Sentadas a apenas duas fileiras de distância em um tribunal de Provo, no estado americano de Utah, a viúva do ativista conservador Charlie Kirk e a mãe de seu suposto assassino, Tyler Robinson, estavam visivelmente emocionadas enquanto o juiz determinava que o caso poderia ir a julgamento.
Familiares de Kirk e Robinson alternaram entre se inclinar, olhar para cima, chorar e enxugar as lágrimas durante a última hora da audiência preliminar desta terça-feira (1º), enquanto ouviam o juiz do Tribunal Distrital de Utah, Tony Graf, recontar os acontecimentos que levaram ao tiroteio em um campus universitário de Utah, quase um ano atrás.
Robinson, de 23 anos, se declarou inocente durante uma audiência de acusação, depois que o juiz decidiu haver causa provável suficiente para que ele fosse julgado pelas sete acusações, incluindo homicídio qualificado e disparo criminoso de arma de fogo que causou lesões corporais graves.
Os promotores disseram que pretendem pedir a pena de morte caso ele seja condenado por homicídio qualificado.
A acusação e a defesa apresentaram suas alegações finais nesta terça-feira (1º), durante a segunda audiência preliminar desde julho. Esse tipo de procedimento tem como objetivo limitado permitir que um juiz determine se há justificativa para as acusações. Advogados de defesa frequentemente usam a audiência para questionar a credibilidade das provas ou das testemunhas apresentadas.
A decisão do juiz, quase um ano após a morte de Kirk, é um “passo importante na busca por justiça de nossa família”, disse a família dele em um comunicado divulgado após a decisão.
Enquanto os promotores apresentavam suas alegações finais, os pais de Charlie Kirk, Rob e Kathryn Kirk, e sua viúva, Erika Kirk, estavam visivelmente emocionados e, em vários momentos, pareciam confortar uns aos outros.
Do outro lado da sala estava Amber Robinson, que demonstrou ser a mais emocionada entre os familiares de Robinson durante toda a audiência, enquanto ouvia as acusações contra o filho.
Veja o que aconteceu na audiência e quais são os próximos passos:
Emoção aumenta quando juiz lê decisão
Por volta das 17h15 no horário local, o juiz Graf começou a ler a decisão. A mãe de Robinson quase imediatamente começou a chorar, enxugando as lágrimas enquanto o ouvia.
Quando o juiz começou a relatar os fatos relacionados ao evento da Turning Point USA na Universidade do Vale de Utah, em Orem, onde Kirk foi morto a tiros, Erika Kirk enxugou as lágrimas e se inclinou para a frente, enquanto uma pessoa não identificada ao seu lado fazia carinho em suas costas.
O pai de Robinson fechou os olhos e se inclinou para a frente enquanto Graf descrevia mensagens que seu filho enviou ao ex-colega de quarto e parceiro romântico, Lance Twiggs, pedindo que ele não falasse com a polícia.
Ele segurou a mão da esposa enquanto Graf lia sua decisão e repetia a acusação de homicídio qualificado, que pode levar o filho do casal à pena de morte caso seja condenado. Amber Robinson tentou conter as lágrimas, com os olhos vermelhos e marejados.
Duas fileiras atrás estavam o pai de Charlie Kirk, inclinado para a frente, e sua mãe, que não reagia fisicamente, mas acompanhava o que o juiz dizia. Erika Kirk enxugou as lágrimas e se inclinou para a frente, cobrindo a boca enquanto Graf continuava a ler a decisão.
Quando o advogado da família Kirk afirmou que Charlie Kirk defendia o oposto do ódio, Erika Kirk chorou e assentiu.
O resultado da audiência era, de certa forma, esperado pelas duas famílias; a família Kirk aparentemente demonstrou alívio.
A próxima audiência está marcada para 23 de outubro. Na ocasião, o juiz deverá definir uma data para o julgamento.
O que os promotores disseram nas alegações finais
Robinson, vestido com um terno cinza-claro e gravata escura, sentou-se entre seus advogados e conversou com eles antes da audiência. Em determinado momento, foi visto sorrindo, em contraste com sua postura geralmente impassível durante as audiências.
Erika Kirk também usava uma jaqueta cinza e estava sentada ao lado dos pais de Charlie Kirk. Quando o juiz discutiu se imagens estáticas do vídeo do tiroteio seriam exibidas no tribunal, ela brevemente segurou a cabeça com as mãos.
Seu marido, de 31 anos, havia conquistado amplo reconhecimento por sua retórica contundente e frequentemente agressiva sobre questões controversas como cofundador da organização conservadora sem fins lucrativos Turning Point USA.
As notícias, acompanhadas de vídeos gráficos, do tiroteio em 10 de setembro de 2025 se espalharam muito além da comunidade universitária abalada de Orem, enquanto uma intensa caçada de mais de 30 horas pelo atirador de Kirk era realizada.
A busca terminou quando Robinson se entregou à polícia local, acompanhado pelos pais, que reconheceram sua foto nas notícias e o convenceram a se entregar.
No início das alegações finais da acusação, o promotor adjunto do condado de Utah, Ryan McBride, afirmou que as provas mostram que Robinson matou Kirk “porque discordava dele”.
Segundo McBride, as provas que demonstram causa provável suficiente para levar o caso a julgamento mostram que Robinson disparou um rifle de alta potência contra a multidão que acompanhava a fala de Kirk na universidade.
Depois de avaliar pontos de observação no campus, McBride disse que Robinson voltou à universidade “vestido para matar”, após trocar de roupa e vestir uma camisa preta e uma calça comprida para “esconder o rifle que havia ocultado dentro da calça”.
Robinson foi visto por câmeras mais cedo naquele dia avaliando os locais antes de retornar armado, continuou o promotor. Em seguida, ele usou uma chave de fenda deixada no local para remontar parte do rifle e foi até o telhado, afirmou McBride.
Enquanto estava deitado em posição de tiro, Robinson teria visto a multidão de mais de 3 mil pessoas reunidas para o evento, mirado, colocado a mira sobre Charlie Kirk e disparado, acrescentou o promotor.
Com isso, argumentou o promotor, a circunstância agravante incluída nas acusações contra Robinson é válida porque ele conscientemente criou um risco de morte para todos que estavam nas proximidades. Depoimentos indicam que Robinson estava a cerca de 126 metros de Kirk quando disparou o rifle, uma distância na qual, segundo os promotores, o tiro poderia ter atingido alguém próximo ao alvo caso o cano se movesse apenas cerca de 1,3 centímetro.
Erika Kirk e outros familiares deixaram o tribunal assim que McBride começou a discutir detalhes do relatório do médico-legista que descrevia como seu marido foi morto.
No início das alegações finais de McBride, ele apresentou detalhes do relatório, segundo o qual a bala supostamente disparada por Robinson atingiu e despedaçou a coluna de Kirk.
Depois que a família Kirk voltou à sala, Erika Kirk olhou para o chão enquanto McBride concluía sua argumentação.
Por que a defesa contesta a circunstância agravante
Após o encerramento das alegações finais da acusação, a equipe de defesa de Robinson apresentou seus argumentos, antes que os promotores tivessem direito a uma réplica.
A advogada de defesa Staci Visser afirmou que as condições para incluir o “risco de morte” como circunstância agravante não foram atendidas e citou vários casos anteriores que, segundo ela, estabeleceram três fatores a serem considerados.
Eles incluem a relação entre o assassinato e o risco imposto a outras pessoas, a relação espacial entre a vítima e outras pessoas e a extensão em que outras pessoas foram ameaçadas.
“Não houve ameaças reais do agressor a terceiros. Não houve nenhuma prova que sugerisse que qualquer outra pessoa estivesse ameaçada”, disse ela.
Visser também contestou a interpretação das provas apresentada pela acusação, argumentando que ela se baseia em especulações.
“O Estado pede ao tribunal que tire conclusões a partir de provas que parecem ter sido apresentadas principalmente para estabelecer a identidade, mas que agora está tentando interpretar de modo a demonstrar conhecimento”, afirmou.
Richard Novak, outro advogado de defesa, argumentou então que mensagens que Robinson teria enviado a Twiggs, discutindo um rifle, possível motivação e outros detalhes sobre o planejamento do evento, devem ser provas importantes no caso apresentado pelo Estado.
As mensagens foram divulgadas em documentos de acusação no ano passado, que também se referem ao colega de quarto como parceiro romântico de Robinson.
A CNN transcreveu as mensagens, que a polícia diz terem sido entregues por Twiggs, a partir dos documentos de acusação. Nelas, Robinson responde “Sou eu, me desculpe” à pergunta do ex-colega de quarto sobre se ele havia sido a pessoa que matou Kirk.
A jurisprudência exige que o tribunal determine se as declarações de Robinson tinham “a intenção de obstruir a Justiça ou eram altruístas”, disse Novak.
O tribunal precisa determinar se há causa provável e se Charlie Kirk “foi alvo por causa de suas manifestações políticas”, do ponto de vista de Robinson, acrescentou.
Segundo ele, não há provas em depoimentos anteriores ou declarações públicas que revelem quais opiniões Robinson tinha — se é que tinha alguma — sobre Kirk, e a conclusão nesse sentido é “inflamatória”.
O que aconteceu no tribunal nos meses que antecederam a decisão
Em sua réplica, o último argumento da audiência antes da decisão do juiz, o promotor Chad Grunander disse que os advogados podem falar sobre as provas e “as conclusões sobre o que aconteceria”.
Grunander voltou a abordar a distância entre o atirador e Kirk — 126 metros — e a grande margem de erro que separava Kirk das pessoas ao seu redor, no que descreveu como uma “zona de perigo”.
A área estava “cheia de pessoas” que se movimentavam e mudavam de posição, o que representava um grande risco de morte, acrescentou.
As duas partes tiveram seis semanas entre os argumentos iniciais e as alegações finais. Nesse período, apresentaram suas manifestações escritas resumindo os casos e se prepararam para as alegações finais.
Antes da audiência desta terça-feira (1º), os argumentos ocorreram durante cinco dias na semana de 6 de julho. Os promotores dividiram o caso em quatro categorias: provas em vídeo, provas circunstanciais, provas de DNA e o que descreveram como “confissões” de Robinson.
Imagens de câmeras de segurança da Universidade do Vale de Utah foram usadas para criar uma linha do tempo dos supostos movimentos de Robinson no dia do assassinato de Kirk. Um investigador afirmou que Robinson pode ser visto quatro vezes no campus da UVU no dia em que Kirk foi morto, inclusive imediatamente antes e depois do tiroteio.
Vídeos do evento publicados nas redes sociais, imagens profissionais encomendadas pela Turning Point USA e gravações da campainha Nest também foram apresentadas como provas.
Provas circunstanciais foram usadas para ligar Robinson ao local, como um rifle encontrado enrolado em uma toalha em uma área arborizada perto do campus e quatro munições com mensagens gravadas nas laterais, mostraram os promotores.
A defesa de Robinson, por sua vez, tentou desacreditar as testemunhas do Estado e as interpretações de dados feitas por peritos forenses.
As evidências das “confissões” de Robinson, como os promotores as chamaram, vieram de cartas, mensagens e, principalmente, de um depoimento gravado em vídeo de Twiggs.
“Eu tive a oportunidade de eliminar Charlie Kirk e aproveitei”, escreveram os promotores, citando uma nota que Robinson teria deixado para Twiggs.

