Começa nesta quinta-feira (3) o embargo da União Europeia a produtos de origem animal do Brasil. Com a medida, o país fica impedido de exportar carne bovina, suína, frango, mel, pescados e ovos para as 27 nações do bloco.
A decisão pode ser revertida, a depender das negociações entre a UE e o governo brasileiro. Nesta semana, por exemplo, o bloco realiza no Brasil uma auditoria nas cadeias de produção de frango e mel, que deve ser concluída até sexta-feira (4). O resultado, porém, ainda será analisado pela UE, processo que deve levar cerca de dois meses.
“O Brasil é um parceiro importante para a União Europeia, e estamos trabalhando de forma próxima […] com as autoridades brasileiras para garantir o cumprimento dessas exigências. Assim que essa conformidade for comprovada, as exportações para a UE poderão ser retomadas”, afirmou uma porta-voz da Comissão Europeia à AFP na segunda-feira (31).
A UE anunciou a medida em maio, após excluir o Brasil da lista de países que cumprem as suas regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. Essas substâncias são usadas para tratar infecções em animais, mas o bloco proíbe seu uso para estimular o crescimento. Também proíbe o uso, em animais, de antimicrobianos reservados ao tratamento de seres humanos.
A medida não foi motivada por irregularidades encontradas na carne brasileira, mas pela avaliação da União Europeia de que o controle feito pelo Brasil sobre o uso dessas substâncias é insuficiente.
As carnes bovina e de frango são os produtos mais afetados, pois estão entre os itens de origem animal mais exportados pelo Brasil para a UE. Ainda assim, representam uma parcela pequena do valor total exportado pelo país.
Representantes do agro brasileiro viram na medida um ato protecionista, uma vez que a decisão foi anunciada dias após a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul.
O tratado foi alvo de forte resistência de agricultores europeus, que temem a concorrência de produtos sul-americanos mais baratos, sobretudo do Brasil, principal exportador agrícola do Mercosul para a União Europeia.
Os demais países do bloco — Argentina, Paraguai e Uruguai — seguem autorizados a exportar para os europeus.
Na quarta-feira (2), a Confederação Italiana de Agricultores (Cia-Agricoltori Italiani), uma das maiores entidades do setor na Itália, apoiou o bloqueio e disse que a decisão “representa uma possível mudança de rumo na política comercial do bloco”, segundo informou a agência de notícias italiana Ansa Brasil.
A Itália é a maior compradora de carne bovina brasileira na UE, em volume, segundo dados de 2025 do Agrostat, sistema do Ministério da Agricultura.
“É uma decisão importante, que vai ao encontro do que a Cia defende há muito tempo”, afirmou o presidente nacional da organização, Cristiano Fini.
Segundo ele, a Europa deve assegurar “regras e condições iguais para todos”, para que os acordos comerciais promovam crescimento econômico, e não dificuldades para as empresas europeias.
Como foram as negociações e o que o Brasil propôs
O governo brasileiro negocia com a UE desde o anúncio da decisão. Em abril, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo o uso de alguns antimicrobianos, como avoparcina, virginiamicina e bacitracina. No mês seguinte, o governo brasileiro propôs à UE um período de transição, mas o bloco recusou a proposta.
Em junho, o governo anunciou um novo protocolo de controle sobre uso de antimicrobianos na pecuária. As regras preveem o rastreamento do animal desde o nascimento até o abate para comprovar que essas substâncias não foram utilizadas.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), 100% das empresas associadas e habilitadas para exportar para a União Europeia já adeririam a este protocolo. A UE, contudo, ainda não reverteu a sua decisão.
O novo protocolo foi desenvolvido pela Abiec em parceria com a Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Mesmo que a UE voltasse atrás, o Brasil ainda levaria pelo menos dois anos para retomar as exportações de carne bovina para o bloco. Isso porque um animal que comece hoje a seguir os novos protocolos sobre antimicrobianos levará de 24 a 36 meses para estar pronto para o abate dentro das novas regras.
No caso do frango, o ciclo é mais curto: são cerca de 45 dias entre o nascimento e o abate.
Em julho, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, afirmou que o setor sempre manteve separada a produção de frango destinada à UE daquela enviada a outros mercados.
Segundo ele, a principal mudança é o aumento das fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos, já previstas no Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC).
“Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, não usamos promotores de crescimento para a União Europeia nem antibióticos de uso humano. Empresas do Brasil não estão fazendo nada diferente do que sempre fizeram. Sempre segregamos”, destacou Santin.
Para os produtores de carne bovina que já exportam para a UE, as mudanças também não devem exigir grandes adaptações.
Em entrevista, o pecuarista André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, afirmou que não usa antimicrobianos em seu rebanho há anos. Ele exporta pela Cota Hilton, modalidade de exportação de carnes nobres com tarifa reduzida que proíbe o uso dessas substâncias durante toda a vida do animal.
“Quem faz cota Hilton não usa antimicrobiano há muito tempo. Mas a maioria da carne que vai para a Europa não é Hilton, é lista Trace, uma categoria em que o produtor só precisa comprovar que não usou antimicrobiano nos últimos 100 dias de vida do animal. Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação”, disse Bartocci.
O que o setor diz
Santin, da ABPA, espera que as exportações de frango para a UE sejam retomadas ainda neste ano. Isso, porém, depende da conclusão da auditoria que o bloco realiza nesta semana no Brasil.
O resultado da inspeção ainda precisa ser analisado pelo SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), órgão da Comissão Europeia que tem reunião marcada apenas para novembro.
Caso o bloqueio não seja revertido ou se prolongue, Santin afirma que o setor pode redirecionar a produção de frango destinada à Europa para o mercado interno e para os cerca de 150 países que já compram o produto brasileiro.
“Já ficamos sem vender para a União Europeia quatro meses no ano passado [por causa da gripe aviária]. […] O difícil seria se a gente ficasse sem o Oriente Médio”, destacou.
Já a Abiec vê o novo cenário com “preocupação”. Embora a UE responda por apenas 5,8% das exportações brasileiras de carne bovina, é um “mercado estratégico” por comprar cortes nobres, de “alto valor agregado”.
“A carne bovina brasileira seguirá sendo comercializada nos mercados para os quais estiver habilitada, mas não há substituição automática do mercado europeu, uma vez que diferentes destinos demandam produtos e cortes distintos”, disse a entidade, em nota.
“Por isso, a prioridade da Abiec é contribuir para que esse fluxo comercial seja restabelecido no menor prazo possível”, acrescentou a associação, afirmando que trabalha em conjunto com o governo brasileiro para tentar reverter a medida.
Exportações de mel cresciam até o veto europeu
Embora o mel represente uma parcela pequena das exportações brasileiras para a União Europeia, as vendas para o bloco vinham crescendo por causa do tarifaço imposto por Donald Trump, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo.
Com a sobretaxa tornando as vendas para os EUA mais caras, os produtores redirecionaram parte das exportações de mel para a Europa. Segundo Azevedo, as vendas ao bloco dobraram no primeiro semestre deste ano, chegando a US$ 6,3 milhões.
“O veto da UE acabou sendo um ‘balde de água fria’ nos esforços dos exportadores, que já estavam colhendo frutos de um trabalho de ampliação de mercado”, afirma Azevedo.
“No caso específico do mel, não enxergamos risco desse controle encontrar problemas de contaminação. O mel brasileiro exportado é, em grande maioria, orgânico, que já conta com uma cadeia de certificação que tem por objetivo garantir um produto livre de resíduos e antibióticos”, explica.
Segundo ele, o principal risco para o setor é a chamada “contaminação cruzada”. “Se houver uma colmeia próxima a uma área de criação de gado, por exemplo, existe a possibilidade de resíduos chegarem ao mel. Por isso, o controle é importante para evitar esse tipo de contaminação”, afirma.

