Quando caminhamos na Ponta Negra, ou jogamos futebol no campinho do bairro no fim da tarde ou escolhemos correr nas ruas de Manaus todos sabem que tem dias em que o treino não rende o esperado porque o cansaço chega antes… Roupa encharcada, o coração acelerado sendo inevitável não diminuir o ritmo, alguns podem pensar que estão sem ritmo ou preparo… De fato isto pode ser uma verdade, mas nem sempre essa é a explicação mais correta! O calor e a umidade aumentam a exigência do organismo e o que conseguimos fazer em um dia pode ficar muito mais difícil em outro.
Somos tão acostumados com o calor que muitas vezes não o levamos em conta em nossas programações de exercícios, marcamos o futebol, seguimos a planilha de corrida e levamos os filhos para treinar como se as elas fossem sempre iguais… Hoje além dos dias mais quentes, a fumaça das queimadas é mais uma preocupação, ainda nos dias que parece em menor quantidade, devemos avaliar a qualidade do ar. O céu aparentemente mais limpo ou a diminuição do cheiro não garantem, que seja um bom momento para fazer exercício ao ar livre, devemos sempre avaliar quando diminuir o esforço, ou mudar o local e, em alguns dias até cancelar o treino externo.
Vanguarda do Norte: Por que o exercício habitual fica tão mais cansativo no calor?
Dr. Ricardo Amaral Filho: O organismo está fazendo tem que sustentar o exercício e controlar a temperatura! De forma simplificada, os músculos produzem calor e tem que eliminar o mesmo através do suor e em um lugar muito úmido, como Manaus, isto fica prejudicado e apesar de muita transpiração o resfriamento pode não cumprir totalmente sua função.
Vale lembrar que “suar muito não significa que o treino foi bom”, o suor não mede a quantidade do exercício nem a quantidade de gordura perdida, está perda imediata de peso ocorre principalmente pela perda de água.
Não podemos avaliar o treino apenas pela velocidade ou pela distância nos dias mais quentes, pois neles se exige mais esforço, reduzir a velocidade pode ajustar na prática, a água é importante, mas não resolve totalmente o acúmulo de calor.
VDN: Então o melhor é sair bem cedo ou deixar para a noite?
Dr. Amaral: Procurar os horários mais frescos ajuda, aproveitar sombra, usar roupas leves, água disponível e pausas também fazem muita diferença.
Nos que moramos em Manaus sabemos que o fim da tarde nem sempre tem temperaturas tão amenas… Muitas vezes continua muito quente, principalmente em locais com pouco vento e muito concreto, por isto também é importante fazer uma boa escolha do local onde a atividade física acontece. Em tempos atuais com a fumaça, está escolha tem ficado mais complexa. Podemos ter uma manhã menos quente, mas com o ar totalmente comprometido, hoje em dia sair às cinco ou às seis da manhã já não garante que as condições estejam boas para atividades ao ar livre, agora o amazonense tem que também consultar a qualidade do ar perto do horário de sair de casa.
VDN: Quem nasceu e sempre treinou aqui não está adaptado?
Dr. Amaral: Pode estar mais adaptado ao calor do que alguém que acabou de chegar, mas isso não elimina completamente o risco, atletas bem condicionados também podem passar mal.
No esporte em geral, precisamos ter um olhar cuidadoso com a cobrança para que todos acompanhem o mesmo ritmo! Uma criança ou adolescente pode ter vergonha de pedir para parar! Um adulto pode esconder a tontura para não parecer “mais forte” diante dos colegas!
VDN: Como beber água da maneira certa?
Dr. Amaral: A primeira coisa é ter claro que a hidratação deve acontecer durante todo o dia e não apenas a hora do exercício!
Durante qualquer atividade física, se deve ter água acessível.
A quantidade adequada vai variar de pessoa para pessoa, o esforço, a duração, a perda de suor e condições climáticas. Não é correto estabelecer uma quantidade de litros que todos sem pensar questões próprias de idade e do indivíduo devam tomar. Quem realiza sessões prolongadas ou perde muito líquido, o planejamento também pode incluir reposição de sódio sempre comacompanhamento individual e análise da atividade em questão. Digo isto porque tomar água muito além da necessidade pode reduzir o sódio do sangue e provocar hiponatremia inclusive com uso de bebidas esportivas. Também vale lembrar que pessoas com doença cardíaca ou renal e que tenham orientação para restringir líquidos necessitam conversar com seu médico para entender melhor sobre quantidades e prescrição de atividades compatíveis com sua condição de maneira individual.
VDN: Que sintomas não devemos atribuir apenas ao cansaço?
Dr. Amaral: Tontura, náusea, dor de cabeça, fraqueza diferente do normal e sensação de desmaio são sinônimos de atenção! A pessoa deve interromper o esforço, procurar um local fresco e começar a resfriar o corpo, se estiver consciente, conseguindo engolir e sem vômitos, pode beber água aos poucos, se com alguma perda de consciência ou não melhorar e houver piora, necessita imediatamente de atendimento! Pessoas que ficarem confusa, fala coisas sem sentido, começa a cambalear, tem convulsão ou perde a consciência durante o exercício no calor ou mesmo sem ele podem estar diante de uma emergência! Nessa situação, o correto é acionar o SAMU pelo 192, retirar o excesso de roupa, molhar a pele com água fria e ventilar.
VDN: E nos dias em que a fumaça toma conta da cidade? Ainda dá para fazer uma atividade mais leve na rua?
Dr. Amaral: Quando temos muita fumaça, a orientação é evitar o exercício ao ar livre!
Reduzir a intensidade para diminuir a exigência respiratória, mas a exposição continua existindo! Dependendo das condições, mesmo a caminhada deve ser transferida ou cancelada. Vale lembrar que a fumaça tem gases e partículas muito pequenas, que são capazes de penetrar profundamente nas vias respiratórias e podem causar irritação, agravar a asma e outras doenças pulmonares e trazer complicações cardiovasculares.
A Semsa Manaus recomenda evitar exercícios externos nos dias de fumaça. Beber água não neutraliza os efeitos da fumaça! A hidratação continua sendo necessária, mas a medida principal é reduzir a exposição.
VDN: Como saber se o ar está adequado? Só pelo cheiro?
Dr. Amaral: O cheiro de queimado e a fumaça visível já são motivos suficientes para ter cautela… Mas a ausência de cheiro não garante boa qualidade do ar, é recomendado consultar o monitoramento e os alertas oficiais, o Ministério da Saúde tem ferramentas como o MonitoAR e também se deve levar em conta os informes de vigilância.
Quando a qualidade do ar estiver ruim e não houver um local adequado para substituir o treino, se deve adiar e não existe necessidade de “compensar” depois fazendo o dobro, a recomendação e de ajustar a programação com seu treinador.
VDN: Uma academia fechada ou uma máscara resolvem o problema?
Dr. Amaral: Ambientes internos normalmente ajudam, desde que estejam protegidos da fumaça e tenham a temperatura adequada. Academias ou um espaços de treino com grandes aberturas podem receber o mesmo ar da rua.
O ar-condicionado ajuda no conforto térmico, mas não garante sozinho a remoção das partículas finas, a entrada de ar externo, a vedação e um possível sistema de filtragem tem em podem ser interessantes, lembrando que não é adequado fechar tudo e deixar as pessoas treinando em um ambiente superaquecido.
Nos dias mais complicados, podemos aproveitar um ambiente protegido para fazer algo menos exigente, trabalhar mobilidade ou reorganizar o descanso. A escolha sempre vai depender das condições disponíveis.
VDN: Quem precisa de atenção maior?
Dr. Amaral: Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares devem ter cuidado redobrado com a fumaça. Quem tem asma deve manter o tratamento e saber como agir se houver sintomas, conforme a sua orientação medica.
Seja qual for a idade, falta de ar importante, dor no peito, desmaio ou piora rápida no estado geral necessitam de avaliação imediata. Não devemos colocar tudo na conta do calor ou da fumaça e não investigar outras causas.
Precisamos de atividade física, e Manaus não oferecem tantos espaços e oportunidades para isso, portanto o planejamento tem que levar em conta as condições em que estamos nos exercitando.
Antes de sair, devemos verificar o calor e a qualidade do ar, escolher bem o local e sempre garantir acesso à água. Durante a atividade, se deve levar em conta os ajustes dados pelo profissional que te acompanha levando em consideração aquele dia em específico. Aparecendo sintomas, interromper e avaliar!
Quem ensina, acompanha os filhos ou organiza treinos, esse cuidado é parte da sua responsabilidade com o outro. E quem se exercita, diminuir o ritmo ou adiar quando o ambiente está inadequado é uma decisão de saúde que deve ser respeitada.

