Uma pesquisa publicada em setembro revelou que a paralisia cerebral, ou o alto risco para a condição, pode ser identificada antes dos 5 meses de idade.
Esperar a criança crescer para observar se vai sentar, engatinhar ou andar dentro do período esperado não é o único caminho para investigar a paralisia cerebral. Em bebês que apresentam fatores de risco já identificados no nascimento, avaliações especializadas podem levantar a suspeita ou até permitir o diagnóstico ainda nos primeiros meses de vida.
O estudo, divulgado em 11 de setembro deste ano, na revista científica Pediatric Research, reforça essa possibilidade. A pesquisa acompanhou bebês considerados de maior risco para paralisia cerebral e avaliou a viabilidade de implementar uma estratégia de detecção precoce.
Entre as crianças que receberam diagnóstico de paralisia cerebral ou foram classificadas como de alto risco para a condição, a identificação ocorreu, em média, aos 4,3 meses de idade corrigida (ajuste feito na idade de um bebê prematuro subtraindo as semanas que faltaram para completar 40 semanas de gestação).
O trabalho incluiu 78 bebês internados em uma UTI neonatal na Nova Zelândia. Entre os critérios de inclusão estavam nascimento antes de 28 semanas de gestação e, para bebês nascidos posteriormente, fatores como peso inferior a 1.000 gramas, encefalopatia hipóxico-isquêmica, restrição do crescimento intrauterino, alterações relevantes em exames de neuroimagem, meningite ou encefalite, cirurgia cardíaca, além de preocupações clínicas ou dos próprios pais.
Segundo a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn, presidente do SPSP (Núcleo de Estudos da Criança e do Adolescente com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo), estudos como esse ajudam a identificar, entre os bebês que já apresentam fatores de risco, quais precisam de atenção ainda maior. “Hoje existe um esforço muito grande para nos anteciparmos às alterações mais importantes do desenvolvimento. O desafio é conseguir reconhecer, dentro dos grupos que já acompanhamos mais de perto, quais crianças apresentam maior risco e podem precisar de uma intervenção mais precoce”, disse.
Quais bebês merecem maior atenção?
De acordo a Dra. Anna Dominguez, existem situações em que o risco neurológico já é conhecido desde muito cedo. Prematuridade extrema, intercorrências graves no período neonatal, determinadas infecções e condições que provocam lesões neurológicas estão entre os cenários que exigem acompanhamento mais próximo.
No estudo, a prematuridade extrema foi o fator de risco identificável mais frequente: 43,6% dos participantes haviam nascido antes de 28 semanas. Restrição importante do crescimento intrauterino, encefalopatia hipóxico-isquêmica, meningite ou encefalite, convulsões e acidente vascular cerebral neonatal também apareceram entre os fatores encontrados.
Anna ressalta, porém, que pertencer a um grupo de risco não significa que a criança necessariamente desenvolverá paralisia cerebral. “Esse é justamente um dos grandes desafios. Ainda temos dificuldade para estratificar com precisão quais crianças terão maior ou menor comprometimento. O neurodesenvolvimento e a plasticidade cerebral não seguem uma trajetória totalmente previsível. Muitas vezes, inclusive, somos surpreendidos positivamente pela evolução de uma criança”, explicou.
Ferramentas para a avaliação
O estudo não propõe que a paralisia cerebral seja identificada por um único sinal ou exame. Os pesquisadores combinaram neuroimagem com duas avaliações padronizadas do desenvolvimento neurológico: a “General Movements Assessment”, que analisa os movimentos espontâneos do bebê, e o “Hammersmith Infant Neurological Examination”, exame neurológico estruturado utilizado na avaliação de lactentes.
No protocolo da pesquisa, o diagnóstico preliminar de paralisia cerebral era estabelecido quando as três avaliações apresentavam alterações. Quando duas delas estavam alteradas, o bebê era classificado como de alto risco para a condição.
Dos participantes que tiveram avaliações suficientes para definição diagnóstica, dez, equivalentes a 13,5%, receberam diagnóstico de paralisia cerebral ou foram classificados como de alto risco, com idade média de 4,3 meses. Os próprios autores ressaltam que se tratava de uma população previamente selecionada por apresentar fatores de risco e que o acompanhamento continuará sendo necessário para avaliar a precisão dos diagnósticos preliminares.
Para a especialista, esse é um ponto importante para evitar interpretações equivocadas dos resultados. “Não estamos falando em procurar paralisia cerebral indiscriminadamente em todos os bebês. O importante é reconhecer os grupos de maior risco, acompanhá-los de perto e utilizar as ferramentas adequadas quando existe indicação”, afirmou.
Por que descobrir mais cedo importa?
A identificação precoce pode permitir que a criança seja encaminhada mais cedo para acompanhamento especializado e para intervenções direcionadas às suas necessidades, em uma fase de intensa plasticidade cerebral.
“Quanto mais cedo conseguimos intervir, maior é a possibilidade de aproveitar a capacidade de adaptação e desenvolvimento do cérebro nos primeiros anos de vida. Por isso é tão importante avançarmos na identificação das crianças que realmente apresentam maior risco”, concluiu a Dra. Anna.

