, então chanceler do Reino Unido, visitou as Ilhas Malvinas em 2024.
O presidente argentino, Javier Milei, chegou a levar o assunto a Cameron durante uma reunião.
De toda forma, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido havia citado um referendo de 2013 em que “os habitantes das Ilhas Falkland votaram esmagadoramente para manter o seu estatuto de território ultramarino autônomo do Reino Unido”.

