A demora e as negativas do governo brasileiro na concessão de vistos a diplomatas e funcionários norte-americanos que pretendem visitar o Brasil estão entre as principais causas da atual crise diplomática entre Brasília e Washington.
De certa forma, até mais do que a suposta demora do governo em aceitar a indicação do embaixador nomeado dos Estados Unidos a Brasília, Daniel Perez.
Departamento de Estado norte-americano está irritadíssimo com o processo de avaliação para a entrega de vistos brasileiros, que passou a ser muito mais restrito desde o início dos atritos entre os dois países, no ano passado.
Essa verdadeira guerra dos vistos começou quando os Estados Unidos revogaram, no ano passado, a autorização de entrada no país do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família, incluindo a filha, de 10 anos de idade na época.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, desde então o processo de emissão dos vistos aos representantes do governo Trump passou a ser um assunto tão delicado que precisa ser aprovado diretamente pelo Palácio do Planalto, e não apenas pelo Itamaraty.
Neste momento, entre 10 e 20 pedidos de visto para funcionários de vários departamentos do governo norte-americano estariam parados ou já teriam sido negados por Brasília.
Os pedidos incluiriam não apenas diplomatas e autoridades, mas também funcionários de departamentos que colaboram com o Brasil, incluindo agentes de justiça e segurança.
O mesmo também foi apurado pelo analista de política, Caio Junqueira.
O Brasil, assim como qualquer país, tem o direito de negar ou autorizar os vistos conforme suas análises internas, mas alguns precedentes explicam a irritação norte-americana.
Desde o início deste ano, o governo brasileiro negou vistos a pelo menos três diplomatas norte-americanos. O primeiro aconteceu em março, quando Brasília revogou a autorização de viagem que chegou a ser emitida ao conselheiro sênior do Departamento de Estado, Darren Beattie.
O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, na ocasião, que o cancelamento foi uma resposta ao caso de Padilha.
O Itamaraty, na época, também obteve informações de que Beattie, um ultraconservador responsável parcialmente pelas políticas relacionadas ao Brasil, planejava visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro e teria apresentado informações falsas para pedir o visto.
No dia 25 de julho deste ano, o governo brasileiro também negou vistos aos diplomatas Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado.
No caso deles, o jornal The Washington Post revelou que os dois tinham a intenção de vir ao Brasil para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro, o que foi visto como uma tentativa de influenciar o resultado das eleições presidenciais.
O vai e vem dos vistos acabou culminando com a decisão do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de cancelar o visto da própria embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, gerando a pior crise diplomática nos mais de 200 anos de história nas relações diplomáticas entre os dois países.

