Na reta final do segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apostam em apoios que podem ajudar a “furar as bolhas” na disputa presidencial. Os dois candidatos buscam aproximação com segmentos que, tradicionalmente, não são identificados com suas candidaturas. Flávio procura mostrar que também tem o respaldo de integrantes da população LGBT+, mulheres e artistas.
Lula, por sua vez, reúne antigos adversários políticos, personalidades da centro-direita e ex-aliados de Jair Bolsonaro. A estratégia é tentar alcançar eleitores que não necessariamente se identificam com o candidato, mas que podem considerar votar nele.
Aceno de Flávio a LGBT+
Um dos principais exemplos é o influenciador alagoano Rico Melquiades, campeão de A Fazenda 13, que tem cerca de 12 milhões de seguidores no Instagram. Gay, nordestino e declarado eleitor de direita, Rico passou a fazer publicações em defesa de Flávio Bolsonaro.Play Video
Em um dos vídeos, afirmou que seus direitos não foram retirados durante a Presidência de Jair Bolsonaro. Em outra gravação, apareceu ao lado de Flávio e perguntou se, caso eleito, o senador adotaria medidas contra homossexuais ou restringiria direitos já conquistados. O presidenciável respondeu que não pretende promover perseguições e garantiu que essas conquistas seriam mantidas.
A manifestação de apoio não ficou restrita a Rico. Perfis como Gays com Lucidez, Trans de Direita e Dom Lancellotti também participaram de uma mobilização nas redes sociais favorável ao candidato do PL. As manifestações evidenciam a existência de grupos LGBT+ conservadores que não se reconhecem nas posições políticas majoritariamente associadas aos movimentos organizados de defesa dessa população.
Mulheres e artistas com Flávio
Flávio também procura ampliar sua presença entre mulheres e representantes do meio artístico. Entre os nomes que manifestaram apoio ao senador estão a atriz Regina Duarte e os cantores Amado Batista e Zezé Di Camargo. Na reta final da campanha, o candidato fez um chamado para que artistas de direita tornassem público o apoio à sua candidatura.
A participação dessas personalidades integra uma tentativa de ampliar o alcance da campanha para além do eleitorado bolsonarista mais fiel. No caso das mulheres, a aposta é alcançar também aquelas que não se identificam com o discurso da esquerda sobre direitos femininos e que defendem pautas conservadoras.
Lula apela à direita não bolsonarista
Lula, por outro lado, conseguiu reunir nomes que estiveram durante décadas no campo de oposição ao PT. No sábado (17), um grupo de 15 personalidades divulgou um manifesto em defesa da reeleição do presidente. Entre os signatários está o jurista Miguel Reale Júnior, que foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso e participou da elaboração do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Apesar de ter declarado voto em Lula, Reale Júnior sustenta que continua considerando correta sua atuação pelo afastamento da ex-presidente. Para o jurista, a escolha atual está relacionada à preservação da democracia e ao funcionamento das instituições.
A lista também inclui Aloysio Nunes Ferreira, ex-presidente nacional do PSDB, ex-senador e ex-ministro das Relações Exteriores de Michel Temer. Outros participantes são José Carlos Dias e José Carlos Carvalho, que integraram o governo Fernando Henrique Cardoso, além do diplomata Rubens Ricupero e do economista Eduardo Giannetti. Embora tenham diferenças políticas com Lula e façam críticas à sua administração, os signatários consideram que sua reeleição representa a alternativa mais adequada diante da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Outra adesão é a de Beatriz Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ela também participou de um vídeo de apoio a Lula ao lado de Mário Covas Neto, filho do ex-governador de São Paulo Mário Covas, e Maria Estella Gregori, filha do ex-ministro José Gregori. Os três têm ligação familiar com personagens importantes da história do PSDB, partido que, durante anos, protagonizou com o PT as principais disputas presidenciais do país.
Também está ao lado de Lula o deputado Luciano Bivar (MDB-PE), que comandou o PSL, partido responsável por lançar Jair Bolsonaro à Presidência em 2018. Bivar tem uma trajetória peculiar: disputou a eleição presidencial de 2006 contra Lula, presidiu a legenda de Bolsonaro e, duas décadas depois, declarou voto no petista. Em 2026, passou a compor, como primeiro suplente, a chapa do senador Humberto Costa (PT) em Pernambuco. A mudança de posição, no entanto, não é recente. Bivar rompeu com Jair Bolsonaro ainda em 2019.
Nem todos os antigos aliados de Jair Bolsonaro que passaram a criticar a família do ex-presidente decidiram apoiar Lula. O ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, é um exemplo. Atualmente nos Estados Unidos, afirmou que não votará em nenhum dos dois presidenciáveis. Weintraub tem feito críticas a Flávio e declarou que não pretende comparecer às urnas no segundo turno.
A ex-deputada Joice Hasselmann, que foi líder do governo Bolsonaro no Congresso, também passou a integrar o grupo de antigos aliados que fazem oposição à família do ex-presidente. Diferentemente de Weintraub, porém, Joice anunciou nesta terça-feira (20) que votará em Lula. A decisão não representa uma reconciliação política com o PT, partido do qual continua sendo crítica. Para a ex-parlamentar, a escolha está relacionada à rejeição à candidatura de Flávio Bolsonaro.

