Peças produzidas por povos indígenas da Amazônia chegaram a Paris, na França, em setembro, como parte de uma iniciativa voltada à inserção do artesanato brasileiro no mercado internacional. Os produtos foram apresentados a compradores, lojistas e profissionais dos setores de design e decoração durante uma programação que reuniu representantes de diferentes países.
A ação integrou a segunda edição da Jornada Exportadora do Artesanato, promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Mais de 600 negócios se inscreveram para participar da iniciativa, mas apenas 20 empresas, associações e cooperativas foram selecionadas.
A programação contou com seminários sobre os mercados francês e europeu, visitas técnicas e rodadas de negócios com compradores estrangeiros.
Entre os selecionados estava a Tucum Brasil, plataforma dedicada à comercialização de arte indígena brasileira e integrante do portfólio da AMAZ Aceleradora. A iniciativa é coordenada pelo Idesam – Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia, organização que atua na Amazônia com práticas sustentáveis, inovação e bioeconomia, além de trabalhar com comunidades tradicionais, negócios e organizações para fortalecer cadeias produtivas.
A empresa também esteve entre as 10 iniciativas escolhidas para apresentar produtos na Maison&Objet, feira de design de interiores realizada duas vezes por ano em Paris e considerada um dos principais eventos europeus do setor.
A Tucum integrou a exposição “Brasil Nostálgic”, montada no estande da ApexBrasil e com produtos selecionados pelo curador Bruno Simões.
A participação permitiu que peças produzidas por diferentes povos indígenas brasileiros fossem apresentadas diretamente a profissionais e potenciais compradores dos mercados de design, decoração e objetos. Para a empresa, além da possibilidade de novos negócios, a experiência ajudou a compreender as exigências e oportunidades relacionadas à exportação desse tipo de produção.
Segundo Amanda Santana, fundadora e gestora da Tucum, a empresa manteve contato com mais de 15 potenciais compradores e lojistas durante a programação. Os interessados eram da França, Grécia, Islândia, Reino Unido e Bélgica, além de brasileiros que possuem negócios na Europa.
“Foi uma oportunidade tanto para a Tucum estabelecer contato e, de repente, fechar negócios em maior escala com esses compradores quanto para aprender também”, afirma.
Produção indígena enfrenta desafios para chegar ao exterior
A comercialização internacional de uma peça produzida em uma comunidade indígena envolve uma cadeia que vai além da busca por compradores. O processo considera o tempo necessário para a produção, a rotina das comunidades, a definição dos preços e os desafios logísticos para transportar os produtos desde territórios muitas vezes localizados em áreas remotas da Amazônia.
De acordo com Amanda Santana, o artesanato indígena possui uma dinâmica própria e não necessariamente segue um modelo de produção contínua ou em larga escala. A confecção das peças é realizada de acordo com a rotina de cada comunidade e precisa ser conciliada com outras atividades.
“Esse fazer acontece em determinados momentos que são separados para isso. Isso implica também na forma como a gente escala e na forma como a gente forma o preço”, explica.
A logística é outro desafio. Antes de chegar ao consumidor estrangeiro, produtos fabricados em comunidades distantes precisam passar por diferentes etapas de transporte até alcançar centros como Manaus e Rio de Janeiro, de onde podem ser enviados para outros países.
“Temos a complexa logística de retirar um produto de dentro da floresta para chegar ao Rio de Janeiro ou chegar em Manaus e depois ser despachado para outro país, em outra parte do mundo”, relata.
Para a empresa, ampliar a presença internacional do artesanato indígena exige, portanto, uma estratégia que considere as características da produção nas comunidades e garanta condições comerciais viáveis também para quem está na origem dos produtos.
Tucum participa pela primeira vez da Maison&Objet
A participação na Maison&Objet foi a primeira da Tucum na tradicional feira francesa. A empresa apresentou produtos na exposição “Brasil Nostálgic”, dentro do espaço da ApexBrasil.
Segundo Amanda, a presença no evento representou uma oportunidade diferente das tradicionais rodadas de negócios, já que colocou as peças em contato direto com um público ligado ao design, à decoração e ao mercado de objetos.
“Foi a primeira vez que a gente participou de uma feira dessas. Achei muito importante para a gente colocar o nosso produto nesse circuito”, afirma.
A Tucum também recebeu uma Bolsa Exportação da ApexBrasil, no valor de R$ 20 mil. O recurso poderá ser utilizado para apoiar a participação da empresa em outros eventos de promoção comercial organizados pela agência.
Dos 20 negócios, associações e cooperativas selecionados para a Jornada Exportadora do Artesanato, 95% dos participantes eram mulheres, segundo informações apresentadas pela Tucum.
Plataforma reúne produção de povos indígenas
Fundada em 2013, no Rio de Janeiro, a Tucum começou como uma loja física. Dois anos depois, em 2015, passou a funcionar como marketplace voltado à comercialização de arte indígena, reunindo produtos de diferentes povos e territórios.
Atualmente, a plataforma atua em quatro Unidades de Conservação e 56 Terras Indígenas distribuídas por oito estados da Amazônia Legal. A rede reúne associações, cooperativas, grupos e artistas indígenas.
O catálogo inclui roupas, bolsas, biojoias, peças de artesanato, pinturas e objetos de decoração.
Em 2024, a Tucum comprou R$ 538 mil em mercadorias, beneficiando artesãos e artesãs de 106 povos indígenas distribuídos em 62 territórios tradicionais. Entre os povos parceiros estão Baniwa, Baré, Guarani, Kayapó, Ticuna e Yanomami.
A empresa já havia participado de uma ação internacional antes da agenda em Paris. Em 2025, integrou a Jornada Exportadora do Artesanato realizada em Lisboa, Portugal.
Para Amanda, a participação em duas edições consecutivas permitiu à empresa acumular experiência e chegar à programação na França com novos aprendizados.
“Eu tenho certeza que ter participado dessa segunda jornada trouxe mais aprendizados e que a gente também teve contato com mais compradores, compradores mais qualificados. Acho que vão surgir bons negócios”, avalia.
A fundadora afirma que a ampliação do acesso a mercados internacionais pode contribuir para aumentar a geração de renda nas comunidades responsáveis pela produção.
“Na nossa missão de valorizar e promover as artes indígenas do Brasil, a Tucum vê na exportação uma oportunidade de gerar mais renda e impactos positivos para as artistas que mantêm seu território com a floresta de pé”, afirma.
A Tucum integra o portfólio da AMAZ Aceleradora, iniciativa coordenada pelo Idesam. O Instituto também mantém parceria com a Fundação Rede Amazônica em ações relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à valorização de soluções voltadas à Amazônia.

