A roupa está folgada, o peso diminuiu e os elogios logo começam… Mas uma pergunta precisa ser feita a si mesmo sobre este resultado, como está a saúde de quem emagreceu? A pessoa consegue caminhar melhor, subir escadas, carregar as compras e manter disposição? Está se alimentando adequadamente? Preservou a força? Ou passou a comer muito pouco, sentir fraqueza e abandonou os exercícios?
As chamadas canetas emagrecedoras estão revolucionando o tratamento da obesidade
e esta conversa já chegou nas academias e no esporte. Exite a expectativa de resultados
rápidos mas também o receio dos efeitos adversos, muita gente tem dúvidas práticas
como, quem pode usar, o que comer, como treinar e o que fazer quando o alcançou o
peso desejado.
De fato são medicamentos com muitos benefícios quando indicados corretamente, mas
a popularidade pode passar uma ideia incompleta, de que basta aplicar uma injeção e
esperar.
Neste retorno da coluna vamos abordar como integrar tratamento, alimentação e
movimento. O objetivo é ajudar o leitor a entender por que perder peso faz parte do
cuidado, mas precisa ser acompanhado de atenção ao corpo que continuará vivendo sua
rotina de trabalhando e se exercitando.
Vanguarda do Norte: Emagrecer é o mesmo que ganhar saúde?
Dr. Ricardo Amaral Filho: Sim! Mas não necessariamente… Em pessoas com problemas relacionados
ao peso, o emagrecimento normalmente melhorar a saúde! Mas é necessário observar
como essa perda acontece e os resultados que produz na vida.
Vamos imaginar alguém que perdeu peso, controla melhor a pressão e passa a caminhar
com mais facilidade isto é ótimo. Mas podemos ter pessoas que também emagrecem,
mas ficam fracas, se alimentam mal e perdem capacidade de realizar tarefas. A balança
acusa perda de peso nos dois casos, mas a avaliação clínica nos doa grandes diferenças
para estas situações.
Os benefícios da perda devem ultrapassam a aparência! No estudo SELECT, a
semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares importantes em
pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem
diabetes. Mas o resultado é da população estudada e não significa que qualquer pessoa
terá a mesma proteção!
Por isto, acompanhar o tratamento exige um olhar para sintomas, exames, capacidade
física e qualidade de vida. O peso é uma informação importante de uma avaliação bem
maior.
VDN: O que são essas canetas e como elas ajudam a emagrecer?
Dr. Amaral: “Caneta” é o dispositivo de aplicação. Os medicamentos delas podem ser
diferentes. Os mais conhecidos são a liraglutida e semaglutida, que atuam no receptor
de GLP-1, e tirzepatida, que atua nos receptores de GIP e GLP-1.
Esses medicamentos atuam em mecanismos envolvidos na fome, na saciedade e no
controle da glicose. A pessoa sente menos fome e fica satisfeita com porções menores.
Também podem agir no esvaziamento do estômago, com intensidade variável em
dependendo do medicamento e o tempo de uso.
Tem que ser analisado tanto o benefício quanto os cuidados de maneira individual. Ter
menos vontade de comer facilita o tratamento, mas não garante que a alimentação
esteja oferecendo tudo de que o organismo precisa.
Também deve ficar claro que uma prescrição feita para outra pessoa não serve como
orientação para começar ou ajustar o próprio tratamento.
VDN: Quem pode usar? A indicação é estética ou de saúde?
Dr. Amaral: Para controle de peso em adultos, indicações recomendadas e aprovadas de
alguns desses medicamentos incluem obesidade, com índice de massa corporal a partir
de 30, ou sobrepeso, a partir de 27, acompanhado de problemas relacionados ao peso,
como hipertensão, alterações da glicose, apneia do sono entre outros.
Temos que deixar claro que os critérios ajudam, mas não substituem a consulta! O
médico tem que avaliar caso a caso as doenças, medicamentos em uso, histórico de
tratamentos, alimentação e situações que podem contraindicar ou exigir cuidados a
mais. Por exemplo em atletas com muita massa muscular, interpretar apenas o IMC pode
normalmente é inadequado.
O desejo de melhorar a aparência pode ser conversado sem julgamento. Entretanto,
querer perder poucos quilos não estabelece, por si só, indicação médica.
Na obesidade, tem uma condição crônica que necessita tratamento e individualização
do cuidado. A medicação pode fazer parte desse cuidado, quem usa não é falta de
disciplina, mas utilizar sem necessidade não é seguro só por estar na moda.
VDN: Por que não começar por conta própria, se tantas pessoas estão usando?
Dr. Amaral: Porque o uso de outra pessoa não te dá os riscos nem as necessidades de
outra pessoa. Antes da primeira aplicação, é necessário avaliação para saber se tem
indicação, escolher o medicamento adequado e ter acompanhamento.
Náuseas, vômitos, diarreia e constipação podem acontecer e também outros menos
frequentes, que são importantes por isto se precisa de acompanhamento adequado.
O médico analisa antecedentes relevantes, possibilidade de gravidez e tratamentos
utilizados. Em quem utiliza insulina ou algumas medicações para diabetes, por exemplo,
pode ser necessário ajustar o tratamento para reduzir o risco de hipoglicemia.
Não se deve compartilhar canetas, copiar esquemas de redes sociais ou aumentar a
dose para acelerar resultados. A procedência do produto também é fundamental.
A receita inicia um processo de cuidado os retornos são para verificar resposta,
tolerância e necessidade de mudanças.
VDN: Quem emagrece com essas medicações perde músculo?
Dr. Amaral: Durante o emagrecimento, parte do peso perdido pode ser massa magra,
mas também acontece com outras estratégias de perda de peso.
A atenção deve ser maior em idosos, pessoas sedentárias, quem já apresenta pouca
força e quem passa a ingerir quantidades insuficientes de alimentos.
Tem que ser acompanhado a composição corporal quando indicado e, principalmente,
verificar se a pessoa preserva força e capacidade de realizar suas atividades.
VDN: Quem usa precisa mudar o treino?
Dr. Amaral: Vale reavaliá-lo conforme sua condição. Uma pessoa sedentária deve
começar gradualmente, quem já treina precisa observar alimentação e possíveis
sintomas, principalmente no início do tratamento e quando se faz ajustes de dose.
Se surgir tontura, fraqueza ou dificuldade para completar treinos antes tolerados, não
se deve insistir na mesma carga sem avaliação. Pode ser necessário reduzir
temporariamente o volume ou a intensidade enquanto se ajusta o cuidado.
O profissional de educação física tem papel um papel fundamental nas escolha dos
exercícios, na progressão e no acompanhamento da resposta. O treino deve conversar
com a avaliação médica e nutricional.
Durante o emagrecimento, o exercício deve ajudar a preservar função e construir
condicionamento.
Ter uma rotina que pode ser mantida, com progressão com boa orientação é melhor que
semanas de esforço excessivo seguido de abandono.
VDN: Caminhar basta ou é necessário fazer musculação?
Dr. Amaral: Caminhar é uma ótima forma de começar e pode fazer parte de uma rotina
saudável. Mas, exercícios aeróbicos e de força oferecem estímulos diferentes, combinar
os dois com supervisão amplia o cuidado.
A Organização Mundial da Saúde recomenda aos adultos entre 150 e 300 minutos
semanais de atividade aeróbica moderada, ou equivalente vigoroso, além de
fortalecimento dos principais grupos musculares em pelo menos dois dias por semana.
Treino de força também não exige necessariamente uma academia, pode usar pesos,
elásticos, aparelhos ou exercícios com o próprio corpo, desde que adaptados e
progressivos.
A escolha deve levar em conta limitações, preferências e acesso. Para quem tem dor ou
dificuldade de locomoção, outras modalidades podem ser mais viáveis, o melhor
começo é aquele que permite avançar com segurança e continuidade.
VDN: Como acompanhar força e capacidade física durante o emagrecimento?
Dr. Amaral: É útil registrar como a pessoa está antes de iniciar e repetir a avaliação ao
longo do tratamento para comparar a evolução com sua própria condição inicial.
O acompanhamento deve ser feito conforme idade e situação clínica individual.
Perguntas simples também sevem de parâmetro: subir escadas ficou mais fácil?
Carregar compras continua possível? A pessoa consegue brincar com os filhos? Está
terminando o treino com recuperação adequada?
Bioimpedância e outros métodos podem complementar a avaliação, mas seus
resultados precisam de interpretação.
Uma leitura isolada de “massa muscular” não deve ser o único parâmetro para decisões,
se o peso cai enquanto a força e a disposição pioram persistentemente, é necessário
revisar o plano e investigar outras possíveis causas.
VDN: Precisa aumentar proteína, cortar carboidrato ou tomar suplementos?
Dr. Amaral: A quantidade adequada de proteína deve ser observada durante o
emagrecimento, principalmente quando a ingestão diminui. Mas vale lembrar que a
necessidade deve ser individualizada, levando em conta idade, condições clínicas e
atividade física.
O nutricionista deve avaliar a alimentação e distribuir as fontes proteicas durante todo o
dia, suplementos podem ajudar em alguns casos, mas não são obrigatórios nem
substituem as refeições.
Proteína, sozinha, também não substitui o treino de força. A recomendação é quando se
faz tratamento com GLP-1 é de integrar alimentação adequada e exercício resistido
para apoiar a preservação muscular.
Os carboidratos tem papel importante no abastecimento do exercício.
A prioridade maior é fazer uma alimentação organizada. Comprar suplementos antes de
avaliar o prato aumenta o custo do tratamento sem resolver o problema principal.
VDN: O que merece atenção quando o peso começa a cair rapidamente?
Dr. Amaral: É importante avaliar se a velocidade vem acompanhada de alimentação
adequada, hidratação e preservação da capacidade física. O ritmo é individualizado e
perder mais rápido não significa a obtenção de um resultado melhor.
Vômitos repetidos, dificuldade para ingerir líquidos, pouca urina, desmaios ou fraqueza
necessitam de avaliação, dor abdominal e persistente, principalmente quando se irradia
para as costas e acompanhada de vômitos, necessita de atendimento imediato.
Diminuição persistente do rendimento ou incapacidade de comer adequadamente
também deve-se informar a equipe de acompanhamento mesmo sem uma emergência.
O desconforto não significa que o medicamento está funcionando, o objetivo não é
suportar sintomas a qualquer custo, sempre se deve ter avaliação quando eles existem.
Somente com acompanhamento se pode decidir se é preciso rever alimentação,
investigar alguma complicação ou modificar o tratamento. Estas decisões são
individuais e não são tomadas por comparação com relatos de redes sociais.
VDN: E os atletas? Emagrecer pode melhorar o desempenho?
Dr. Amaral: Depende da modalidade e da situação individual. Reduzir gordura corporal
pode ajudar alguns atletas, mas um peso menor não garante melhor rendimento. Força,
potência, resistência, recuperação e disponibilidade para treinar também contam.
VDN: Quais hábitos devem mudar durante o uso e permanecer depois?
Dr. Amaral: O plano deve começar com mudanças em decisões compartilhadas de cada
pessoa com a equipe de acompanhamento.
É importante a construção de uma rotina de alimentação variada, hidratação, treino de
força e atividade aeróbica compatível com a capacidade de cada um, também é
importante ter tempo para recuperação.
Após a suspensão da medicação o acompanhamento continua sendo importante para a
manutenção do peso perdido.
As canetas representam um grande avanço no tratamento de pessoas que têm indicação
clínica, mas o uso precisa ser integrado com cuidado multiprofissional que acompanhe
alimentação, sintomas e capacidade física.
A participação do médico, do nutricionista e do profissional de educação física são
fundamentais para transformar as metas em decisões práticas como o que comer, como
se movimentar, quando progredir e quando reavaliar.
A principal orientação é sempre procurar avaliação antes de iniciar e manter
acompanhamento durante o tratamento, não copiar prescrições ou buscar o
emagrecimento mais rápido possível.
Ao observar seus resultados, deve-se incluir perguntas que a balança não responde:
tenho mais disposição? Minha força está preservada? Consigo fazer melhor as
atividades que importam para mim?
Emagrecer é parte de ganhar saúde, o cuidado bem conduzido procura fazer que essa
mudança venha acompanhada de melhor função, bem-estar e condições de manter uma vida ativa.

