A estiagem já compromete o acesso a 28 das 154 aldeias atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Parintins, nos estados do Amazonas e do Pará. O número corresponde a 18,2% das comunidades acompanhadas pelo distrito e afeta uma população estimada em 3.150 indígenas.
Entre as aldeias afetadas, 20 apresentam comprometimento parcial do acesso, enquanto outras oito enfrentam situação considerada severa. Em uma das comunidades mais atingidas, em Maués, no interior do Amazonas, moradores estão isolados e precisam caminhar cerca de uma hora e meia até outra aldeia para ter acesso aos serviços de saúde.
Os dados constam no boletim epidemiológico do DSEI Parintins, divulgado em 17 de setembro com base no monitoramento semanal realizado pelas equipes que atuam nas comunidades. Ao todo, o distrito presta assistência a aproximadamente 17.890 indígenas, distribuídos em 154 aldeias, 12 polos-base e nove municípios do Amazonas e do Pará.
Baixa dos rios prejudica deslocamento das equipes
Entre as 29 aldeias afetadas pela estiagem, 20 apresentam comprometimento parcial do acesso. Nesses locais, a navegação ainda é possível, mas somente com embarcações menores, como rabetas e barcos equipados com motores de 15 HP.
Em outras oito comunidades, o acesso é considerado severamente comprometido. A redução do nível dos rios dificulta ou impede a circulação das embarcações utilizadas normalmente pelas equipes de saúde. Diante desse cenário, o DSEI avalia a necessidade de transporte aéreo para garantir a chegada dos profissionais e a continuidade dos atendimentos.
As dificuldades foram registradas em aldeias dos municípios de Maués e Barreirinha, no Amazonas, e Aveiro, no Pará.
Uma das situações mais críticas está na aldeia Lírio do Vale, vinculada ao Polo-Base Vila Nova II, em Maués. Com o acesso fluvial prejudicado, as equipes de saúde não conseguem chegar regularmente à comunidade.
Para receber atendimento, os moradores precisam percorrer aproximadamente 1h30 a pé até a aldeia Terra Nova. O DSEI também mantém contato com o Agente Indígena de Saúde (AIS) da localidade para viabilizar a limpeza de uma área que possa ser utilizada como ponto de pouso de aeronaves.
A medida é estudada como alternativa para permitir o deslocamento das equipes até a comunidade e evitar a interrupção da assistência à população indígena.
Monitoramento dos rios é feito semanalmente
O acompanhamento das condições de acesso às aldeias é realizado pelas próprias equipes que atuam nos territórios. Segundo Tatiana Rodrigues, enfermeira do Núcleo 1 de Monitoramento de Indicadores e Situações de Saúde do DSEI Parintins, o registro das condições dos rios passou a ser realizado semanalmente desde abril.
Os profissionais informam os níveis dos rios, as condições de navegabilidade e as possibilidades de acesso às comunidades. Os dados são incorporados ao sistema utilizado para monitorar doenças, agravos e outras situações de saúde nos territórios indígenas.
Segundo Tatiana, quando uma comunidade passa a apresentar dificuldades para receber embarcações maiores, as equipes comunicam a situação ao distrito, que avalia alternativas para garantir o atendimento.
O monitoramento também permite identificar antecipadamente as aldeias que podem precisar de outros meios de transporte e adaptar o planejamento das ações de saúde conforme o avanço da estiagem.
Seca também afeta acesso a alimentos
Além de dificultar o deslocamento das equipes de saúde, a baixa dos rios interfere diretamente na rotina das comunidades indígenas e pode comprometer o transporte de alimentos e outros insumos.
Para reduzir os impactos da estiagem, o DSEI Parintins articula ações com prefeituras do Baixo Amazonas, Defesa Civil, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde Indígena (Sesai).
As articulações têm como objetivo viabilizar o envio de alimentos e outros insumos às comunidades mais afetadas enquanto as condições de transporte permanecem prejudicadas.
Transporte aéreo é alternativa para aldeias isoladas
Com a queda no nível dos rios, a logística de atendimento precisa ser adaptada de acordo com a situação de cada comunidade. Nas aldeias onde as embarcações já não conseguem chegar, o transporte aéreo é avaliado como alternativa para garantir a continuidade das ações de saúde.
O monitoramento semanal permite acompanhar a evolução da estiagem e identificar as comunidades que enfrentam as maiores dificuldades de acesso. A estratégia também ajuda o DSEI a planejar medidas emergenciais e direcionar recursos para os territórios mais afetados pela seca.

