Ceuta, na Espanha, ainda tentando se recuperar da chegada repentina de 72 mil migrantes em uma única semana, busca transferir centenas de menores desacompanhados que permanecem no enclave para o território continental espanhol, confirmaram autoridades locais nesta quarta-feira (5).
Embora a grande maioria dos migrantes já tenha retornado ao Marrocos, cerca de 1.100 menores desacompanhados que chegaram antes e durante o fluxo, e que não podem ser deportados sumariamente, permanecem no local, segundo o governo regional.
Muitos estão alojados em acomodações improvisadas em galpões ou dormindo nas ruas, uma vez que os centros de acolhimento de Ceuta enfrentam dificuldades para atender à demanda.
Cerca de 75 pessoas morreram durante a corrida pela fronteira na semana passada — uma das duas fronteiras terrestres da União Europeia com a África —, o que gerou alarme em todo o bloco e reacendeu memórias da crise migratória de 2015-2016.
Embora os governos regionais sejam obrigados a ajudar territórios sobrecarregados em situações de emergência, cresce a tensão entre o conservador Partido Popular (PP) da Espanha e o partido de ultradireita Vox, que governam quatro regiões em coalizão — sobre o cumprimento da lei.
O líder do Vox afirmou que “nem um único euro” do dinheiro espanhol deveria ser destinado aos menores migrantes.
Mesmo que as regiões aceitem acolhê-los, especialistas alertam que o processo de identificação e realocação pode levar meses, exigindo entrevistas individuais, relatórios e contato com os países de origem para descartar a possibilidade de devolvê-los às suas famílias.
“Estamos clamando por ajuda e assistência”, disse na quarta-feira o chefe do governo local de Ceuta, Juan Jesús Vivas, à emissora espanhola RTVE. “É uma situação absolutamente insustentável.”
Emergência migratória
Sob uma reforma da lei de imigração espanhola implementada em 2025 — após uma onda migratória sobrecarregar os centros de acolhimento nas Ilhas Canárias —, menores desacompanhados devem ser redistribuídos de territórios sobrecarregados em até 15 dias após a conclusão de seus processos.
Discordâncias sobre essa política levaram o Vox a abandonar cinco governos de coalizão regional que mantinha com o PP em 2024, depois que este apoiou um plano do governo socialista para realocar 400 menores das Ilhas Canárias para a península. Desde a reforma, 719 menores foram transferidos das ilhas para a Espanha continental, segundo dados do governo divulgados em abril de 2026, e mais de 400 menores que chegaram a Ceuta foram realocados para outras regiões.
A questão ameaça criar novamente uma divisão entre os dois partidos, que formaram coalizões em quatro regiões este ano — parcerias que esperam servir de modelo para convencer os eleitores a lhes confiar o governo nacional nas eleições previstas para o ano que vem.
Isso também pode tensionar ainda mais a relação da Espanha com países europeus governados por conservadores, como a Itália, que suspendeu por um mês as regras de livre circulação do Espaço Schengen com a Espanha após a corrida à fronteira do enclave.
Após afirmar inicialmente que todos os migrantes deveriam ser repatriados, Alma Ezcurra, do PP, declarou à emissora de rádio espanhola Onda Cero, nesta quarta-feira (5), que é preciso seguir o devido processo legal para identificar aqueles que se suspeita serem menores. “Não sabemos nem quantos são”, disse ela.
O governo espanhol aprovou um financiamento de 25 milhões de euros (aproximadamente 148 milhões de reais) para Ceuta, destinado a apoiar os menores desacompanhados.
“A solidariedade interterritorial é necessária para que esses menores sejam levados a outros locais onde terão melhores condições”, disse Miguel Ángel Pérez, representante do governo no enclave, nesta quarta-feira (5). “A lei deve ser cumprida.”

