O Rio Negro continua em queda e atingiu a marca de 16,52 metros nesta quinta-feira (29), agravando as dificuldades enfrentadas por moradores de comunidades ribeirinhas de Manaus. Na região da Marina do Davi, na zona Oeste da capital, a estiagem aumenta as distâncias até os pontos de embarque, encarece o transporte fluvial e compromete o deslocamento de passageiros e o abastecimento de produtos.
Atualmente, mais de 120 mil famílias são afetadas pela estiagem no Amazonas. Ao todo, 47 municípios estão em situação de emergência, enquanto Manaus permanece em alerta. Na zona rural da capital, a descida do nível do rio já altera a rotina de quem depende das embarcações para chegar à cidade.
Moradora da comunidade São Sebastião, no Tarumã-Mirim, Ana Cláudia precisa ir a Manaus pelo menos uma vez por mês para fazer as compras. Com a redução do nível do Rio Negro, o percurso ficou mais demorado e caro. Segundo ela, o deslocamento até a Marina do Davi custa cerca de R$ 100 e pode levar mais de uma hora, com a necessidade de utilizar duas embarcações.
“É 1h30 de viagem, porque eu pego rabeta táxi, fico na comunidade de Fátima e de lá a gente pega outra embarcação pra chegar até aqui na Marina”, relatou.
Quem trabalha com o transporte fluvial e o turismo na região também sente os impactos da estiagem. O marítimo João Alves afirma que as condições de navegação estão cada vez mais difíceis. Com o afastamento das águas, é necessário percorrer quase dois quilômetros para chegar à comunidade.
“Não tem onde a gente encostar, a estiagem é muito grande”, disse.
O cenário também provocou uma queda significativa no movimento de passageiros. O marítimo José Silva estima uma redução de 80% na quantidade de pessoas transportadas. Além da diminuição da demanda, ele aponta os riscos de navegar em trechos com pouca profundidade, que podem causar danos às embarcações.
“Caiu muito, 80%, porque tem dias que a gente sai com quatro passageiros, seis, oito quando você dá sorte. Se secar mais uns 80 centímetros nós vamos ter que parar porque não vai ter condições”, afirmou.
Transporte mais caro afeta abastecimento
A estiagem também interfere no abastecimento das comunidades ribeirinhas e provoca aumento no preço de produtos. Com o nível do rio mais baixo, embarcações de grande porte deixam de conseguir acessar alguns trechos, obrigando comerciantes a utilizar barcos menores e realizar mais viagens para transportar as mercadorias.
O comerciante Maurício Tavares explica que a mudança encarece o frete e acaba sendo repassada aos consumidores. Segundo ele, produtos como a melancia chegaram a ser vendidos pela metade do preço antes do agravamento da seca.
“A gente tem uns barcos maiores, só que agora não dá pra navegar, então a gente diminui e acaba fazendo o frete mais caro. Mais viagens todos os dias”, explicou.
Além dos alimentos, a compra de itens básicos, como gás de cozinha e água, também se torna mais difícil durante o período de vazante.
Seca expõe lixo e preocupa moradores
Na comunidade Marina do Davi, os efeitos da estiagem também evidenciam problemas de infraestrutura. Moradores reclamam de dificuldades no fornecimento de energia elétrica e da quantidade de resíduos acumulados nas margens e na água, situação que preocupa quem vive na região.
A Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) informou que realiza a coleta de resíduos por meio de balsas três vezes por semana. Apesar disso, moradores avaliam que o serviço precisa ser reforçado para atender à demanda da comunidade.
A líder comunitária Sara Guedes cobra melhorias na coleta e afirma que é necessária uma balsa de maior capacidade. Segundo ela, embora os moradores tenham adotado práticas de descarte adequado, grande parte do lixo encontrado nas margens chega de outras áreas da cidade.
“A comunidade, eu costumo dizer que ela se reeducou, então ela dá um descarte correto ao nosso lixo, mas e esse monte de lixo na água, na beirada? Esse lixo vem todo da cidade, o igarapé do Gigante desemboca aqui, de onde esse lixo todo vem, e as pessoas que moram na cidade ainda não tiveram o bom senso de dar o descarte correto”, afirmou.
Mesmo acostumados com os períodos de estiagem, os ribeirinhos enfrentam dificuldades todos os anos durante a vazante. Com o rio em níveis mais elevados, o acesso às comunidades, o transporte de passageiros e o abastecimento de mercadorias são facilitados. Já durante a seca, as distâncias aumentam e atividades essenciais passam a depender de deslocamentos mais longos e custosos.

