O avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio tem elevado a percepção de risco no sistema financeiro e já acende um alerta entre os bancos, que não descartam ajustes nas regras para conter distorções no uso do instrumento.
A avaliação foi feita pelo diretor de Agronegócio do Bradesco, Roberto França, durante coletiva de imprensa no Show Rural Coopavel 2026, que ocorre nesta semana em Cascavel (PR).
Embora a recuperação judicial seja um mecanismo legal para reorganização de dívidas, França afirmou que parte dos pedidos não está necessariamente ligada à incapacidade operacional do produtor, mas a um uso considerado excessivo da ferramenta.
“Desde que foi ajustada a legislação, é um instituto que o produtor pode usar, mas a gente vê um uso demasiado, até por incentivo de advogados e não pela necessidade do produtor rural pedir recuperação judicial”, disse.
Segundo o executivo, muitos produtores só percebem os efeitos da decisão após o início do processo, quando passam a enfrentar restrições relevantes de crédito, fator essencial para a continuidade da atividade.
“Muitos produtores, depois que o processo começa, percebem que perdem o controle da atividade e a capacidade creditícia. Você não toca nenhuma atividade econômica sem ter crédito”, afirmou na ocasião
Na leitura do banco, a disseminação dos pedidos contribuiu para aumentar a insegurança nas concessões e, como consequência, pressionou o custo do financiamento para todo o setor.
“Esse uso demasiado colocou um freio no mercado financeiro. Com mais risco e mais insegurança, o crédito fica mais caro para todos”, destacou.
Apesar do cenário, França afirmou que a maior parte da carteira segue em situação regular e que a estratégia tem sido antecipar negociações para evitar o agravamento do endividamento.
“Mais de 90% da nossa base de clientes estão saudáveis, em operações recorrentes, sem atraso. A gente procura trazer o cliente para a discussão antes do vencimento e alongar prazo para que ele possa retomar a atividade”, disse.
Aumento de custos
Para o diretor, o momento atual do agronegócio não reflete uma crise produtiva, mas sim os efeitos do aumento do custo financeiro após um ciclo de forte expansão no campo.
“Inadimplência não é falta de vontade de pagar. É não ter recurso”, afirmou.
Diante desse ambiente, o executivo afirmou que o tema já entrou no radar das autoridades e pode resultar em mudanças regulatórias.
“Talvez venha aí uma nova regulação para poder limitar o uso da recuperação judicial”, disse.

