Estudantes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) participaram, em setembro, da Latin America Space Challenge (LASC), competição internacional de foguetes realizada em Iacanga, no interior de São Paulo. A equipe Vento Norte UEA afirma ter se tornado a primeira da Região Norte do Brasil a realizar um lançamento durante o evento.
O grupo amazonense levou para a competição o foguete Zagaia, desenvolvido ao longo de nove meses por 41 estudantes de diferentes cursos de Engenharia da UEA. A equipe disputou a categoria de apogeu de 1 quilômetro, alcançou a 20ª colocação entre 49 participantes da modalidade e terminou em 42º lugar na classificação geral, que reuniu 102 equipes.
Segundo Marcos Vinicius Oliveira de Mesquita, de 21 anos, capitão da Vento Norte UEA e estudante de Engenharia de Produção, o pioneirismo da equipe foi reconhecido pela organização da competição.
“Somos a primeira equipe da Região Norte do Brasil a realizar um lançamento na competição e esse feito foi reconhecido pela própria comissão organizadora”, afirmou.
A 7ª edição da LASC ocorreu entre os dias 2 e 5 de setembro e reuniu participantes de universidades brasileiras e de países como Chile, Peru, México e Índia.
Nove meses de preparação
O Zagaia foi desenvolvido para alcançar um apogeu de 1 quilômetro. O foguete possui 1,69 metro de altura, estrutura de fibra de vidro e motor de classe K.
O equipamento também conta com um sistema de aviônica, responsável pelo monitoramento eletrônico do voo, além de dois paraquedas. Um deles é utilizado para aumentar o arrasto e reduzir a velocidade durante a descida, enquanto o principal tem a função de auxiliar na recuperação do foguete.
O desenvolvimento do projeto começou cerca de nove meses antes da competição, período em que os estudantes trabalharam em etapas de modelagem, simulação, testes e construção. Somente a fase de manufatura levou aproximadamente cinco meses.
O investimento no projeto foi de cerca de R$ 12 mil. Para arrecadar os recursos, os integrantes buscaram patrocínios, receberam materiais de empresas parceiras e realizaram ações como rifas e venda de alimentos. Também houve contribuição entre os próprios setores da equipe.
A Vento Norte UEA é formada por estudantes de Engenharia Mecânica, Engenharia de Controle e Automação, Engenharia da Computação, Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica, Engenharia Eletrônica, Engenharia de Materiais, Engenharia Química e Engenharia Civil.

Lançamento teve falha no sistema de recuperação
O momento mais aguardado pelos estudantes foi o lançamento do Zagaia. Depois de meses de preparação, o foguete deixou a plataforma, mas o voo não ocorreu exatamente como havia sido planejado.
Segundo a equipe, o foguete realizou um voo balístico e os paraquedas não foram acionados. A avaliação dos integrantes é de que o calor provocou o superaquecimento do sistema eletrônico, comprometendo a comunicação necessária para o acionamento do mecanismo de recuperação.
Apesar da falha, os estudantes consideram a participação na competição um passo importante para o desenvolvimento dos próximos projetos.
“Definitivamente, o lançamento do foguete. Depois que ele saiu do trilho, ficamos muito felizes, pois todo esforço havia valido a pena”, relatou Marcos.
A experiência deverá ser utilizada para aperfeiçoar o sistema de recuperação e os componentes eletrônicos do próximo foguete desenvolvido pela equipe.
Estudantes apontam falta de estrutura no Amazonas
Além da participação na competição, o projeto também colocou em evidência, segundo os estudantes, os desafios para desenvolver pesquisas relacionadas à área aeroespacial no Amazonas.
A equipe afirma que atualmente não existe no estado um laboratório dedicado diretamente à ciência aeroespacial e que os integrantes também não contam com um espaço físico fixo dentro da universidade para desenvolver os projetos.
Para Marcos, a falta de estrutura pode levar jovens interessados na área a procurar formação e oportunidades em outros estados.
“A iniciativa é importante porque, atualmente, essa é uma área desatualizada em nosso Estado e é de grande interesse para os jovens talentos que buscam pesquisar e entender mais sobre. Muitos deles viajam para outros estados para poder cursar a área de engenharia aeroespacial devido a essa falta de espaço para essa ciência”, afirmou.
Até o momento, de acordo com a equipe, o principal apoio institucional veio da própria UEA, que contribuiu para a divulgação do projeto e possibilitou a continuidade das atividades.
Próximo foguete já está nos planos
A experiência na competição em São Paulo já serve de base para os próximos projetos da Vento Norte UEA. A intenção é retornar à LASC, possivelmente em 2027, novamente na modalidade de apogeu de 1 quilômetro.
O novo foguete deverá incorporar mudanças identificadas a partir dos problemas enfrentados pelo Zagaia, especialmente nos sistemas eletrônico e de recuperação. O nome ainda não foi divulgado, mas a equipe afirma que fará referência a uma ferramenta relacionada à história do Amazonas.
Para os estudantes, a iniciativa também busca incentivar outros jovens do estado a investir em ciência, tecnologia e inovação.
“Só pelo fato de não existir em nossa casa, não nos proíbe de criarmos nela. O projeto, acima do escopo, é uma iniciativa inovadora que sobreviveu a diversos ‘não vai dar certo’, mostrando que a resiliência pode superar essas adversidades”, destacou Marcos.
Segundo ele, a participação em Iacanga pode representar o início de uma presença maior do Amazonas em projetos ligados à ciência e à tecnologia aeroespacial.
“Esperamos despertar nos jovens amazonenses a iniciativa de pesquisar, criar e inovar”, finalizou.

